Home Cardus Edição 151, novembro 2025

HISTÓRIA (Guerra Colonial)


Carapito

Sinopse

O ano que vamos tratar no próximo artigo, 1964, ficará marcado na História das Guerras Coloniais, como o da abertura oficial da 3ª frente que o Exército Português (EP) teria de cobrir a partir de Setembro. A frente de Moçambique revelar-se-ia bastante mais difícil que a de Angola, onde o divisionismo e mesmo o combate mortal entre os movimentos de libertação, facilitaria muito a vida aos militares. A FRELIMO, sobretudo a partir da liderança de Samora Machel, empreendeu um combate eficaz e organizado, visível no trabalho gráfico de que o presente artigo se ocupa.

No artigo anterior ficou dito que se iria fazer uma análise mais pormenorizada dos gráficos apresentados no fim do mesmo. Como essa análise se revelou extensa, inviabilizando o artigo em si, dedico este espaço apenas a esse tema, por entender que a sua apreciação detalhada é muito interessante, já que liga esses três indicadores (aos quais acrescento mais um neste artigo), aos acontecimentos político-militares que os condicionaram. Dá também, como pretendia, uma visão do evoluir das guerras coloniais nas três colónias e permite entender melhor, daqui em diante, o desenvolvimento da sua narrativa.

Terminamos com um quarto gráfico, indexando o nº total de baixas em cada teatro, desde 1961 a 1974, à respectiva área operacional. A unidade é o nº de baixas por cada 1000 km2. Por contraste, dá a melhor expressão possível, do esforço que o Exército Português realizou no teatro da Guiné.

António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia




As guerras coloniais em números



Uma análise das 3 curvas que traduzem a evolução dos efectivos presentes em cada ano nos teatros da Guiné, Angola e Moçambique, mostra uma tendência de evolução contínua em todos eles. Em Angola esta evolução sofre um interregno entre 1965 e 1970, após o que continua a subir, embora a tendência geral se mantenha, como mostra a linha tracejada que traduz a mediana do crescimento. Como vimos em artigos anteriores, o regime não cometeu, na Guiné e em Moçambique, o erro de Angola e começou cedo a guarnecer aquelas colónias com tropas, bastante antes da eclosão oficial dos respectivos conflitos. No período de 1961/1962 há nessas duas colónias um pequeno aumento de efectivos, acentuando-se a partir deste ano, por já ser esperado o deflagrar da guerra.

Em contraste, em Angola, o crescimento mais acentuado de efectivos dá-se no período 1961/1962, pelas razões que vimos atrás, 15 de Março e reocupação do Norte. Nunca mais em toda a guerra, essa taxa (34%) foi ultrapassada.

O gráfico mostra que o maior volume de efectivos pertence à frente de Angola, obviamente por ser a maior das colónias, precisando, portanto, mais militares para preencher a quadrícula operacional e de presença.

A frente com o maior crescimento será a que corresponder à mediana mais inclinada e essa é a de Moçambique, seguida da Guiné. A de Angola é a que regista o crescimento mais lento. Claro que isto traduz a intensidade da guerra, o que é confirmado pelo gráfico da evolução das baixas.

 

Nota: os números relativos às baixas englobam mortos em combate, por doença e acidentes

A análise comparativa destas curvas é muito significativa. Mostra que em Angola houve uma relativa constância no nº de baixas, como mostra a mediana praticamente horizontal. Cresce até 1969, quando alcança um pico, nunca mais atingindo este valor, 275 baixas, até ao 25 de Abril. A explicação poderá estar no fim das hostilidades da UNITA, começando esta o combate ao MPLA e FNLA, poupando as nossas tropas. As dissensões internas do MPLA, com a sua divisão em três facções em 1972, paralisaram a actividade militar desse movimento, chegando ao 25 de Abril praticamente inoperacional.

De 1973 para 1974 há uma queda abrupta, sinalizando o fim das hostilidades.

A linha a negro, da Guiné tem uma evolução rápida até 1966, quase tocando neste ano a de Angola, um teatro de operações quase 20 vezes maior. Isto voltar-se-ia a repetir em 1971. O ano em que o crescimento das baixas no EP foi maior, foi o de 1963/64, início da luta armada. Até ao fim desta guerra, nunca mais foi igualado.

Por aqui se vê que, proporcionalmente, a guerra da Guiné foi a mais mortífera das três. Continua a subir até 1968, quando atinge um pico (que nunca mais foi ultrapassado) após o que desce continuamente até 1972. Este período coincide com a presença de Spínola como Governador Geral e Comandante Chefe, como se disse atrás. A conjugação das suas políticas, social e militar, tiveram um efeito decisivamente negativo na eficácia da guerrilha do PAIGC. Curiosamente volta a subir no ano 72/73, traduzindo um recrudescimento da acividade do PAIGC, coincidindo com o inicio do comando do Gen. Bettencourt Rodrigues.

