Cardus Edição 142, fevereiro 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Artigo 9º

(Tarefas fundamentais do Estado)

  1. a) […]
  2. c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;

MORABEZA: A ARTE DE DAR E RECEBER

 

A Inês Aguiar tem 20 anos e está a terminar o 3.º ano da licenciatura em serviço social. Encontra- se a fazer o seu estágio curricular numa casa de acolhimento de crianças e jovens em perigo, entre os 4 e os 17 anos. É voluntária na associação Querer Harmonia, onde é responsável pelo Departamento de Ação Social. No ano passado esteve na Ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, onde teve uma experiência de voluntariado internacional.

No decorrer da nossa conversa no Bristô Crioulo, no Centro Cultural de Cabo Verde, com “Porton d’Nós Ilha” dos Tubarões em música de fundo, matou saudades dos sabores da Cachupa de Carne e da Moamba de Galinha com funje. Ofereceu-me búzios da Praia Cemitério dos Búzios, que vou guardar no meu cantinho das viagens.

No voluntariado jovem, onde encontramos a irreverência de querer mudar o mundo, a economia da dádiva deve valorizar a disponibilidade e energia da juventude para experiências de voluntariado no país ou no estrangeiro. Designadamente, as soft skills que forçosamente aprimoram, são cada vez mais reconhecidas nos curricula; mas também a sua vontade de participação cívica com comunidades distintas das suas, torna estes jovens mais conscientes e melhores cidadãos. Fomos conhecer o que levou a Inês a abraçar o voluntariado e querer partir para o mundo e sair da sua zona de conforto.



Inês, como surge o voluntariado na tua vida?

Eu sou escuteira desde os 10 anos, e, portanto, sempre fiz voluntariado nos escuteiros. A associação Querer Harmonia, onde sou voluntária, surgiu porque a Diretora é amiga da minha mãe e deu-me esta oportunidade. Esta ONG dá várias respostas no apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade na zona de Sintra, designadamente alguns bairros sociais de Mem Martins. A maioria dos casos são reencaminhados pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Sintra, onde normalmente já vêm identificadas as medidas que nos cumpre seguir. O que faço lá é o acompanhamento a algumas famílias, fazendo a ponte entre serviços, os contactos que sejam necessários e eventual reencaminhamento para outros serviços, tudo sempre com supervisão.

Apesar de já seres voluntária em Portugal, decidiste ter uma experiência de voluntariado internacional. Porque decidiste ter essa experiência numa ONG em Cabo Verde?

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Em cima: Praia Cemitério dos Búzios, os pescadores na Praia de S. Pedro e as Sete Voltas;  Ao meio: estou com a Adriana, outra voluntária do grupo, e a Ronise, dona da Creche Kiloa; Em baixo: peixe esmoregal grelhado com legumes e a famosa cerveja Kriola, cachupa refogada e cachupa fresca com peixe e chouriço.

Foi através de uma amiga da minha avó, que trabalha na AMI | Assistência Médica Internacional, que soube que havia estas missões. Na altura da pandemia COVID19, soube que havia muitos problemas relacionados com o acesso a respostas como as vacinas nestes países. Lembro-me de pensar que gostaria de ajudar ou de participar nalgum desses projetos. Só que não tinha idade. No ano passado, quando fiz 19 anos comecei a pesquisar e encontrei a ONGD Para Onde? que faz a ponte entre Portugal e vários projetos internacionais em todo o mundo, o que torna o processo mais ágil e mais seguro. Inicialmente queria ir para São Tomé e Príncipe, mas continuava a não ter idade, porque exigem os 20 anos. Encontrei o projeto «Espaço Jovem» na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde, que era sobre educação com crianças e achei que era aquele que se adequava mais àquilo que podia dar ao projeto. Enviei a carta de motivação, fiz as entrevistas e fui aceite. Fui em junho do ano passado e fiquei lá 1 mês. O «Espaço Jovem» foi criado pelo Frei Silvino, italiano, que quis criar espaços que pudessem atrair jovens de bairros problemáticos, que os desviasse dos caminhos do álcool e das drogas e que lhes proporcionasse tempo de qualidade. Hoje existem três centros, nos bairros da Craquinha, da Pedra Rolada e da Ribeira Bote.

Fala-me desses centros e das atividades que desenvolveste.

