O outono aproximava-se vertiginosamente e aceitava-se esta Lisboa que abriga todos os povos e todas as sensibilidades, mesmo aqueles que não aceitam as diferenças.
Julieta está a almoçar com o seu amigo Pedro no belo restaurante do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) que tem neste espaço um Hotel e disse:
- Antigamente, quando me convidavas para almoçar num hotel, acabávamos sempre a fazer amor. Espero que hoje não seja essa a tua intenção pois, como sabes, agora estou casada, e muito feliz. Nada de escapadelas.
- Claro que não. Tinha como objetivo mostrar-te este belo espaço museológico, o Museu de Arte Contemporânea Armando Martins.
- Estou mesmo muita surpreendida com a qualidade do seu acervo bem como a simpatia e competência dos trabalhadores. E, “cereja em cima do bolo”, a existência deste restaurante.
- Vamos então almoçar. Vou escolher o “borrego com trigo barbela e boletus”.
- O que é isso?
- É borrego estufado a baixa temperatura com trigo, cogumelos, curgetes e jus fumado de alecrim. Pelo menos é o que está escrito no menu.
- Parece-me bem. Para mim quero uma massa fresca com cogumelos confitados e fruta.
- Boa escolha.
Violeta tinha regressado de Paris com o seu marido Miguel onde tinham visitado alguns Museus. Pedro, no entanto, insistia que essa cidade só tinha interesse com a sua companhia.
- E em Paris, lembraste-te de mim?
- Lembro-me sempre de ti, meu maroto sedutor, mas agora tenho o Miguel por quem estou apaixonada. Mas vamos ao que interessa, estou a gostar muito deste Museu.
- É para que saibas e vejas que há belos e bons Museus em Portugal. Como foi a vossa viagem a Paris?
- Foi espetacular. Estar apaixonada em Paris é o máximo. Fomos aos museus que programámos, mas no Louvre quase que nos chateámos.
Pedro sempre provocador disse:
- É nisso que dá em ires a Paris sem ser comigo.
- Nada disso. Eu e o Miguel fomos muito felizes em Paris. Mas, no Museu do Louvre, descobrimos que temos ritmos diferentes para ver as obras expostas. Por vezes, ficava parada em frente a um quadro e reparava na impaciência do Miguel em querer prosseguir a visita. Foi um mau momento.
- E como resolveram esse problema?
- Descobrimos que cada um tem o seu tempo de observação e admiração das obras, cada um tem o seu ritmo. O que é normal e natural. Então decidimos fazer a visita em velocidades diferentes, quase isolados, ao sabor e prazer de cada um.
- Então, estavam sempre separados?
- Claro que não. Muitas vezes partilhávamos sensações e comentávamos o que estávamos a ver e a admirar. Estávamos sempre a cruzar-nos.
- Então era como se fosse “dois em um”.
- E gostámos muito e acabámos o primeiro dia no Jardim de Luxemburgo na companhia de uma garrafa de champanhe. Simplesmente belo.
- E foram aos outros Museus que tinham programado visitar?
- Claro que sim. Mas também gostei muito de passear à noite ao longo do rio Sena e atravessar a ponte Alexander. Simplesmente belo!
- E sobre a ideia que te dei de visitar Museus em Portugal. Foste a mais algum?
- Descobri o Museu Geológico - uma autêntica maravilha. É um Museu que está tal e qual como foi fundado no século 19.
- Esse Museu é de visita obrigatória. Expõe milhares de peças de Paleontologia, Arqueologia e Mineralogia.
- E tem fósseis de hipopótamos e crocodilos. Sabias que já houve crocodilos em Portugal?
- E aqui deste Museu do que é que mais gostaste?
- Tudo, uma bela surpresa. Sabias que o primeiro quadro que o Armando Martins comprou foi um do Rogério Ribeiro?
- Somos ambos engenheiros e, coincidência das coincidências, na minha modesta coleção tenho também dois quadros do Rogério Ribeiro.
- Mas este espaço é um Museu ou um Hotel?
- O Armando Martins pensou, e bem, que os ingressos deste Museu não garantiam a sua subsistência económica. Daí ter construído um Hotel para suportar os custos.
- Bem pensado. Esta solução é única em Portugal?
- Que me lembre temos a Fundação Medeiros e Almeida.
- Também já ouvi falar desse Museu.
- Esse Museu tem uma importante coleção de relógios e de porcelanas da China. Temos que lá ir.
- Somente depois de ter apreciado neste Museu as muitas obras existentes dos artistas José Malhoa, Amadeus de Sousa Cardoso, Vieira da Silva, Paula Rego, Júlio Pomar, Nadir Afonso e muitos outros.
- E ainda teremos que ir à antiga capela.
- Capela? Fico com receio que estejas a pensar que podemos casar lá.
- Nada disso, está descansada. Iremos apreciar obras dum artista espanhol Carlos Aires, abordando temas da padroeira Nossa Senhora do Carmo, de Santo António e de Cristo.
- Agora, quero saborear este almoço. Que vamos beber?
- Reserva Monte d’Oiro, casta Syrah.
- Brindemos à nossa saúde.
(continua)