Home Cardus Edição 152, dezembro 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro

YAMAMA, O QUE DIZ A TUA SAIA?

Entrevista a Joana Peres


ODS
Objetivo Global 5 (ODS 5)

Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas

Acabar com todas as formas de discriminação contra todas as mulheres e meninas em todos os lugares. (…). Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança.

No ano passado, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres falámos sobre “Empoderamento no Feminino” com visões diferenciadas de três Mulheres, cada uma na sua área.

ODS

Hoje apresento o projeto que nasce da mesma força: YAMAMA. Uma história de sororidade idealizado por uma dessas mulheres. Joana Peres é bailarina, pesquisadora e dinamizadora da Dança Africana da Costa Ocidental e do instrumento de percussão Djembe.

Diz de si própria sentir-se um “ser criativo de manhã à noite” e acredita no poder da arte para transformar vidas. Foi da ligação de afetos entre esta mulher portuguesa e duas jovens da Guiné Conacri que nasceu o projeto YAMAMA.

Como surge o projeto na Guiné Conacri e porquê as saias?

Joana Peres – Depois de 18 anos a visitar a Guiné Conacri, país onde ainda hoje me vou formar como bailarina e onde já tive outros projetos coletivos e solidários, YAMAMA é um sonho com várias tonalidades. A SAIA é símbolo de resistência e de proteção… esconde e acolhe. Ao mesmo tempo permite liberdade de movimento e alargar a nossa passada. O modelo é único, desenhado por mim, com uma versatilidade curiosa que se adapta a diferentes corpos, feito com tecidos WAX africanos cheios de história e significado.

Quem são essas duas jovens e qual o impacto de YAMAMA nas suas vidas?

ODS

É um projeto familiar (com menos de 1 ano) que nasce com a Kadiza Touré, que conheço há 18 anos e que hoje tem 25. A Kadiza é a jovem companheira que sempre me recebe quando viajo para Conacri. Acompanha-me ao mercado e, muitas vezes, cozinha para mim … foi e continua a ser a minha guia…no fundo a minha anfitriã. Tornou-se, uma filha, uma amiga, uma irmã mais nova. Hoje é a minha consultora no projeto YAMAMA: é ela que compra os tecidos em videochamada a partir dos mercados (quando a rede o permite). Eu vou escolhendo cores e padrões a dedo, aqui deste lado da Europa. Há alguns desafios na escolha nas cores e padrões porque cá somos mais contidos e é preciso fazer um compromisso entre o que é usável e o último grito  da moda. Foi a Kadiza que me apresentou a Nga Marie, uma jovem costureira da mesma idade, com 5 filhos, que acolheu o projeto com muito carinho e entrega. Formou-se assim a equipa: Kadiza a minha consultora, Nga Mari a minha costureira. Para ambas é mais do que uma fonte de rendimento pela venda de saias em comércio justo. Neste momento posso realçar sobretudo o impacto de valorização pessoal, de orgulho e pertença. Saberem que contribuem para que saias feitas por elas circulem, especialmente na Europa. Embora não tenha ainda um valor económico significativo tem um valor social e humano que é de acolher. Trata-se de uma ajuda sazonal, mas gostaria o projeto crescesse e que aumentassem as encomendas para ter um impacto real nas suas vidas.

As saias e os padrões dos tecidos tem significados únicos, uma simbologia que traduzem esse empoderamento…

É uma forma de auto-amor. São saias que te empoderam quando as vestes. Carregam uma certa magia associada ao padrão, à História, à forma como são feitas e ao facto de fazerem esta viagem intercontinental. Aquilo que sinto, nas mulheres que as vestem e as escolhem, é que há um click … toda a mulher tem o direito de se sentir bem na sua pele e o mundo tem a obrigação de fazer com que as mulheres se sintam seguras, magníficas e poderosas. YAMAMA significa YEMANJÁ, Rainha das Águas, da profundidade do mar e do universo feminino. É muito mais do que uma saia… é um espaço para Ser.

Sessão fotográfica na Aldeia Djembe Camp, em Proença-a-Nova - Fotografias de Raquel Marto Gouveia

O próprio tecido WAX africano tem uma história…

Os tecidos WAX têm uma história conturbada: nasceram da colonização, a partir da cópia de tecidos tradicionais da Indonésia pelos europeus. Foram rejeitados na Indonésia e então tentaram então vendê-los em África, onde foram bem acolhidos. Mantiveram a inspiração dos  padrões, que são protegidos e que têm significados únicos: uns são usados para casamentos outros por razões políticas… uns significam liberdade, outros  realçam a beleza da Natureza ou de flores que têm significados vários. Cada padrão conta uma história — de liberdade, de união, de celebração. Vestir um WAX é vestir memória e identidade. Por exemplo, nas roupas e nos tecidos que trago para mim associo-os sempre àquela viagem que fiz em determinado ano e lembro todas as mulheres usavam aquele mesmo padrão. É comovente olhar para um tecido e conectá-lo com as memórias associadas a cada momento.

Para ti, o que é vestir YAMAMA?

Há uma questão à qual sou bastante sensível que é a questão da apropriação cultural. Quando passeamos um tecido africano e, logo, um passado que nos associa a África é importante vesti-lo com respeito, com cuidado, refletindo lugares de fala, de pertença, mas acima de tudo perceber que podemos ferir alguém do outro lado. Não se trata de deixar de usar, mas de usar com consciência. Para que essa reflexão seja um portal que nos inspire a investigar, a perceber porque é um tema tão delicado, onde é que eu me posiciono, qual é o meu contributo para diminuir esta dor que vem de um colonialismo exacerbado que perdura até aos dias de hoje… quais as palavras que devemos repensar, quais as posturas que devemos assumir para construir um futuro diferente. Quer no que diz respeito à apropriação cultural, quer o que diz respeito ao racismo sistémico, quer quanto às diferenças de género que ainda persistem.

Gostaria que YAMAMA pudesse também ser esse local de reflexão e que daqui pudessem nascer novas sinergias entre todos.

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