Home Cardus Edição 148, agosto 2025
Aida




Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


Os nomes também emigram


As mulheres vinham à porta das barracas chamar os cachopos,
esvaíam-se num nome gritado.

José Luís Peixoto, in Livro


Aida
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Já muito foi escrito sobre terem sido divulgados nomes estrangeiros de crianças inscritas em escolas portuguesas. Após a sua enumeração, foi repetidamente gritado com enorme indignação: “Estes nomes têm zero de português, zero!”

Eu não conheço nenhuma destas crianças, mas presumo que sejam filhas de imigrantes a viver em Portugal, tendo ou não nascido cá. Seja qual for o caso, sabemos que qualquer nome está sempre ligado a uma carga identitária, de acordo com a cultura em que nascemos e crescemos. É o chamamento a que automaticamente respondemos quando alguém a nós se dirige. Sempre foi assim, desde que, como seres gregários, nos habituámos a nomear. Por isso, não se mudam os nomes quando se muda de país. Quando muito, adaptam-se, sempre que em termos fonéticos ou de escrita, se torna difícil a sua pronúncia ou grafia. Foi isso que aconteceu com muitos dos nossos imigrantes por razões de natureza prática. No entanto, quando os seus filhos nasceram em terra alheia, não tiveram a preocupação de lhes dar outros nomes que não aqueles que estavam habituados a usar dentro do núcleo familiar.

Dei aulas durante vários anos em contexto migratório, e, das inúmeras turmas que tive de estudantes lusodescendentes, poucos casos encontrei de nomes que não obedecessem a um padrão claramente lusófono. Esta é a situação normal e natural já que, quando emigramos, não levamos apenas o corpo, mas a cultura que nos habita e em nós respira. O nome faz parte dessa bagagem cultural, que emigra juntamente connosco e com a qual não é habitual fazer cortes.

Quem grita um nome sob a forma de libelo acusatório ou o expõe nas redes sociais, no mínimo, deveria conhecer o drama vivido por uma parte das nossas crianças quando, nas salas da imigração, foram igualmente confrontadas com os seus. Teria vários testemunhos para dar, mas vou ficar-me apenas por três. Começo por Cidália Faria, atualmente Juíza do Tribunal de Justiça do Ontário, que chegou ao Canadá com 3 anos: “Os professores tentaram mudar o meu nome. Mas, sendo muito determinada desde o início, eu nunca aceitaria uma versão curta anglicizada ou um substituto. Rasurava as «sugestões» e escrevia «Cidalia» em todos os livros escolares até pegar.”

Segue-se Paula Bernardino, Presidente do Conselho de Administração da Caixa Portuguesa Desjardins de Montreal: “Foi a minha primeira entrevista e aquela que mais me marcou. A entrevistadora agarrou-se ao meu nome de família: «Bernardino é de que origem? Tu falas bem francês? (…). Vou telefonar aos candidatos e, se fores escolhida e telefonar para a tua casa, as pessoas em casa vão perceber?» É claro que não obtive o emprego e, depois de 30 anos, ainda me lembro do trauma dessa entrevista.”

Recordo também excertos da crónica que, em 2023, escrevi sobre a obra do jovem açor-canadiano Michael Gouveia, “L’Héritier”. “O narrador chama-se João e é levado ainda criança da ilha de S. Miguel para Montreal. Os pais não imaginavam que ele iria crescer num país que não conseguia pronunciar o ditongo «ão». No primeiro dia de aulas, teve de dizer o seu nome:

- João Silva, madame!

A professora, perante a estranheza da pronúncia, insiste, e ele repete: «João Silva».

Ela passa à frente, e João assiste, envergonhado, à sucessão das apresentações. Este foi o momento da sua mais profunda humilhação pública. Filho de emigrantes, sente o nome como um ferrete de classe rejeitada e não pertença ao grupo. Inicia, assim, um processo de isolamento e solidão, apesar de algumas tentativas frustradas de fazer amigos.”

A integração é um processo biunívoco - é importante que saibamos respeitar os valores do “outro”, mas o “outro” deve igualmente respeitar os nossos. O nome é o primeiro de todos e não deve ser usado como arma de combate político.