Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas
Acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em todos os lugares. (…). Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança.
No ano passado, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres falámos sobre “Empoderamento no Feminino” com visões diferenciadas de três Mulheres, cada uma na sua área.
Parvenir à l’égalité des sexes et autonomiser toutes les femmes et les filles.
Mettre fin à toutes les formes de discrimination à l'égard des femmes et des filles, partout dans le monde. (...) Garantir la pleine et effective participation des femmes et l'égalité des chances en matière de leadership.
L’année dernière, à l’occasion de la Journée internationale pour l’élimination de la violence à l’égard des femmes, nous avons abordé le thème de « l’autonomisation des femmes » en présentant les points de vue de trois femmes, chacune dans son domaine.
Achieving gender equality and empowering all women and girls.
End all forms of discrimination against all women and girls everywhere. (...) Ensure women's full and effective participation and equal leadership opportunities.
Last year, on the International Day for the Elimination of Violence against Women, we discussed "Women's Empowerment" with different perspectives from three women, each in their own field.
Hoje apresento o projeto que nasce da mesma força: YAMAMA. Uma história de sororidade idealizado por uma dessas mulheres. Joana Peres é bailarina, pesquisadora e dinamizadora da Dança Africana da Costa Ocidental e do instrumento de percussão Djembe.
Diz de si própria sentir-se um “ser criativo de manhã à noite” e acredita no poder da arte para transformar vidas. Foi da ligação de afetos entre esta mulher portuguesa e duas jovens da Guiné Conacri que nasceu o projeto YAMAMA.
Como surge o projeto na Guiné Conacri e porquê as saias?
Joana Peres – Depois de 18 anos a visitar a Guiné Conacri, país onde ainda hoje me vou formar como bailarina e onde já tive outros projetos coletivos e solidários, YAMAMA é um sonho com várias tonalidades. A SAIA é símbolo de resistência e de proteção… esconde e acolhe. Ao mesmo tempo permite liberdade de movimento e alargar a nossa passada. O modelo é único, desenhado por mim, com uma versatilidade curiosa que se adapta a diferentes corpos, feito com tecidos WAX africanos cheios de história e significado.
Quem são essas duas jovens e qual o impacto de YAMAMA nas suas vidas?
Aujourd’hui, je vous présente un projet qui naît de cette même force : YAMAMA, une histoire de sororité et de création.
Joana Peres est danseuse, chercheuse et promotrice de la danse africaine de la côte occidentale et du Djembe. Elle se décrit comme « un être créatif du matin au soir » et croit au pouvoir de l’art pour transformer les vies. C’ est de son lien affectif avec deux jeunes femmes de Guinée Conakry qu’est né YAMAMA.
Comment le projet en Guinée-Conakry a-t-il vu le jour, et pourquoi les jupes ?
Joana Peres – Après 18 ans de visites en Guinée-Conakry, pays où je me forme encore à la danse et où j'ai déjà mené d'autres projets collectifs et solidaires, YAMAMA est un rêve aux multiples facettes.
La jupe est un symbole de résistance et de protection… elle cache et elle accueille. En même temps, elle offre liberté de mouvement et ouverture. Le modèle est unique, conçu par moi, avec une coupe qui s’adapte à de différents corps, réalisé avec des tissus WAX africains chargés d’histoire et de signification.
Qui sont ces deux jeunes femmes et quel est l’impact de YAMAMA dans leur vie ?
Today I present a project born from the same force: YAMAMA. A story of sisterhood conceived by one of these women. Joana Peres is a dancer, researcher, and promoter of West African dance and the Djembe percussion instrument.
She describes herself as a "creative being from morning till night" and believes in the power of art to transform lives. The YAMAMA project was born from the bond of affection between this Portuguese woman and two young women from Guinea-Conakry.
How did the project in Guinea-Conakry come about, and why the skirts?
