Cardus Edição 145, maio 2025
O MAAT acolhe a primeira exposição antológica de Rui Moreira (1971), intitulada Transe. Cerca de 80 desenhos e pinturas sobre papel, de médio e muito grande formato. Na Praça do Carvão, uma escultura de grande dimensão, a qual o visitante poderá reconhecer em duas obras bidimensionais. Ambas datadas de 2009: uma obra de médio formato (Estudo para “Nosso Senhor dos Suicidas”) e outra de grande formato (Nosso Senhor dos Suicidas), executadas a guache, caneta e lápis de cor. Aos materiais indicados, acrescente-se – em jeito de inventário – a tinta-da-china, a caneta de arquivo, a aguarela e a caneta de gel. A eleição de uma paleta cromática restrita é conciliada com a valorização de contrastes (nomeadamente, entre claro e escuro; entre zonas foscas do guache e o brilho dado pela caneta de gel). A visão aproximada das obras permite perceber o grau de minúcia e de lentidão necessárias à execução das mesmas. A repetição de pequenos traços com riscadores incita a um estado meditativo, à concentração intensa, senão ao transe. Na produção de obras de grande formato, os movimentos curtos e repetidos contrariam uma estrita lógica de eficácia ou de produção industrial. No que concerne à implicação do corpo, ocorre-nos – por analogia – a série de obras (desenhos e esculturas) de Jan Fabre (1958), criadas desde o final dos anos setenta até à década de noventa, usando esferográfica BIC (The Years of the Hour Blue no Museu de História da Arte, Viena, 2011).
Sem atender a uma ordenação cronológica, Transe evidencia a coexistência de elementos figurativos com os não-figurativos na obra deste artista. Em obras figurativas surgem figuras humanas, animais ou vegetais – em solidariedade orgânica; pormenores de roupas, adereços e gestualidades. Em obras não-figurativas: cruzes, segmentos lineares ou polígonos em composições que lembram a arte islâmica, as mandalas hindus e as rosáceas da arquitectura medieval. O desenvolvimento da sua obra aparenta ser lento, integrando e ampliando motivos de obras anteriores. Mormente, naquelas composições – baseadas ora na extrema simplicidade formal, ora (eventualmente) na desordem acidental, mais ou menos controlada – em que as formas geométricas assomam em infindáveis nascimentos e proliferações.
Rui Moreira convoca uma profusa diversidade de referências culturais, oriundas de distintas geografias: literárias, plásticas e cinematográficas, a cultura popular, narrativas e simbologias. As experiências meteorológicas, ritualísticas e de frenesim criativo, voluntariamente acolhidas e procuradas, constituem incitações a estados espirituais cruciais ao desenvolvimento do seu trabalho criativo. Tais como: a deslocação a certos territórios geográficos (Marrocos ou Trás-os-Montes), implicando a sujeição a experiências extremas (desenhar sob altas temperaturas, silêncio e luminosidade do deserto, Saara, em 12 anos; incorporar um grupo de Caretos (Carnaval de Podence – reconhecido pela fidelidade às suas vertentes tradicionalmente ruralistas); o recolhimento no atelier, trabalhando horas consecutivas, abeirando-se da extenuação física ou mental. Potências são desbloqueadas dessa prática de extenuação – comum no treino de atletas, mas não só. A cultora de performances de longa duração, Marina Abramovic, vê na simultânea exaustão de energia e pensamento a possibilidade de acesso a um estado de harmonia com tudo em redor, em função do qual se sente o corpo como destituído de limites e o medo e a dor como desprezíveis.
Os estados de transe estão presentes em vários contextos culturais, desde as práticas xamânicas até às modernas adaptações. Os meios indutores dos mesmos (meditação, sugestão hipnótica, narcóticos, cantos monótonos, estribilhos repetidos sem fim, danças, práticas ritualísticas, etc.) criam um meio sensorial aberto ao sobrenatural (ascensão celestial / visão extática) ou fomentam estados alterados de consciência (no qual o indivíduo se desliga mentalmente do seu ambiente e se deixa absorver profundamente pelo seu íntimo). Regressados pelos ares, esvoaçantes ou aos trambolhões, os mascarados irrompem na vastidão das paisagens como figuras do assombro e da transfiguração. Desses seres (‘caretos’ ou travestidos ‘marafonas’) insolentes e inconvenientes, temíveis e demoníacos, transfigurados obreiros da breve suspensão da realidade quotidiana, eles retêm, ainda, a íntima ligação da vida e da morte, pois a vida só perdura renovando-se.