Cardus Edição 141, janeiro 2025
Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831) foi um daqueles filósofos que marcam um antes e um depois.
Como sabemos, a ciência vinha a mostrar que a natureza é racional e pode ser conhecida pela matemática. A filosofia afirmava o primado da Razão no conhecimento e com Kant propunha que a decisão deve ser racional e, desse modo, a própria sociedade se torna racional. Ou seja, a Razão é tudo, tudo é Razão. E Hegel defende que mesmo o que não parece racional afinal é obra da astúcia da Razão para levar a sua avante.
Imaginemos que eu tenho uma boa ideia: construir uma casa de habitação que seja uma obra de arquitetura racional. Por agora, tenho apenas a ideia, mas ainda não há projeto nem casa. De seguida desenho o projeto. Já o tenho, mas ainda não a casa. Depois vou construindo a casa pouco a pouco. Por fim, eu tenho a ideia concretizada numa casa que posso habitar. No princípio, tudo era ideia e nada casa habitável; no fim, tudo está concluído e nada por concretizar. Agora, eu já sei o que é uma casa racional e o que é habitar uma casa racional. Ideia realizada!
Era um exercício, certo? Agora, façamos duas substituições. Em vez de eu, a Razão; em vez de uma casa, o Universo. Assim: a Razão tinha a ideia ou o projeto de realizar o Universo racional e iniciou o trabalho. Talvez seja mais fácil de perceber se, de modo provisório, em vez de Razão, pensarmos em Deus a criar o mundo. Talvez a Razão seja Deus ou Deus seja a Razão. O que fazia sentido no tempo de Hegel era pensar em termos de Razão: a Razão é tudo e é o todo. Por isso, tudo é racional.
Vejamos, por exemplo em termos sociais. Diz Hegel: no princípio, só um era livre (ex: no Egito); depois, alguns eram livres (ex: na Grécia); no tempo de Hegel, todos são livres (depois da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão) e em particular na Prússia, o Estado de Hegel, onde havia uma Constituição e um Parlamento. Fica-se, assim a saber duas coisas: que o projeto social e político da Razão é a Liberdade e que então, com a liberdade instituída … e, mais ainda, com a obra de Hegel publicada como consciência explícita de todo o processo, a História chegou ao seu fim. (Já ouvimos isto, como um eco, noutro contexto, em “O fim da história e o último homem”, de Francis Fukuyama, 1992.)
Hegel procurou organizar num sistema coerente todo o saber do seu tempo. (Foi o último a fazê-lo, hoje seria impossível.)
Mas há ainda um aspeto a sublinhar. Hegel pensou toda a realidade em termos de processo, transformação. Como? A realidade não é simples, mas composta de dimensões contrárias. Esses contrários estão em luta e, nessa luta, fazem avançar o processo da realidade, ou seja, daquilo que é. (NB: os chineses sempre pensaram isso, yin/yang, mas não como Hegel.)
Comparemos com o que dizia Parménides, filósofo grego do séc. V a.C.: “O ser é, o não ser não é; ser e não ser não pode ser.” A realidade é por ele pensada como o que é, ou seja, como algo simples e estático. Hegel não pensa assim: a realidade é dinâmica, é processo, avança por fases através do que Hegel chama a dialética: uma fase é superada pela luta de contrários e passa para a fase seguinte, a qual será superada pela passagem a uma fase superior. Até ao ponto final, a realização do absoluto.
(Nós, hoje, dizemos que um adolescente tem duplo estatuto: já não é criança mas ainda não é adulto ou já é (em parte) adulto mas ainda é (em parte) criança. Parménides não poderia suportar tal afirmação.)
Dito de outro modo (um bocado apressado e um pouco abusivo, porque esquece outros filósofos): Hegel inventou (ou descobriu?) a História. A partir de agora, tudo tem de ser pensado de modo histórico, isto é, como processo por fases e em cada fase é necessário detetar as forças contrárias em presença. Mais: agora, a verdade nunca está num momento do processo: verdadeiro é o todo. É um novo continente de investigação, tanto filosófica como para as ciências, sobretudo as sociais.
Em síntese. Com Hegel, a Razão é o Absoluto. Não um absoluto fora do mundo ou exterior ao Universo, mas o Absoluto que é o Universo e a sua gramática de ser e do acontecer. E nós passamos a ter uma nova gramática do pensar e do conhecer.
É caso para perguntar: depois do “fim”, que mais pode acontecer?