Joana Peres – After 18 years of visiting Guinea-Conakry, a country where I am still training as a dancer and where I have already had other collective and solidarity projects, YAMAMA is a dream with many shades. The SKIRT is a symbol of resistance and protection… it hides and shelters. At the same time, it allows freedom of movement and lengthens our stride. The design is unique, created by me, with a curious versatility that adapts to different body types, made with African WAX fabrics full of history and meaning.
Who are these two young women and what impact has YAMAMA haS on their lives?
É um projeto familiar (com menos de 1 ano) que nasce com a Kadiza Touré, que conheço há 18 anos e que hoje tem 25. A Kadiza é a jovem companheira que sempre me recebe quando viajo para Conacri. Acompanha-me ao mercado e, muitas vezes, cozinha para mim … foi e continua a ser a minha guia…no fundo a minha anfitriã. Tornou-se, uma filha, uma amiga, uma irmã mais nova. Hoje é a minha consultora no projeto YAMAMA: é ela que compra os tecidos em videochamada a partir dos mercados (quando a rede o permite). Eu vou escolhendo cores e padrões a dedo, aqui deste lado da Europa. Há alguns desafios na escolha nas cores e padrões porque cá somos mais contidos e é preciso fazer um compromisso entre o que é usável e o último grito da moda. Foi a Kadiza que me apresentou a Nga Marie, uma jovem costureira da mesma idade, com 5 filhos, que acolheu o projeto com muito carinho e entrega. Formou-se assim a equipa: Kadiza a minha consultora, Nga Mari a minha costureira. Para ambas é mais do que uma fonte de rendimento pela venda de saias em comércio justo. Neste momento posso realçar sobretudo o impacto de valorização pessoal, de orgulho e pertença. Saberem que contribuem para que saias feitas por elas circulem, especialmente na Europa. Embora não tenha ainda um valor económico significativo tem um valor social e humano que é de acolher. Trata-se de uma ajuda sazonal, mas gostaria o projeto crescesse e que aumentassem as encomendas para ter um impacto real nas suas vidas.
As saias e os padrões dos tecidos tem significados únicos, uma simbologia que traduzem esse empoderamento…
É uma forma de auto-amor. São saias que te empoderam quando as vestes. Carregam uma certa magia associada ao padrão, à História, à forma como são feitas e ao facto de fazerem esta viagem intercontinental. Aquilo que sinto, nas mulheres que as vestem e as escolhem, é que há um click … toda a mulher tem o direito de se sentir bem na sua pele e o mundo tem a obrigação de fazer com que as mulheres se sintam seguras, magníficas e poderosas. YAMAMA significa YEMANJÁ, Rainha das Águas, da profundidade do mar e do universo feminino. É muito mais do que uma saia… é um espaço para Ser.
C'est un projet familial (qui a moins d'un an) initié par Kadiza Touré, que je connais depuis 18 ans et qui a maintenant 25 ans. Kadiza est la jeune qui m'accueille toujours lors de mes voyages à Conakry. Elle m'accompagne au marché et cuisine souvent pour moi… elle a été et reste mon guide… en quelque sorte mon hôtesse. Elle est devenue comme une fille, une amie, une petite sœur. Aujourd'hui, elle est ma consultante pour le projet YAMAMA : elle achète les tissus aux marchés par visioconférence (lorsque le réseau le permet). Je choisis les couleurs et les motifs à la main, ici, de ce côté de l'Europe. Le choix des couleurs et des motifs n'est pas sans difficultés, car nous sommes plus contraints ici et il faut faire des compromis entre ce qui est portable et les dernières tendances de la mode. C'est Kadiza qui m'a présentée à Nga Marie, une jeune couturière du même âge, mère de cinq enfants, qui a adhéré au projet avec beaucoup d'affection et de dévouement. Ainsi s'est formée l'équipe : Kadiza comme consultante, Nga Marie comme couturière. Pour toutes les deux, c'est bien plus qu'une simple source de revenus grâce à la vente de jupes issues du commerce équitable. Ce que je ressens aujourd'hui, c'est surtout l'impact positif sur leur autonomisation, leur fierté et leur sentiment d'appartenance. Savoir qu'elles contribuent à la diffusion des jupes qu'elles confectionnent, notamment en Europe, est très important pour elles. Même si cela n'a pas encore une valeur économique significative, la valeur sociale et humaine est inestimable. Il s'agit d'une aide saisonnière, mais j'aimerais que le projet se développe et que les commandes augmentent afin d'avoir un véritable impact sur leur vie.
