Cardus Edição 142, fevereiro 2025

Cardus


Enquanto esperamos pela vida, a vida passa.

Séneca


Queimar tempo, numa tarde de inverno, sexta-feira, em Alcobaça


Como queimar uma hora de inverno, à tarde, numa sexta-feira, em Alcobaça? Fosse segunda-feira e ia-se até ao mercado, onde há sempre muita vida e gente animada a fazer por ela. Ficar no carro a ler um livro? Talvez dar uma volta a pé, está frio, mas o céu está aberto, o sol de inverno lá está a brilhar, a dar luz e calor a quem precisa.

Sim, é isso. Vestir o blusão e ir até ao centro. Que é já ali, a duzentos ou trezentos metros, Alcobaça é uma cidade pequena.

Desce-se pela rua e passa-se em frente do atelier da ceramista, onde em princípio estaria quem quis em Alcobaça parar. Mas, na porta, lá está o habitual “volto já”, por outros lados andará quem se faz esperar.

As ruas estão pouco movimentadas, para não dizer desertas, não há turistas, as pessoas (poucas) caminham rápido, bem agasalhadas, poucas falas, rostos direitos e olhos em frente. Apenas dois jovens ao telemóvel animam a rua, ele (o primeiro) em conversa alegre, ela (mais à frente) mais séria e aparentemente preocupada, “ desculpa” era a palavra que mais repetia. Lojas abertas, mas sem clientes, apenas numa delas um vendedor esforça-se por vender um tapete a uma senhora idosa. O chão está cheio deles, a senhora parece não estar muito convencida, mas o vendedor não desiste.

Num instante se chega ao largo do mosteiro, lá está ele, fachada ao sol e as esplanadas em frente com muitas cadeiras vazias. Por uma rua transversal, confirma-se que Alcobaça também tem um castelo, quatro paredes em ruínas, mas é um castelo.

Podia sentar-me na esplanada, mandar vir uma imperial acompanhada dum bolo conventual, mas cerveja e bolos não ligam muito bem (com salgados, isso sim, mas comer salgadinhos em Alcobaça, em frente ao mosteiro dos monges gulosos, é quase um sacrilégio), o melhor mesmo é voltar para trás, além disso está frio e as esplanadas apanham pouco sol.

Aquela “verdade” que aprendi, na infância, de que o sol quando nasce é para todos, afinal é falsa. Veja-se a fachada lateral do convento: está virada a norte, nunca apanha sol, apenas frio e humidade; e umas coisas escurinhas e feias, vão trepando por ela acima. Pobre fachada, desprezada e ignorada.

Ah, O Alcoa vai cheio, a água corre limpa, alegre e veloz ao encontro do amigo Baça.

O vendedor continua a mostrar tapetes à senhora idosa, mas ela, aparentemente, ainda não comprou nenhum.

É assim, não há muito movimento em Alcobaça nesta sexta-feira de inverno.  O melhor é mesmo voltar para o carro e esperar, não deve tardar, olha … lá vem ela, afinal foi rápido, bendita ceramista que foste mais cedo para casa.