Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um dos mais importantes filósofos do séc. XX.
Estávamos no tempo da afirmação do poder normativo do conhecimento científico e do rigor lógico do pensamento. E foi também o tempo em que Saussure (1857-1913) nos tinha ensinado a ver a linguagem como um processo em que um referente, por exemplo uma palavra, remete de modo direto para a coisa referida. Por exemplo: a palavra “tijolo” remete para o tijolo usado no muro. Wittgenstein começou por entender essa relação da linguagem com o mundo e afirmou: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. É lógico: se os significantes remetem para as coisas do mundo, no conjunto dos significantes e das relações entre eles nós temos uma cópia, tanto quanto possível perfeita, entre a linguagem e o mundo. E o ideal seria que a linguagem fosse o mapa do mundo numa escala de 1 para 1.
No fundo, é isto que Wittgenstein pensa e procura levar-nos a pensar no seu famoso livro Tratado Lógico-Filosófico (1921), o único que publicou em vida.
É lógico e é sedutor: o rigor “científico” da linguagem, o significado unívoco das palavras, traduziria de modo eficaz a realidade do mundo com seus constituintes e relações. Era o sonho da modernidade, o grande projeto do positivismo.
Só que… Se estas afirmações fazem todo o sentido – termos que designam coisas e coisas que são designadas por termos –, a consequência é que tudo o que na linguagem não for termos a designar coisas não tem qualquer cabimento. Em última análise, esta própria conversa acerca da linguagem e muitos outros usos da linguagem não fazem qualquer sentido, pelo que deveríamos não fazer usos impróprios da linguagem querendo que ela diga o que não pode dizer. E a religião, a filosofia, etc. não podem ter um discurso com significado.
Por isso, Wittgenstein termina o Tratado com uma afirmação que ficou célebre (nem sempre citada pelas melhores razões): “Acerca daquilo de que se não pode falar, tem de se ficar em silêncio”. E Wittgenstein remeteu-se ao silêncio.
Silêncio editorial, pois continuou a dar aulas e a investigar. E percebeu que a sua tese expressa no Tratado não traduzia a natureza da linguagem. Não, a linguagem não é isso. Veja-se, por exemplo, a palavra “jogo”. Fala de que coisas? De tantas coisas de natureza diferente que não existe nenhuma correspondência ou relação objetiva entre a palavra e todos os tipos de jogos possíveis. Há apenas “ares de família” entre as coisas designadas como jogo.
Então, se as palavras não traduzem de modo direto objetos no mundo, se não é daí que lhes vem o significado, donde lhes vem ele? Do uso que os seres humanos delas fazem na vida. Dito de modo mais técnico: o valor das palavras, logo da linguagem, não está na semântica, mas na pragmática. É por isso que os dicionários apresentam vários significados para uma mesma palavra, pois esta pode ser “usada” de diferentes modos em diferentes situações da vida. O que, de certo modo, leva a concluir que o valor da linguagem é, no fundo, convencional, embora o seu uso não seja arbitrário. Estas reflexões aparecem noutro livro (póstumo) de Wittgenstein, Investigações Filosóficas.
Para um estranho ao meio filosófico, tudo isto pode parecer apenas pirotecnia verbal. Mas a verdade é que estas análises tocam no miolo da racionalidade e da metafísica ocidentais. Desde Aristóteles que as palavras, uma vez bem definidas, traduziam a essência (o ser) das coisas e o conhecimento é visto como o conhecimento objetivo do que é o mundo. Com Wittgenstein, temos de concluir que as palavras traduzem o nosso uso, não a essência das coisas. E o conhecimento científico é conhecimento de quê? Aliás, o termo “verdade”… o que é a verdade de uma afirmação científica? A linguagem, afinal, fala sobretudo de nós e do uso que dela fazemos?! A matemática deixou de ser “a língua em que está escrita a natureza”?
Isso permite perceber (?) que a teoria da relatividade geral esteja validada na experiência e a mecânica quântica também, mas sejam incompatíveis entre si. Mas como é isso?
Parece haver qualquer coisa, aqui, que nos escapa, ao mesmo tempo que algo se constrói, mas não sabemos o quê. Não admira que Wittgenstein possa ser dito, primeiro como o último dos modernos e, depois, como o primeiro dos pós-modernos e se tenha tornado um filósofo de culto, incontornável nas grandes questões do século XX. Que não ficaram ainda resolvidas no século XXI.