Home Cardus Edição 15, novembro 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Direitos e deveres sociais

Artigo 78º

(Fruição e criação cultural)

  1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.
  2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais:
    1. b) Apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e coletiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade; […]
    2. d) Desenvolver as relações culturais com todos os povos, especialmente os de língua portuguesa […]

ALDEIA DJEMBE CAMP ONDE O «INSTRUMENTO SAGRADO» É REI

Já li e escutei em múltiplos lugares que a Arte une os povos, que não tem fronteiras e que até pode salvar a Humanidade. Mas tenho também a convicção de que só por ignorância da beleza e riqueza da cultura e ancestralidade de outros povos distantes ou diferentes, podemos enveredar por discursos de rejeição, ódio ou medo. Venho falar-vos de uma iniciativa, apoiada pela Câmara Municipal de Proença-a-Nova, na qual tive o prazer de participar no início do mês de setembro.

A Aldeia Djembe Camp (Djembe Camp ou ADC) é uma residência artística multicultural que acontece anualmente no Parque de Campismo da Aldeia Ruiva, em Proença-a-Nova. Um local paradisíaco atravessado pela Ribeira da Isna, onde nos podemos banhar na Praia Fluvial rodeados de uma vegetação luxuriante.

A iniciativa tem vindo a crescer em dimensão e diversidade. Ao longo dos anos foi agregando músicos e bailarinos em torno do Djembe, oriundo da costa Ocidental Africana, em especial da Guiné-Conacri, onde desempenha um papel sociocultural extremamente importante.

Geladjo Sané no Djembé acompanhado de Gandhi no Dundun

O Djembe, em forma de cálice de madeira revestido a pele devidamente tensionada, é acarinhado como “um ser vivo por nele viverem um Baobá, rei da floresta, e a pele de um animal”. É assim que o descreve um dos grandes mestres do Djembe, Famoudou Konaté, no magnífico documentário que vos convido a ver no fim da leitura. Esta celebração da cultura africana, especialmente da sua música e dança, surge em Portugal de forma mais estruturada a partir do encontro de amantes da música Africana e do Djembe. Fomos falar com o André Silva, mais conhecido por Gandhi, neste momento a viver na Austrália. De como conseguiu fazer a ponte entre o André Soares, o famoso Dez, e músicos de Berlim (Nathan Berg e Daniel Pies, agora a residir em Odemira), que tinham idealizado um convívio em Portugal em torno desta música. O que começou como o “Alentejo Djembe Camp” foi amadurecendo ao longo dos anos até se tornar no Aldeia Djembe Camp, um evento mais comunitário, mais aberto a todos, que tem agora lugar todos os anos na primeira semana de setembro, a 10 minutos de Proença-a-Nova.

Como nasce a Aldeia Djembe Camp e como se ligam os fios desta amizade?

O nascimento da Aldeia Djembe Camp, inicialmente Alentejo Djembe Camp foi fruto de caminhos que se cruzaram em Portugal e em Berlim: o André Silva (Gandhi), que conhecia o Dez e tocou num dos seus projetos de Djembe, conheceu o Nathan e o Daniel em Berlim, que queriam fazer um workshop com os seus alunos em Portugal. O Dez já é há muitos anos uma referência do Djembé em Portugal e amigo de longa data, portanto é natural que fosse ele a ajudar a criar essa ponte. O primeiro evento foi um workshop entre nós e depois foi crescendo e amadurecendo ao longo dos anos até se tornar naquilo que é hoje o Aldeia Djembe Camp, um conceito aberto, que vai na sua 8.ª edição.

Em cima à direita: Dez, Sana Camara, Gandhi e Moussa Oularé

É espantoso uma Câmara Municipal de uma vila do interior apoiar um evento multicultural que traz gente de tantas partes do Mundo. Foram vocês que tiveram visão ou o inverso?

