Cardus Edição 144, abril 2025

VIAGENS DOS SENTIDOS

Mia Jorge

São Tomé e Príncipe 2

Volto a São Tomé e Príncipe conforme prometi fazer. Há sempre algo que omitimos nas nossas memórias, às vezes por esquecimento, outras por inadequação à narrativa que seguimos. E, de facto, enquanto escrevia o artigo sobre este país pensava:  E os momentos que recordo e vivi com os santomenses? Esses, não ficam escritos, não são recordados? Daí que tenha decidido escrever um segundo artigo sobre alguma das minhas vivências com este povo que passei a amar e a respeitar.

A viagem foi efectuada, durante 15 dias, na Ilha de São Tomé e na Ilha do Príncipe. Optámos por alugar um jipe e viajámos por toda a ilha, percorrendo a pé diversos caminhos, alguns de entre eles, inacessíveis por carro e pouco seguros para se percorrerem a pé, sem conhecer e dominar a natureza.

Museu

Foi num destes dias que me cruzei com uma mulher, que trazia uma filha presa numa capulana junto ao peito, e estava rodeada de muitas crianças. Já não recordo com exactidão, mas creio que teria seis filhos vivos (já compreenderão porque me refiro aos filhos vivos). Parámos junto à sua casa (quatro paredes de madeira, com  estacas que a prendiam ao solo) a conversar com ela sobre se poderíamos seguir por aquela estrada, sozinhos. Respondeu que não, mas que iria connosco. Deixou todas as crianças para trás, à excepção de um rapaz, seu filho, com 10 anos, que pegou numa catana e que nos guiou mato adentro. Já dentro da mata cerrada, olhou para mim a sorrir e disse-me: “Se encontrar a cobra negra, ataque-a!”. Eu, habituada aos “animais” da cidade, devo ter feito um tal ar de credulidade que o rapaz, de imediato, ri e diz-me: “Estava a brincar! Fique quieta! Eu mato-a com a minha catana”. E lá seguimos, floresta adentro.

Porém, a catana, conforme eu compreenderia mais tarde, não servia apenas para afastar o grupo da cobra negra ou da aproximação ou ataque de qualquer outro animal, mas, e sobretudo, para ir “colher” o jantar, um cacho enorme de bananas, que cozido, serviria de repasto e alimento àquela família numerosa.

Entretanto, em andamento, a mulher, que levava a bebé consigo, relatou-me que tinham nascido duas meninas gémeas, mas que uma delas teria morrido no parto (à data, o meu filho mais velho tinha 10 anos e eu, curiosamente, tinha também tido dois filhos gémeos), o que me emocionou. Repentinamente, coloca-me a menina nos braços e diz-me: “Vou defecar, segura-a!” E eu assim fiz! Aquele momento, em que eu ainda estou meia atónica com a  expressão da mulher e com os cuidados necessários àquela bebé frágil, ficou registado na mais bela fotografia que possuo e que aqui partilho convosco. Os créditos são do fotógrafo Rui Carlos Mateus que viajava comigo.

Em outra ocasião, na Ilha do Príncipe, cuja cidade de São António é considerada a mais pequena do mundo, com aproximadamente três mil habitantes, ia a andar com passos apressados na rua principal que, em alguns metros, une as duas extremidades da cidade. Ouço dizer: “Branca! Oh, Branca!”. Olho e vejo uma senhora negra, idosa, que quando cruza o olhar comigo, diz-me: “Leve, leve, Branca, leve, leve”.  Soltei uma gargalhada. Nunca a expressão típica conhecida em São Tomé e Príncipe me fez tanto sentido! De facto, numa cidade com aquelas características, inserida numa ilha, também ela muito pequena, onde iria eu com tanta pressa? Compreendi, ou julguei compreender, a origem daquela expressão e da lassidão dos corpos dos seus habitantes. Se nada há para fazer ou para onde ir, qual seria o fundamento para que eles se apressassem a viver?

Já de volta à Ilha de São Tomé, fomos comer a famosa Santola à Trindade. Enquanto esperávamos, na varanda do restaurante, vejo uma tartaruga marítima ser arrastada pela praia por diversos homens. Pergunto porque estão a fazer aquilo à tartaruga e respondem-me que a vão vender, que se trata de uma boa carne para comer. Fiquei, além de incrédula, revoltada com o sofrimento da tartaruga e com a “maldade” dos homens. Saio do restaurante a correr,  e percorro o trajecto que vi os homens percorrerem. Entro, por fim, numa casa de madeira, onde uma velha, sentada, recebe a tartaruga e negoceia com os homens o preço a pagar pela tartaruga. Dentro da sua casa, digo-lhe que é ilegal o que ela está a fazer. E ela, olhando para mim fixamente diz-me: “Branca, se quiseres, pagas o preço da tartaruga e eu devolvo-a ao mar.”. Nesse momento, vieram-me várias incertezas à cabeça. Quem era eu para querer impor regras da minha vida a pessoas cujas vidas são totalmente diferentes, e para muito pior, do que a minha? De que me serviria (na óptica da tartaruga e da proibição da sua pesca) que eu pagasse por ela, se seria pescada logo a seguir, pois que, conforme, aliás, compreendi mais tarde, é um comportamento adoptado por muitos, à vista de todos. Que diferença havia entre mim, que estava sentada num restaurante para comer uma santola, e aqueles que apanhavam uma tartaruga, para garantirem, face à pobreza em que vivem, rendimentos? Saí da casa da velha, sem pagar o preço da tartaruga,  com a cabeça tombada de tristeza, dor e vergonha, confesso.

Poderia contar outros episódios, mas estes são, para mim, aqueles que melhor retratam o povo de São Tomé e Príncipe, designadamente, as suas necessidades básicas e o seu temperamento calmo e tranquilo.   

Por fim, dizer apenas que nesta viagem fiz uma grande amiga que ainda hoje me visita em Portugal. Já fui, por muitas vezes, convidada a voltar a São Tomé e Príncipe, mas até hoje não o fiz.

Por vezes, prefiro não voltar aos locais onde fui feliz.

Mia Jorge