Cardus Edição 145, maio 2025
Desenho não terminado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard
Depois de 2.500 anos de filosofia centrada na Razão, na Verdade, no Universal, Kierkegaard (1813-1855) vem abrir uma avenida nova no pensamento do Ocidente.
Este filósofo da primeira metade do séc. XIX foi educado na tradição racionalista e no idealismo de tipo hegeliano. Mas depressa se revoltou contra esse ponto de vista. Para ele, o que verdadeiramente existe é a pessoa na sua singularidade existencial, eu: a pessoa com a consciência de si e a sua vida interior. É aí, na interioridade vivida, na existência concreta a partir de dentro que se joga o sentido e o sem sentido.
Mas, ao contrário das novas filosofias pós-hegelianas que fechavam o ser humano na sua imanência, ou seja, na realidade do mundo (mais ou menos) materialista, para Kierkegaard a verdade dos seres humanos existentes é vivida como um desafio a abrir-se à transcendência, ao absoluto.
O absoluto não é conhecido, nem é acessível ao ser humano na sua existência mundana. É vivido como um desafio para um salto, uma entrega para lá do que são os limites da realidade humana corrente. Daí a angústia da “vertigem da liberdade” face ao absoluto. E muitos dos escritos de Kierkegaard são parte de um jogo que serve de trampolim para esse salto.
Não admira, pois, que para Kierkegaard «a questão é encontrar uma verdade que seja verdade para mim, encontrar a ideia pela qual [eu] esteja disposto a viver e a morrer». Não é uma verdade racional e universal, mas pessoal, emocional, interior e subjetiva, uma verdade vivida.
Para Kierkegaard, o processo da vida é dinâmico e em fases ou modos de ser: o estético, o ético e o religioso. Não são fases no sentido de que uma se transforma na outra em sucessão, mas no sentido em que o ser humano se abre a níveis progressivos de uma existência mais profunda. Kierkegaard, como se pode ver, é um autor religioso, de sensibilidade luterana, mas em oposição à Igreja oficial do seu país, a Dinamarca, que acusa de ter traído o verdadeiro cristianismo. Ele convida a uma religiosidade radical.
De novo ao contrário da tradição, Kierkegaard é um filósofo que recusa o sistema: ele não elabora um quadro organizado de ideias que formam um todo coerente. Kierkegaard não expõe uma filosofia, interpela os seus leitores a tomarem consciência de si mesmos e dos desafios que se lhes colocam no exercício da sua existência.
Podemos dizer que Kierkegaard descobre o ser humano individual, embora, como sempre acontece, tenha antecedentes: o Cristianismo com a sua atenção à pessoa singular, o Renascimento com a afirmação autónoma do indivíduo, a revolução luterana com o acento na relação individual com Deus e sem mediação. Porém, a filosofia e a racionalidade ocidental pensaram sobretudo o universal, o Homem enquanto categoria do ser, a Verdade das ideias e, depois, das existências. Kierkegaard funda o seu pensamento no ser humano individual e existente, com os seus problemas vividos e os desafios a uma existência cada vez mais plena.
Não admira que, aberta uma nova via de entendimento dos mistérios do humano, muitos se tenham encaminhado nessa direção. Kierkegaard teve importante repercussão no modo de pensar ocidental: nele beberam importantes filósofos do séc. XX, como Wittgenstein e Heidegger e, depois deste, toda uma linha filosófica chamada existencialista, a começar por Jaspers, Camus e Sartre e, em Espanha, Unamuno.
P.S. 1 – Em junho próximo, Cascais promove o seu primeiro Festival Internacional de Filosofia em Portugal – “Espanto”. E diz a organização que é “inspirado na obra do filósofo dinamarquês Kierkegaard”.
P.S. 2 – Num momento marcado pelo luto coletivo pela morte do Papa Francisco, talvez valha a pena olhar o seu apelo a “todos, todos, todos”, cada um com os seus problemas específicos, também à luz do pensamento de Kierkegaard.