Home Cardus Edição 146, junho 2025

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




25. Nietzsche



Friedrich Nietzsche (1844-1900) viveu num mundo a rebentar pelas costuras e ele procurou fazê-las explodir. Ou então, Nietzsche viveu um tempo de mudança, pensou a mudança e pensou uma proposta de mudança.

É talvez o filósofo mais lido pelos não especialistas, porque vivemos um tempo semelhante e porque Nietzsche tem uma obra fragmentária, feita de aforismos de expressão forte, não sistemática (pelo que cada um pode encontrar nela o que já pensa, uma das razões por que se torna tão apetecível).

O novo mundo, de uma revolução científica e industrial em crescendo, já não cabia dentro do quadro moral, racional e metafísico herdado. Nietzsche sentiu, refletiu e assumiu essa crise.

Para sair dela, foi procurar inspiração à velha Grécia, contra o Cristianismo, e à arte, sobretudo à música, contra um racionalismo já esgotado. E contra Sócrates! o responsável pela filosofia que conduziu a esta situação lastimável.

Acusa o Cristianismo de ter construído a moral dos fracos e da impotência, uma moral de escravos submissos que nega os valores da Vida. Há, por isso, que pôr em causa todos os valores que têm dado forma à vida dos homens. Nietzsche identifica uma luta entre a moral aristocrática e a moral dos escravos, alistando-se na primeira.

E aqui começa o nó da questão. Nietzsche afirma o valor supremo da Vida. E não é vida, diz, aquilo que a moral vigente quer dar aos homens. Daí a sua revolta, a sua denúncia. Portanto, esse homem da tradição não pode ser aceite. Nietzsche anuncia, então, o Super-homem, aquele que vai “superar” o homem.

«Venho anunciar-vos o Super-homem.» «O homem só existe para ser superado.» «O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem – uma corda por cima de um abismo.» «O Super-homem é o sentido da terra.»

O Super-homem é aquele que sabe que pode criar valores e os cria. Não é o que se submete, é o que afirma em si e por si os valores da Vida. E o que é a Vida? É afirmação, é realização, é poder! O núcleo fundamental do Super-homem é, pois, a Vontade de Poder – de realizar, de ser capaz, contra toda a submissão. «O que é bom? – Tudo o que exalta no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência.”

E Deus? «Deus morreu, fomos nós que o matámos.» E a razão? A razão clássica tem sido uma aliada da teologia a favor de uma falsa realidade, tem trabalhado a favor de velhos valores decadentes e contra as forças da Vida.

- Individualismo!, podem protestar alguns.

Mas Nietzsche não transige, recusa a moral dos fracos, do rebanho que se submete e anuncia um mundo novo, construído através da “transmutação de todos os valores”, construído por uma elite de «espíritos livres».

Daí livros como “Aurora”, “A Gaia [Alegre] Ciência”, e o tão lido “Assim falava Zaratustra”, “O anti-Cristo”, sem esquecer “A vontade de poder”.

Dito de outro modo ou noutra linguagem: Nietzsche partiu a louça toda, deu cabo da mobília da velha casa comum europeia. Como poderia ter sido bem acolhido? Não foi. Experimentou uma profunda solidão intelectual e humana. Acabou louco, morrendo sem êxito como autor, o qual só viria num tempo póstumo.

Por exemplo quando foi adotado pelo Nazismo.

- Mas Nietzsche tinha um pensamento nazi?

Não, não pode afirmar-se isso. Nietzsche teria horror às massas ululantes, ao culto do chefe único por parte de seguidores acríticos. Mas ele não era um democrata, não suportaria um regime de pensamento fraco. Mas a sua afirmação dos valores da Vida e da Vontade de Poder foram apropriados por aqueles que se afirmaram como o super-homem capaz de dominar os homens do rebanho.

Ficou célebre o conjunto de figuras em que Nietzsche condensou as “três metamorfoses do espírito”: começa por ser o camelo, aquele que carrega o fardo dos imperativos da moral tradicional, transforma-se em leão, aquele que se revolta contra esse fardo, e, por fim, torna-se a criança, afirmação inocente da vida que se constrói. Não admira que um dos livros de Nietzsche se intitule “Para além do bem e do mal”.

Depois de partida a louça, quem apanhará os cacos? Ou estamos ainda em cacos?