Martin Heidegger (1889-1976) é um importante filósofo ocidental do séc. XX e, como se vê pelas datas acima, um pensador de uma época de crise, transição e ameaça, marcada por duas guerras mundiais e por uma brecha profunda na gramática do pensamento ocidental (como aqui temos vindo a esboçar).
A sua obra ainda hoje mais sonante é Ser e Tempo (1927) e todos sabemos como então os caminhos se cruzavam incertos na Europa e no mundo.
Heidegger começa por analisar o modo de ser humano e verifica que é sobretudo uma existência no mundo - das coisas e das pessoas. Por isso, deixa o termo “homem” e mesmo “ser humano” e chama-o de Dasein ou Ser-aí. É sempre aí, num aí concreto, um ser no mundo. Aí, o Dasein está em relação com as coisas, que estão à sua mão e que ele utiliza como instrumentos (ex: um martelo), e também em relação com as pessoas com quem estabelece interações de cuidado: cuidado sobretudo das pessoas. Heidegger reconhece neste modo de ser humano o princípio que transforma a vida no manejo das coisas do mundo e dá à tecnologia instrumental o grande poder a que os seres humanos se submetem.
Algo de importante aqui se inverte. Platão desce do conhecimento dito como Verdade para o que deve ser a vida no mundo (na cidade); Heidegger parte da análise do homem no mundo e, a partir daí, abre-se à procura da Verdade. Nisso segue o desafio do seu mestre Edmund Husserl (1859-1938): “Às coisas!” do mundo-da-vida.
O ser do Dasein é, portanto um existir, um acontecer, um ser no tempo e no espaço – que é importante estudar. Daí resulta que a caraterística fundamental do Dasein é ser para o futuro, ser projeto, planear, transcender-se. Mas aqui levanta-se um duplo problema.
Por um lado, o Dasein existe sempre imerso nas possibilidades limitadas que lhe são dadas pela tradição do povo a que pertence, que se prolonga no que pode vir a ser e, portanto, o limita. Por outro, ele sabe que o seu destino é a morte, fazendo dele um ser-para-a-morte. Assim sendo, ele pode ou deixar-se ir numa existência “inautêntica”, vivendo na ignorância da morte e sendo como os outros, isto é, ninguém; ou então assumir uma existência “autêntica” marcada pela consciência dos seus limites e pela certeza da morte.
Mas, como vimos, a existência “autêntica” é vivida como consciência da impossibilidade de realizar o seu projeto, portanto reduzida ao nada. Daí a existência ser marcada pela angústia do nada. (Pensemos esta perspetiva dentro do que era a vida e o horizonte de futuro na Alemanha daquele tempo.)
Mas a grande pergunta de Heidegger é pelo ser, não do ser humano ou das coisas, que podem ser conhecidas nos modos como existem; mas do ser que está para lá das coisas e no humano ganha consciência. Por isso Heidegger acusa Platão de ter rompido com a metafísica anterior, que era a busca ou desocultação (aletheia) da verdade do ser. Platão, ao contrário de Heidegger, como acima vimos, parte da verdade dada que se torna uma normatividade para o que deve ser na vida da cidade.
Esta atenção à vida no mundo como ponto de partida (de baixo para cima), a afirmação da existência humana no tempo e no espaço, e num povo, a abertura ao que não se conhece mas se procura, e ainda a atenção ao ser que se revela na linguagem são, entre outros, contributos decisivos de Heidegger para o pensar ocidental.
De Heidegger partiu, portanto, este filão filosófico que vai alimentar o existencialismo – pensar a existência e a partir desta reconhecer o ser humano como existência em processo no mundo.
Pensadores como Karl Jaspers (1883-1969), Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960), por exemplo, são reconhecidos como existencialistas. E muitos outros filósofos deste que é já o “nosso tempo” alimentam-se de outras linhas do trabalho filosófico de Heidegger.
P.S. – Em 2027 teremos o centenário da publicação de Ser e Tempo (1927).