Cardus Edição 145, maio 2025

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


MASCULINO-FEMININO (1966)

Jean Luc Godard


O roteiro nunca foi parte fundamental nos filmes de Jean-Luc Godard. Na realidade, o desprendimento narrativo sempre foi a chave de sua obra: ele rompe com a estrutura clássica, entendendo o cinema como um modo de olhar para o interior do indivíduo. Em suas próprias palavras, “a arte nos atrai apenas pelo que revela do nosso eu mais secreto.”

Em Masculino-Feminino, ele explora a ideia de contraste entre a figura do homem e a da mulher. Isso é realizado por meio da criação de duas personas, representadas por Paul (Jean-Pierre Léaud) e Madeleine (Chantal Goya).

Mais do que sobre a relação do jovem casal, o filme é sobre (pasmem) a relação entre o masculino e o feminino: a ideia de opostos complementares, como yin e yang. O masculino é impulsivo, barulhento e guiado por instintos, enquanto o feminino é calculista, silencioso e guiado pelo interesse. Isso não significa que os homens devam necessariamente se identificar com Paul e as mulheres com Madeleine; trata-se apenas de uma atribuição de comportamentos negativos aos papéis de gênero.

Godard hostiliza seu protagonista, Paul, com tanto afinco que dá a impressão de estar fazendo uma autocrítica. Ele falha nas relações com as mulheres, falha em manter sua imagem de intelectual, falha até mesmo como militante socialista — todas características que o diretor sempre cultivou em sua vida pessoal. O filme faz questão de adentrar a alma desse personagem fictício com o único intuito de humilhá-lo, quase como uma projeção de vingança ao jovem Jean-Luc.

Este texto ainda é reducionista para um filme com uma carga política e social tão extensa, mas, para isso, reservei outra frase de Godard que me permite finalizar fingindo que teria algo a acrescentar:

“Não vá mostrar todos os aspectos das coisas. Reserva para ti uma margem de indefinição.”