Les motifs ont une signification… quelle est la magie derrière ces tissus ?
Chaque jupe est une forme d’amour de soi. Quand tu la portes, tu te sens puissante. Elle porte une magie liée au motif, à l’histoire, à la manière dont elle est fabriquée et au voyage qu’elle accomplit. YAMAMA signifie Yemanjá, Reine des Eaux, symbole de la profondeur de l’univers féminin. Plus qu’un vêtement, c’est un espace pour Être.
It's a family project (less than a year old) that started with Kadiza Touré, whom I've known for 18 years and who is now 25. Kadiza is the young companion who always welcomes me when I travel to Conakry. She accompanies me to the market and often cooks for me… she was and continues to be my guide… essentially my hostess. She has become like a daughter, a friend, a younger sister. Today she is my consultant on the YAMAMA project: she buys the fabrics via video call from the markets (when the network allows). I choose colors and patterns, here on this side of Europe. There are some challenges in choosing colors and patterns because we are more restrained here and it's necessary to compromise between what is wearable and the latest fashion trends. It was Kadiza who introduced me to Nga Marie, a young seamstress of the same age, with 5 children, who embraced the project with great affection and dedication. Thus, the team was formed: Kadiza as my consultant, Nga Marie as my seamstress. For both of them, it's more than just a source of income from selling skirts through fair trade. At this moment, I can highlight above all the impact on personal empowerment, pride, and belonging. Knowing that they are contributing to the circulation of skirts made by them, especially in Europe. Although it doesn't yet have a significant economic value, it has a social and human value that is truly welcome. It's a seasonal help, but I would like the project to grow and for orders to increase to have a real impact on their lives.
The skirts and fabric patterns have unique meanings, a symbolism that translates this empowerment…
It's a form of self-love. These skirts empower you when you wear them. They carry a certain magic associated with the pattern, the history, the way they are made, and the fact that they make this intercontinental journey. What I feel in the women who wear and choose them is that there's a click… every woman has the right to feel good in her own skin, and the world has an obligation to make women feel safe, magnificent, and powerful. YAMAMA means YEMANJÁ, Queen of the Waters, of the depths of the sea and the feminine universe. It's much more than a skirt… it's a space to Be.
Sessão fotográfica na Aldeia Djembe Camp, em Proença-a-Nova - Fotografias de Raquel Marto Gouveia
Séance photo au Djembe Camp Village, à Proença-a-Nova - Photographies de Raquel Marto Gouveia
Photoshoot at Djembe Camp Village, in Proença-a-Nova - Photographs by Raquel Marto Gouveia
O próprio tecido WAX africano tem uma história…
Os tecidos WAX têm uma história conturbada: nasceram da colonização, a partir da cópia de tecidos tradicionais da Indonésia pelos europeus. Foram rejeitados na Indonésia e então tentaram então vendê-los em África, onde foram bem acolhidos. Mantiveram a inspiração dos padrões, que são protegidos e que têm significados únicos: uns são usados para casamentos outros por razões políticas… uns significam liberdade, outros realçam a beleza da Natureza ou de flores que têm significados vários. Cada padrão conta uma história — de liberdade, de união, de celebração. Vestir um WAX é vestir memória e identidade. Por exemplo, nas roupas e nos tecidos que trago para mim associo-os sempre àquela viagem que fiz em determinado ano e lembro todas as mulheres usavam aquele mesmo padrão. É comovente olhar para um tecido e conectá-lo com as memórias associadas a cada momento.