O Centro da Craquinha onde funciona a Creche Kiloa, foi criado pela Ronise, com 34 anos, e que o Frei Silvino ajudou, com obras muito simples num anexo da sua casa. Acolhe crianças pequenas até aos 3-4 anos que antes ficavam na rua, pois as suas mães não tinham onde deixá-las. Neste momento, são 30 crianças que, graças a esta iniciativa, conseguem ter, pelo menos, uma refeição quente por dia, mediante um valor simbólico pago pelas famílias. De manhã, íamos para a creche, entre as 9h00 e as 13h00: dávamos comida aos bebés, dormiam no chão… quando adormeciam, íamos para os outros dois centros de estudo a partir da 15h00. Éramos quatro voluntários e alternávamos os centros dois a dois: um na Pedra Rolada e o outro na Ribeira Bote, dois bairros muito diferentes quer no que respeita às crianças quer às suas necessidades e do próprio bairro. Os miúdos da Ribeira Bote tinham mais dificuldades na escola e era muito mais difícil ajudar. Percebemos que isso derivava do seu contexto mais violento e com menos resposta institucionais. Por exemplo, no outro bairro havia uma escola. Sentimos a frustração por parte deles e, com mais rapidez, se cansavam e desistiam das propostas de atividades que lhe propúnhamos. Se por um lado foi difícil para nós voluntários, também foi mais desafiante: fez-me perceber a importância de ter respostas adaptadas a públicos diferenciados, o que tentámos fazer.

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Atividades e brincadeiras com as crianças dos Centros de Estudos e da Creche Kiloa

Conta-nos algum episódio que mais te tenha tocado?

Houve vários episódios, mas aquele que vai mais ao encontro do que estava a falar lembra-me a Mileidy, que nunca queria fazer os trabalhos, ficava rapidamente frustrada e desistia. No último dia em que estive no centro ela trouxe um teste que tinha feito: não tinha nota positiva, mas também não era uma nota baixa. Ela quis corrigir as respostas que estavam mal. Começámos a correção e ela pediu-me para corrigir o resto do teste em casa e depois devolver-lho. Não sabia que não voltaria lá e fiquei muito triste de não poder dar-lhe esse retorno.

Também guardo no coração a forma como fui sempre bem recebida, percebi que as pessoas lá são diferentes, muito mais acolhedoras. Lá está esta Morabeza de que se fala é real, esta amabilidade e afeto de saber receber as pessoas, o que é meu é teu, a minha casa é a tua casa. As oportunidades não são muitas, as pessoas podem não ter muito, mas aquilo que têm chega para todos. Além da experiência enriquecedora a nível académico e pessoal, as pessoas da ilha são mesmo incríveis, assim como as paisagens, a gastronomia e a música sempre presente.

Cliente
Guardo comigo o teste da Mileidy com a frase: "O Amor de Deus vem da pomba" e os bilhetinhos amorosos que me escreveram.

Tens ideias claras sobre o que deve ser o voluntariado e afirmas que recebes muito mais do que dás e que o voluntariado “não é para todos!”.

Acredito que toda a gente, se tiver oportunidade, deve fazer voluntariado. Não precisa de ser feito fora ou durante um longo período de tempo. Devemos adequar o voluntariado às nossas vidas, de forma que seja sustentável tanto para as instituições, como para nós próprios. Mas acredito que não seja para todos. O voluntariado deve ser encarado com seriedade, não nos podemos esquecer que são pessoas com quem estamos a trabalhar, ainda por mais se for num contexto internacional. Neste caso, são pessoas que podem ter outras culturas, diversas formas de pensar, hábitos diferentes dos nossos, e isso deve ser sempre respeitado por mais estranho que nos possa parecer.

É comum nos contextos internacionais, em países em desenvolvimento, criarmos a ideia de que “estamos a ajudar quem precisa muito da nossa ajuda”. Esta motivação, errada, para fazer voluntariado, pode impactar negativamente a vida das pessoas que estamos a ajudar. Os projetos que são criados para o desenvolvimento destes países devem incluir as pessoas e as vontades destas devem ser tidas em conta, e contribuir para que esses projetos não dependam de quem vem de fora, no fundo para que possam ser as próprias a dar continuidade. No fim, acredito que a maior motivação para o voluntariado deve ser aquilo que vamos colher dele, as aprendizagens, a mudança de perspetivas, e estarmos empenhados em aprender com quem nos pode enriquecer tanto enquanto pessoas, e por fim, empoderá-las. E na verdade o voluntariado pode começar à porta de casa, por exemplo, aquele vizinho idoso que tem dificuldade em subir as escadas do prédio. Porque não perguntarmos se podemos fazer as compras da semana e levá-las a casa?

Sugestão de Leitura da Inês: “O Altruísmo Não Existe”, de Raúl Manarte (Se achas que o altruísmo é só para os santinhos ou aspirantes a Madre Teresa de Calcutá, deixa-me dizer-te já duas coisas: primeiro, estás completamente enganado e, segundo, nem imaginas o que andas a perder. O altruísmo não só faz bem aos outros como também é muitíssimo benéfico para quem o pratica).

Ana B. Suspiro