Cardus Edição 141, janeiro 2025

ARTE E O TEMPO

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Anthony McCall – Rooms

MAAT
30/10/2024 a 17/03/2025

ARQUITECTURAS MÓVEIS DE LUZ

A luz é – enquanto matéria e objecto – o núcleo da obra de Anthony McCall (1946). O artista apresenta, no MAAT, Rooms: a fotografia Room with Altered Window (1973) e quatro instalações fílmicas (2007-2020). E, sempre, com espantosa simplicidade de recursos: escuridão, projector e máquina de névoa.

A referida fotografia está colocada no caminho de acesso à sala escurecida. Ela remete para uma experiência fundamental realizada no estúdio do artista. Querendo modelar a quantidade de luz solar que atravessa a janela do estúdio, McCall usa papel preto, recortando neste uma fenda estreita para que a luz incidente pudesse esgueirar-se (ou projectar-se) para o interior. Consequentemente, uma lâmina plana de luz irrompe na sala, realçada pela existência de poeira (ou névoa) no ar.  

A fotografia (analógica) é, em geral, definida como arte ou técnica de fixação do traço de luz (natural / artificial). Etimologicamente: uma escrita de luz. Primeira manipulação literal da luz (tornando-a assim em material e objecto, e, doravante, não só iluminação natural e metáfora), a fotografia é – tal como a luz eléctrica, artificial e fabricada – uma máquina de distribuição da luz. Enquanto encenador da luz, o fotógrafo provê uma espécie de fóssil de luz de um dado momento (i.e. um compósito de realidade e ficção, decorrente de um conjunto de processos naturais e não-naturais).

Do mesmo ano é a data de outra obra capital: Line Describing a Cone – matriz de futuras instalações ou obras («solid-light») nas quais se concilia (como em Rooms) a aparente imaterialidade da luz com a aparente consistência dos sólidos gerados. Nessa obra, um ponto branco, projectado na parede, move-se lentamente. Desenha um círculo, quase completo. Por essa via, a sala escurecida é ocupada por um cone de luz. A névoa torna visível o raio de luz proveniente do projector durante a lenta realização (no espaço real e tridimensional) do desenho do círculo e a sua evolução em grande cone. Uma vez formado o cone, o espectador poderá – ao invés do espectador imóvel e colectivo, capturado na sala de cinema – deambular pelo espaço expositivo e o interior do efémero cone (nele desaparecendo e reaparecendo).

Anthony McCall 'Split Second' 2018

A instalação do MAAT é constituída por quatro obras fílmicas – realizadas depois do seu regresso à produção artística em 2003 (após um interregno de 24 anos): duas projecções verticais com som (um elemento retomado de obras da década de 70), Rooms e Skylight (ambas de 2020); Split Second Mirror I (2018) e You and I Horizontal III (2007). Em You and I Horizontal III, a imagem enorme resulta da combinação de duas projecções em ecrãs translúcidos. Em Split Second Mirror I, o desenho volumétrico projectado no espelho é devolvido à parede onde está o orifício donde emana o feixe luminoso do projector.

Sobressai o estatuto híbrido dessas obras, criadas nos interstícios entre as artes (intermedia). Nomeadamente: o desenho (origem bidimensional das obras «solid-light» e, também, elemento crucial do processo criativo do artista); o cinema (objecto estruturado em termos temporais); a escultura (volume projectado, explorado e ocupado pelo espectador em movimento).

Anthony McCall : Solid Light

As obras são dimensionadas a pensar na presença e integração dos corpos dos visitantes. Tornadas, em simultâneo, em espectadores e actores, as pessoas deixam-se encantar pela luz e pelo espaço. Sentem-se levadas a tocar (ou atravessar) os limites da película (superfície ou plano) de luz; a contemplar as sombras parciais dos corpos, próprios ou alheios, quando estes interceptam planos luminosos ou complexas intersecções dos mesmos (definidoras de vazios ou bolsas espaciais). É valorizada quer a interacção das pessoas com as obras – actualizando, desse modo, a intrínseca potencialidade performativa das mesmas – quer a das pessoas entre si – as quais, apesar de desconhecidas umas para as outras, sussurram entre si, na escuridão. Além da dimensão social e performativa das suas instalações, McCall valoriza as imagens das suas peças amplamente partilhadas nas redes sociais – produzidas por quem as experimentou, demoradamente, sozinho ou acompanhado, e desse irresistível acontecimento quis dar um testemunho.