Para ti, o que é vestir YAMAMA?
Há uma questão à qual sou bastante sensível que é a questão da apropriação cultural. Quando passeamos um tecido africano e, logo, um passado que nos associa a África é importante vesti-lo com respeito, com cuidado, refletindo lugares de fala, de pertença, mas acima de tudo perceber que podemos ferir alguém do outro lado. Não se trata de deixar de usar, mas de usar com consciência. Para que essa reflexão seja um portal que nos inspire a investigar, a perceber porque é um tema tão delicado, onde é que eu me posiciono, qual é o meu contributo para diminuir esta dor que vem de um colonialismo exacerbado que perdura até aos dias de hoje… quais as palavras que devemos repensar, quais as posturas que devemos assumir para construir um futuro diferente. Quer no que diz respeito à apropriação cultural, quer o que diz respeito ao racismo sistémico, quer quanto às diferenças de género que ainda persistem.
Gostaria que YAMAMA pudesse também ser esse local de reflexão e que daqui pudessem nascer novas sinergias entre todos.
Les tissus WAX ont une histoire complexe : nés de la colonisation, inspirés des motifs indonésiens copiés par les Européens, rejetés en Indonésie puis adoptés en Afrique. Chaque motif raconte une histoire — liberté, union, célébration. Porter un WAX, c’est porter mémoire et identité.
Por exemplo, nas roupas e nos tecidos que trago para mim associo-os sempre àquela viagem que fiz em determinado ano e lembro todas as mulheres usavam aquele mesmo padrão. É comovente olhar para um tecido e conectá-lo com as memórias associadas a cada momento.
Et la question de l’appropriation culturelle ?
C’est un sujet auquel je suis très sensible. Porter un tissu africain, c’est aussi porter un passé lié à l’Afrique. Il faut le faire avec respect et conscience, réfléchir aux lieux de parole et aux blessures héritées du colonialisme. Il ne s’agit pas de renoncer, mais de porter avec réflexion. Que cette réflexion soit une porte vers la compréhension : pourquoi ce sujet est-il si délicat ? Où est ma place ? Quel est mon rôle pour réduire cette douleur qui perdure ? YAMAMA veut être cet espace de dialogue, pour créer des synergies et construire un avenir différent.
Wax fabrics have a turbulent history: they originated from colonization, from Europeans copying traditional Indonesian fabrics. They were rejected in Indonesia, so they tried to sell them in Africa, where they were well received. They maintained the inspiration of the patterns, which are protected and have unique meanings: some are used for weddings, others for political reasons… some signify freedom, others highlight the beauty of nature or flowers, which have various meanings. Each pattern tells a story—of freedom, of union, of celebration. To wear wax is to wear memory and identity. For example, in the clothes and fabrics I bring home, I always associate them with a trip I took in a particular year, and I remember all the women wearing that same pattern. It's moving to look at a fabric and connect it with the memories associated with each moment.
What does wearing YAMAMA mean to you?
There's an issue I'm quite sensitive to, which is the issue of cultural appropriation. When we wear African fabric and, therefore, a past that connects us to Africa, it's important to wear it with respect, with care, reflecting on our places of speech, of belonging, but above all, realizing that we can hurt someone on the other side. It's not about not wearing it, but about using it consciously. May this reflection serve as a portal that inspires us to investigate, to understand why it's such a delicate topic, where I stand, what my contribution is to lessening this pain stemming from an exacerbated colonialism that persists to this day… what words should we rethink, what stances should we adopt to build a different future? This applies both to cultural appropriation, systemic racism, and the gender differences that still persist.
I hope that YAMAMA can also be that place of reflection, and that new synergies can emerge from here among everyone.