A linha quebrada da evolução das baixas em Moçambique, mostra um acentuado crescimento contínuo de 1961 até 1966, especialmente acentuado a partir de 1964 (ano de início da luta armada) quando atinge as 229 baixas, decrescendo na transição para o ano seguinte, sem que algum acontecimento político ou militar relevante justifique essa queda. Mas traduz seguramente um decréscimo de actividade da guerrilha nesse período. Volta a ter um acentuado crescimento a partir de 1967 até 1969, em resultado da expansão da guerrilha para novas regiões, especialmente Tete.

1969 foi o ano em que Eduardo Mondlane, presidente da FRELIMO, foi assassinado pela PIDE. Este facto poderá explicar o decréscimo de actividade militar e, portanto, do número de baixas do EP. Como se disse anteriormente, Samora Machel foi eleito em 1970 presidente da FRELIMO, acabando com as dissensões internas. A luta armada entrou então na sua fase mais aguda, com um crescimento acentuado das baixas nas nossas tropas nessa frente, atingindo em 1973 o pico de 399 mortos, o mais alto registado durante as guerras coloniais nas 3 frentes.

Como curiosidade, no ano de 1966, a Guiné apresenta-se como a menos mortal das 3 guerras, seguida de Angola, com Moçambique a liderar a mortalidade. No ano seguinte, as posições invertem-se, Moçambique torna-se o teatro menos mortal, seguido da Guiné, com Angola a liderar as estatísticas. A partir de 1968, Moçambique destaca-se na negra distinção, até ao 25 de Abril, com os números mais pesados, atingindo um máximo em 1973, como citado acima.

Com a Revolução do 25 de Abril de 1974, as baixas caem bruscamente e as que se registam são as ocorridas desde o principio do ano até ao fim das hostilidades em cada colónia.


Como vamos ver, o índice de mortalidade, (nº de baixas/1000 efectivos, mostra claramente o que se tem vindo a dizer sobre o teatro da Guiné. Foi das três, a guerra em que este indicador mais subiu durante 4 anos apenas igualada (e suplantada…) pela de Moçambique, na segunda metade de 1968. A partir deste ano, desce abrupta e continuadamente até 1972. Sem sombra de dúvida, este é o resultado do excelente trabalho de António de Spínola, de que haveremos de falar com algum pormenor mais à frente, quando abordarmos o período em que o Marechal foi Governador Geral daquela colónia.

As linhas tracejadas, a vermelho (Angola), preto (Guiné) e azul (Moçambique), são as medianas, os valores médios que representam de forma simplificada o crescimento ou decrescimento do índice de mortalidade. A linha de maior crescimento é a de Moçambique (a azul), seguida da Guiné. Não é surpresa, já que o maior crescimento das baixas se verificou também ali.

É interessante verificar que a mediana de Angola é decrescente desde o início da guerra. O nº de baixas desde 1961 (relembremos a chacina de 15 de Março e o início da reconquista do Norte) foi subindo lentamente, mas como o nº de efectivos subiu muito em volume (o maior das três colónias), a taxa de mortalidade, indexada ao nº efectivos/1000, foi descendo sempre ao longo da guerra. É a única mediana descendente, que traduz um índice de letalidade continuamente decrescente.

Terminamos este artigo com um último gráfico. Construindo a tabela abaixo chega-se ao número de baixas por km2:

(*) Bethencourt Rodrigues afirma no livro “A Vitória Traída” que em 1974, não estava afectada pela guerrilha do PAIGC toda a área da Guiné, citando como exemplo a deslocação de automóvel, em Janeiro de 1974, entre Nova Lamego e Bafatá, do Ministro do Ultramar Baltasar Rebelo de Sousa, que visitou várias outras localidades, utilizando outros meios de transporte À falta de elementos fiáveis sobre a área afectada, consideramos toda a superfície desta Colónia. A diminuição deste valor iria agravar ainda mais esta estatística.

a que corresponde o gráfico:

O gráfico fala por si e a coluna negra simboliza o calvário de quase dois milhares de soldados, europeus e africanos que inutilmente deram a vida na mais pequena das colónias portuguesas, ironicamente aquela que o regime ponderou não defender e a primeira a ver reconhecida pela comunidade internacional a sua independência em 1973, declarada unilateralmente, transformando o Exército Português, à face do Direito Internacional, numa potência estrangeira de ocupação.

Fonte de dados dos gráficos:
- Os Anos da Guerra de Carlos Matos Gomes e Aniceto Simões
-A Vitória Traída de J. Luz Cunha, Silvino Silvério Marques, Bethencourt Rodrigues e Kaúlza de Arriaga

António Carapito

(continua)