A mudança para Proença-a-Nova foi ideia do Dez e acontece depois de ele fazer um projeto no qual foi descrito o que pretendia ser o ADC e o porquê ser uma mais valia para o concelho (motivo esse, termos tido as atividades paralelas, visitas guiadas, workshops para a escola primária, etc.). O ADC nasce em Proença-a-Nova com o intuito de abrir portas e criar uma ponte entre artistas oriundos dos diferentes cantos do mundo e África. Temos as portas abertas a todos aqueles que queiram mergulhar no mundo cultural da costa ocidental e austral africana.

Este ano o evento contou com a presença inédita em Portugal de Moussa Oularé, filho de um dos grandes nomes do Djembe, Fadouba Oularé, um dos maiores percussionistas do mundo. Será que o festival se está a tornar uma referência?

Eu suspeito que na Península Ibérica isso já seja uma realidade 😊. Mas o nosso objetivo principal é criar um espaço em que os músicos convidados e os participantes se sintam em casa. É muito importante nutrir uma paixão e a dedicação a esta cultura, quer ela seja mais recente ou desde nascença, como é o caso de grande parte dos professores que convidamos.

Moussa Oularé e os bailarinos Alya Makiti e Marisa Paulo

O evento também inclui outros instrumentos fulcrais para  música da costa Ocidental Africana , como a kora, o dunduns, o balafon, cabaças e kutir… para não falar das danças tradicionais africanas. Uns não podem viver sem os outros?

Todos esses instrumentos fazem parte do folclore musical da costa Ocidental Africana. O Djembe e os Dunduns diria que são, praticamente, inseparáveis e mesmo em conjuntos maiores, a melodia da Kora é essencial para contar uma história enquanto os Djembes e os Dunduns “descansam” e o balafon também dá um caráter completamente diferente à música. É o mesmo que uma orquestra clássica: podemos retirar algumas secções, mas é no seu todo em que está a sua força.

A ADC pretende ser um encontro de artistas e músicos com experiência, mas também um espaço de aprendizagem para quem nunca teve contacto com os instrumentos. Fala-nos um pouco sobre os workshops e como são dinamizados.

Este ano tivemos workshops para todos os níveis: Iniciados, Intermédio e Avançado. Os professores são informados de antemão e preparam os ritmos de acordo com o grupo que têm. Para quem nunca tocou é capaz de ser bastante desafiante, mas no final todos acabam por atingir o objetivo final, que é tocar juntos num palco e apresentar o que aprenderam. Os professores sabem muito bem puxar pelos seus alunos e também querem proporcionar uma experiência inesquecível em que os alunos vão para casa a pensar “Foi puxado, mas adorei!!”

Neste conjunto de imagens o balafon, o djembe, a cabaça, a kora e o dundun

Num dos serões pudemos ver um documentário sobre as cerimónias comunitárias em torno do Djembe e percebemos que alguns de vós viajaram para a Guiné-Conacri, aliás retratada numa exposição fotográfica. Será que, mais do que uma residência artística, também se trata de um apelo e reflexão sobre um modo de vida diferente?

Para perceber verdadeiramente o instrumento é preciso perceber a sua realidade. Se nós aqui na Europa vamos à nossa aula de Djembe uma vez por semana, por duas horas, em Conacri, por exemplo, é de manhã à noite. Lá respira-se a música e o instrumento, há uma quantidade enorme de talento, concursos nacionais, festejos tradicionais, toda uma vida em torno daquela música e dança . Não digo que para se aprender Djembe, tem que se ir até Conacri, mas essa experiência abre muito os olhos a uma pessoa e convida-nos a dar graças àquilo que temos e como para ser bom em alguma coisa é preciso dedicação e suor.  É uma lição de humildade sem igual. Talvez isto possa soar tudo muito duro, mas quem vai lá quer sempre voltar!

Nos eventos noturnos esta edição teve vários espetáculos, um deles com músicos de Viana do Castelo com abertura para outras sonoridades, como o jazz.  Pretendem prosseguir com este modelo?

Com certeza! Já tivemos teatro, trios de Kora, improvisos de canto. É um palco aberto a quem queira mostrar o que tem andado a fazer e a estudar sobre o Djembe e a música da costa Ocidental Africana.