Home Cardus Edição 148, agosto 2025

VIAGENS DOS SENTIDOS

Mia Jorge

Volto a São Tomé e Príncipe.

Decidi voltar a este país que tanto me apaixonou. Porém, mais do que visitar um país, estou a entrar na mais profunda viagem às minhas entranhas.

Catorze anos depois esperava encontrar um país mais desenvolvido, com menos pobreza e mais condições de vida para aqueles que são os mais desfavorecidos.

Encontro, porém, mais pobreza, mais fome, mais tristeza nos olhos, que são tão belos, deste povo. O saneamento básico continua a ser uma expectativa para cerca de, pelo menos, 90% da população. As estradas continuam esburacadas, o que impede a deslocação rápida e segura das pessoas. As crianças desistem de estudar porque não têm como pagar os transportes que as conduzem às raras escolas que existem. Não há fome, dir-se-á. Sim, é um facto, mas essa circunstância não se deve a qualquer contributo humano, antes à enorme gentileza da mãe natureza que nos oferece fruta e peixe.

O país está a ser explorado por estrangeiros (não é assim que ocorre em África desde que a história nos é familiar?) que pagam miseravelmente ao povo.  O povo a quem pertence a terra.

Dizem por aqui que eles não aprendem o que lhes ensinam, o que dificulta a sua evolução, mas, que ainda assim, são felizes. Como nós, humanos, conseguimos contar narrativas contrárias à realidade apenas para justificar a nossa ausência de atitude, a nossa omissão de carácter, o nosso total abandono pelos mais desfavorecidos.

Tenho pena do homem. Não do pobre. Não daquele que precisa de água, de comida, de saneamento básico, de escolaridade obrigatória, de meios de transporte.

Tenho pena de pessoas como eu. Que “acham graça” ao povo; que adoram o paraíso, mas que não sentem ou choram aquilo que aqui se vive.

Parto desta viagem esburacada por dentro. Se alguém me ler, se alguém me vir chorar, se alguém me quiser e puder ajudar …

Há direitos, que são humanos, e por essa razão, devidos a todos os homens que povoam o mundo.

Mia Jorge.