Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
«Intrincado é também o denso bordado das circunstâncias. / O carreiro de formigas sobre a erva. / A relva cosida ao chão. / O desenho das ondas onde o graveto se insinua. // Acontece assim, estou e olho. / Volteia sobre mim uma borboleta branca / batendo asas que só a ela pertencem, / e, sobre a minha mão, a sombra que / não é de outra, de mais ninguém, é só dela. // E, vendo isto, sinto sempre uma certeza abandonar-me: / a de que aquilo que é importante / o seja mais do que aquilo que o não é.» (in “Pode Ser Sem Título” de Wislawa Szymborska)
Com um percurso de cinco décadas, Carlos Nogueira (1947) expõe na Culturgest, na galeria 3, até 1 de Fevereiro de 2026. Pensamentos. Em Papel é o título da exposição.
Carlos Nogueira (C.N.) continua a integrar e intersectar diversos géneros artísticos na sua obra: desenho, performance, instalação, pintura, escultura. A demonstrar tal trajecto, destacamos: a exposição água. e a casa é o mundo, constituída por obras produzidas entre 1981 e 2023, ocorrida no último trimestre do ano de 2023, no Palácio Anjos, Algés.
Na actual exposição, C.N. apresenta um conjunto de páginas de projectos para instalações / performances e um objecto-livro – ambos da década de oitenta. É enganador pensar-se que o papel é, exclusivamente, a matéria e o suporte das obras expostas. Eis duas excepções evidentes: a obra em madeira, papel, cartão, tela e tinta acrílica, intitulada Livro do Céu Diurno (1985); ferro, contraplacado de madeira e tinta acrílica de Desenhos (1989). Respectivamente: um livro aberto – apoiado em brancas e robustas páginas, com formas recortadas, salientes, sobrepostas às coberturas (capa e contracapa) – que dá a ler unicamente a materialidade do suporte e a preciosidade da matéria pictórica; duas pinturas monocromáticas, quase idênticas – cada uma fazendo (numa espécie de take?) sobressair os materiais exclusivos da pintura: suporte, pincelada, fixação e pigmento.
Ressalta a um olhar mais atento a menção a um elemento constante das respectivas fichas técnicas: o tempo. Pressinto que seja, o fio invisível, omnipresente, que fundamenta e organiza as afinidades entre as peças para aqui convocadas.
A temporalidade intrínseca a tudo o que existe – viventes e coisas; a passagem do tempo de que é feita a fluidez da vida; a paragem do tempo, incorporado nas obras – elas próprias constituídas por restos materiais da vida (encontrados, herdados ou agrupados), resgatados pelo apurado sentido poético do autor. São vários os meios pelos quais C.N. traduz a sua sensibilidade ao tempo (referindo momentos cósmicos, horas e estações, adequadas a uma intervenção intencionada) e faz coexistir diversos tempos na mesma obra.
Perante as obras expostas o espectador vê desenrolar-se um processo criativo, em papel (pautado, quadriculado ou em páginas de agenda), realizado com lentidão, paciência e meticulosidade; feito de escrita e rasuras (a sugerir: tempo e mudança), manifestando-se mediante a coexistência híbrida de esquemas, esboços, medições (espaciais e temporais), indicações verbais e (colagens de) excertos poéticos (Camões).
‘Pensamentos’ (a implicar): investigação, pensamento e fórmula, reflexão consciente e explícita e projecto / criação de possibilidades de uma situação (acção).
Em A Camões e a Ti (1980), tendo como mote o verso de um soneto de Camões, «todo o mundo é composto de mudança», é concebida uma intervenção de rua (deposição de um ramo de flores e a distribuição de panfletos) e a inscrição de um graffiti (o dito verso camoniano) numa parede. Em O Pombal – Para um levantamento da paisagem (1973): 99 pombas de brincar convocam a participação dos espectadores / visitantes. Em Gosto muito de ti (1980) existem duas vertentes: (a) a construção de objectos numa altura específica do dia e (b) o desenho de hipóteses de situações de esbanjamento (e eventuais consequências comportamentais e emocionais sobre as pessoas), circunscritas ao percurso ferroviário entre Lisboa e Oeiras. A dita acção de esbanjamento, anónima, consiste na disseminação dos objectos construídos em determinados lugares (pré-estabelecidos ou escolhidos por decisão espontânea) e na monotorização da sorte desses objectos nas secções de ‘Perdidos e Achados’. Os objectos perdidos destinam-se a ser encontrados por indivíduos que, em conformidade com as suas interrogações e valores, os tomarão, doravante, ora como achados pessoais preciosos, ora como achamentos ainda sem destinatário legítimo.
Desenhos de pensamento: espécie de vestígios de um pensar do autor (doseando cálculo e juízo)? Forma de organizar o pensamento – «pensamentos», segundo o autor – e prever / investigar / dispor perante si os meios, as hipóteses / ocorrências do que quer realizar? Enquanto vestígios de processos mentais do criador, os registos manifestam métodos de trabalho e camadas de escolhas. Desenhos de pensamento, tal como o autor fala de (e intitula as obras como) «desenho de vento» ou «sombras de vento»? As peças da exposição demonstram que toda a acção pode tornar-se desenho. Mais: a maioria dos projectos confirmam a arte como um acto de intimidade.