Outras vezes oiço passar o vento,
e acho que só para ouvir passar o vento vale a
pena ter nascido
Fernando Pessoa
Estamos em Angola, dois ou três anos depois da independência. Vida difícil, recolher obrigatório, lojas e supermercados de prateleiras vazias. Via rádio ou de boca em boca, conseguia-se saber qual o estabelecimento que iria receber produtos alimentares. As filas começavam a formar-se ainda o sol não tinha nascido, quando aparecia já havia um comício de gente à porta do estabelecimento. Militares armados evitavam que a mole de gente invadisse o interior da loja e que a fila de espera se mantivesse mais ou menos ordenada no meio da gritaria e discussão. A fila só desaparecia quando as prateleiras estivessem de novo vazias o que poderia acontecer muito rapidamente.
Um grupo de amigos reunia-se, todos os fins de semana, numa praia na zona da Corimba, para onde iam de manhã e regressavam à noite. O momento mais desejado era o almoço que todas as semanas ficava a cargo de uma família ou alguém, de acordo com uma escala pré-definida e rigorosamente respeitada.
Chegada a sua vez, o casal reparou que apenas tinha no frigorífico um pequeno embrulho de ossos com pedaços de carne agarrada, que normalmente não dariam para nada, mas que, dadas as condições de vida e de necessidade, tinham ficado guardados no cantinho do congelador vazio.
Foram infrutíferas todas as tentativas para arranjar mais carne, peixe ou qualquer outra coisa para acompanhar a arrozada que os visados pensavam fazer (arroz, havia com fartura). Cancelar o picnic era proibido.
Sem alternativa, acabaram por se cingir ao que havia. Confecionou-se um arroz de ossos, adicionou-se os condimentos possíveis, enrolou-se o panelão em papel de jornal (para manter a temperatura) e lá marcharam para a Corimba no fim de semana aprazado.
A estratégia combinada entre os dois foi a de atrasar o almoço tanto quanto possível. Foi o que fez o marido que sistematicamente convidava os amigos para mais um mergulho, mais uns toques de bola, umas piruetas ou corridas pela praia. A partir de certa altura vieram as perguntas, quando é que se almoça, ainda é cedo, vamos aproveitar a água que está uma maravilha, mais perguntas, mais impaciência, a turba foi contida até ao limite possível, atingido quando um dos convivas, o mais afoito, decidiu por ele próprio avançar para o almoço, imediatamente seguido por todos.
A mulher, já preparada, abriu o panelão e distribuiu o arroz rapidamente pelos pratos de cada um. Estes foram devorados num instante, aparentemente ninguém se apercebeu que só tinham comido arroz de ossos, ninguém reclamou, pelo contrário, no fim choveram elogios à cozinheira. As caras sisudas e nervosas ficaram alegres novamente, o casal sorriu quando, na avaliação final, como sempre se fazia, o repasto foi classificado com nota positiva e ovacionado com palmas. Um alívio, também, para o casal, que teria agora alguns dias livres da preocupação do repasto do fim de semana.
Tempos de dificuldades, mas também de uma grande solidariedade, amizade e ainda de uma grande aprendizagem: saber viver com o que se tem.