Escrevo sobre o Brasil atendendo aos recentes acontecimentos no Rio de Janeiro.
Não se trata, de todo, de um artigo com ambições históricas ou políticas, mas somente uma viagem ao pulsar de um país, e mais concretamente à cidade do Rio de Janeiro, que tem tanto de maravilhoso, quanto de incompreensivelmente horroroso.
Uma cidade de desigualdades; que tanto representa o calor do Carnaval, quanto a crueldade da invisibilidade de ser-se humano.
Gilberto Gil, em 1969, eternizou o Rio de Janeiro ao cantar, na canção com o nome Aquele Abraço, que:
“O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, Fevereiro e Março …”
Contudo, já neste ano de 1969, o Rio de Janeiro não seria lindo, pelo menos não seria para todos aqueles que habitavam esta cidade.
Basta olhar para a malha urbana do Rio de Janeiro para se compreender que a cidade não pode considerar-se linda e aprazível senão aos olhos de quem não observa e vê o que o circunda. As desigualdades sociais invadem-nos violentamente como um murro no estômago e convocam-nos a diversas reflexões, necessariamente sobre injustiças sociais, insegurança, violência e corrupção. De facto, no mesmo espaço urbano convivem edifícios de luxo e as denominadas favelas, sendo as mais conhecidas a Rocinha, a Cidade de Deus e o Complexo do Alemão, que inclui várias favelas.
A origem das favelas remonta ao tempo da abolição da escravatura, em 1888. Os escravos, sem rumo e sem quaisquer direitos, começaram a ocupar casas localizadas em bairros abandonados. Surgiram, deste modo, os cortiços que eram, na verdade, as favelas da época, onde se alojaram negros, nordestinos, prostitutas, entre outros. O maior dos Cortiços chama-se Cortiço da Cabeça de Porco e ficava ao lado do Morro da Previdência.
No final do Século XIX, o Governador do Rio de Janeiro, Barata Ribeiro, levou a cabo uma chacina ao Cortiço da Cabeça de Porco, com o intuito de reurbanizar a cidade. Atacados, os moradores do Cortiço da Cabeça de Porco subiram o Morro da Previdência e aí se alojaram, construindo as suas casas.
Contudo, a origem do nome Favela surge em momento posterior, pela ocasião da Guerra de Canudos (1896-1897) e tem origem em uma árvore que se chamava Favela e que dava o nome ao Morro da Favela situado no Estado da Bahia.
De facto, vários soldados cariocas foram convencidos a ir lutar naquela que ficou conhecida como a Guerra de Canudos, com a promessa de uma vez regressados ao Rio de Janeiro terem como recompensa uma casa. Ora, esta promessa nunca se concretizou, sem prejuízo destes soldados terem organizado diversas greves para reivindicar o direito prometido. E é quando desistem da sua reivindicação que sobem, como os restantes, para o Morro da Previdência que, segundo diziam, se assemelhava ao Morro da Favela. Foi, de facto, a recorrente comparação deste morro com o da Favela que determinou que, actualmente, Favela equivalha, de forma generalizada, ao nome atribuído a todos os bairros pobres construídos nos morros das cidades brasileiras.
Porém, as Favelas não integram, como se poderia levianamente considerar, apenas pessoas pobres e que vivem à margem da sociedade. Convivem, nestes morros, pessoas perfeitamente integradas na sociedade, mas que não têm condições económicas para descer o morro e comprar ou arrendar uma casa no “outro lado” do Rio de Janeiro, com organizações criminosas como o Comando Vermelho que que domina diversas favelas, entre as quais, o complexo do Alemão.
Porém, logo, logo é Carnaval e os Blocos das diversas escolas, constituídos pelos habitantes dos morros, descem à cidade, para celebrar a vida.
“Alô, moça da favela, aquele abraço
Todo mundo da Portela, aquele abraço
Todo mês de fevereiro, aquele passo
Alô, Banda de Ipanema, aquele abraço.”
No Carnaval de 2026 e nos seguintes, enquanto a memória carregar a dor, levarão consigo todos quantos pereceram na intervenção militar (e política) ocorrida nos dias 28 e 29 de Outubro de 2025, no Rio de Janeiro.
Mas a vida não pode parar e o Rio de Janeiro continuará, certamente, lindo.
A todos quantos sofreram perdas irreparáveis com esta intervenção militar (política), Aquele Abraço.