Home Cardus Edição 148, agosto 2025

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




27. A suspeita



Paul Ricoeur, um filósofo francês do séc. XX (1913-2005), nomeou Marx, Nietzsche e Freud de “mestres da suspeita”. De facto, Marx fez-nos perceber que por detrás de “bons princípios” há sempre relações de poder baseadas no sistema social de produção; Nietzsche mostrou-nos que os nossos “bons princípios”, que pareciam eternos e absolutos, são resultado de uma história e ocultam relações de dominação de que temos de nos libertar para vivermos em pleno; e Freud fez-nos ver que por detrás do “eu” consciente e auto-transparente, que tem sido a grande personagem da racionalidade ocidental, há sobretudo um irracional ocultado mas muito ativo. Ou seja, eles ensinaram-nos a suspeitar do que se pretende claro, a espreitar por detrás das aparências. “Penso, logo existo”, convenceu-nos Descartes; mas os mestres da suspeita corrigiram: mas não como pensas que és. “Tu também espreitas?” era o título de um texto numa revista para jovens quando eu era moço.

E vai daí, se tudo está montado, como nos dizem estes mestres, para ocultar a construção que trabalha contra nós, gerou-se um movimento intelectual de “desconstrução” de tudo o que parecia sólido. Se por detrás de tudo estão as forças de um poder opressor, então, importa desconstruir tudo o que dá alguma solidez a esse poder e, assim, libertarmo-nos dele. Libertai-vos! Desconstruí! E temos andado nisso até hoje. Sem nunca nos preocuparmos com o que fazer dos escombros, muito menos com o que havemos de construir. E os jovens de maio de 68 acreditaram que “Por debaixo da calçada está a praia”.

Se esses mestres da suspeita têm alguma razão, então, à medida que fomos desconstruindo, foram sendo deixadas à solta e cada vez mais manifestas as forças irracionais da nossa natureza animal. Sim, uma sociedade humana é sempre uma construção, mas, sem ela, temos a selva. Por debaixo da calçada não está a praia, mas a selva. É o que temos vindo a descobrir há anos e anos.

Darwin (1809-1882) quis ensinar-nos que somos animais, primatas próximos dos outros primatas, descendentes de todas as espécies que nos antecederam no processo evolutivo. Mas, como de costume, nós só ouvimos da lição aquilo que nos dava jeito: o que pudemos usar contra a religião ou a favor do nosso egoísmo individual. Que somos, por natureza, animais não humanos, que o humano é e só pode ser uma construção sobre a animalidade, que o humano nunca é um dado, mas sempre uma construção e um projeto (entre outros) do que se quer que seja reconstruído, bem, isso… não soubemos suspeitar.

Assim morreu o Homem (com maiúscula) que é uma alma racional, pertencente ao mundo das ideias onde estão todas as essências e o dever ser. Como ser racional, o Homem sabe o que “deve” ser, se não se deixar arrastar pelos interesses do ilusório mundo sensível. Esta foi a matriz dominante do pensamento ocidental. Agora, seria necessário repensar tudo de novo.

Mas não!, diz-nos a Ciência (com maiúscula), propondo-se, como único conhecimento válido, ser a solução para todos os problemas. A Natureza (com maiúscula) era em si mesma racional e o conhecimento científico, porque racional, dar-nos-ia o ser e o dever ser, ou seja, o que é e como é o mundo e como nos devemos portar nele.

Era ainda o velho sonho racional vindo desde Platão, mas agora tornado conhecimento científico. Só que muita coisa e muito inesperada estava ainda por acontecer.