Home Cardus Edição 15, novembro 2025

CRÓNICA

Aida



Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


REGRESSO A TORONTO


Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,
Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.

Fernando Pessoa


Aida
ID 39678334 | Toronto © Songquan Deng | Dreamstime.com

Escrevo hoje a última crónica deste mês. A próxima sairá em outubro, o mês em que foi lavrada a minha certidão de nascimento como cronista.

Após 27 anos de uma colaboração bastante regular, recordo o primeiro passo desta minha caminhada. Tudo começou com um amável convite de Frank Alvarez, num jantar em casa de amigos, em que pude ver o número zero do jornal Milénio. Comentámos o aspeto gráfico, o número de páginas e conversámos sobre o papel da imprensa de língua portuguesa junto da comunidade luso-falante.

Confesso: na altura, considerava um atrevimento aventurar-me por áreas que não dominava, como era o caso da crónica jornalística. Por outro lado, havia a considerar a exposição pública. Agradaria a uns, faria mossas a outros, mas sempre acreditei que é nesta dialética dos opostos que se desencadeiam as forças que fazem girar o mundo. Como nunca viro a cara a desafios, comecei a amadurecer a ideia de um dia me apresentar com um texto para o submeter à apreciação do diretor do jornal. Nunca pensei, no entanto, que esse incentivo viesse a ter origem numa emoção tão forte como foi o desaparecimento de Amália Rodrigues. Toda a baixa portuguesa de Toronto chorava pela diva do xaile negro. Nas fotografias exibidas nas montras das lojas, nos jornais expostos nas bancas das papelarias, nas músicas que ecoavam do interior das casas especializadas em discos, CDs e cassetes pirata. Repentinamente, todo aquele tecido urbano se transformou numa casa portuguesa.

Foram esses momentos que em mim despertaram um novo olhar sobre o universo das ausências. Observei, nessa hora longe da Pátria, a saudade coletiva por uma mulher que, povo como nós, a todos representava na melopeia das canções que a celebravam. O país galgou as fronteiras da geografia e veio quedar-se ali junto a nós para que todos juntos chorássemos a dor daquela partida. Como não tinha em casa nenhum CD de Amália, comprei um e fui para casa ouvi-lo. Foi, então, que dei por mim a escrever um texto, a fazer-lhe também eu a minha homenagem.

No dia seguinte, levei-o ao Zé Mário e perguntei-lhe se queria publicá-lo. Atirou-me com um enérgico “com certeza” como se não existisse qualquer dúvida sobre a qualidade do que escrevera. Não tenho a certeza, mas acho que ele, naquela altura, nem o chegou a ler. Esta é a história da minha primeira crónica, aquela com que, desde então, passei a prestar até hoje a minha colaboração a título voluntário.

Admito que nos primeiros tempos nem sempre foi fácil. Lidava com as palavras com imenso cuidado. Temia ferir suscetibilidades e não ser suficientemente hábil na escolha dos temas. Pior, ainda, não os saber tratar de forma a chegar a um público tão diversificado.

Se o caminho se faz caminhando, o da escrita não foge à regra. Semana após semana, fui-me sentindo mais firme, mais liberta das minhas pressões interiores, das amarras que eu própria tecera em nós urdidos todos eles de uma grande insegurança. Quando dei por mim, passei do gatinhar para a passada segura, determinada a seguir em frente. Daí até ficar dependente desta minha crónica semanal foi um pequeno passo. Já não me imagino sem este exercício de disciplina e reflexão sobre os pequenos nada do quotidiano. É a minha higiene mental, o pedaço de intimidade que reservo entre mim e o papel, branco na sua nudez natural, onde dou corpo e alma a mais um instantâneo da vida. Mas é também uma saudade que faz um voo rasante pelo fermento da ausência e regressa lêveda do desejo de um reencontro.

Porque outubro foi também o mês da minha primeira chegada a Toronto, um lugar de onde já fui.