As pessoas querem aprender a nadar
e ter um pé no chão ao mesmo tempo.
Marcel Proust
Entra o mês de agosto e a maioria dos portugueses entra de férias. Portugal fecha para ir a banhos, lá fora ou cá dentro, consoante... Como diria Joana Canastra, personagem de “Levantados do Chão” de José Saramago, “é consoante”. Ou seja, consoante o dinheiro. Há os que o têm para sair para o estrangeiro – que é sempre lá fora -, e há os que nem têm para sair cá dentro e se ficam por casa a manter as rotinas em tudo iguais às do resto do ano, numa resignação conformada! Felizmente, pertenço ao grupo dos que tanto as passa cá dentro, como também vai para fora. E a modalidade das minhas férias também tem variado à medida que o perfil da família se foi transformando ao longo dos anos. Vi os filhos passarem de crianças a adolescentes, de adolescentes a pais de família, fazerem de mim avó e os netos passarem a levar as suas namoradas.
Convém recordar que, em Portugal, as primeiras leis sobre férias remuneradas surgiram em 1937, mas apenas um grupo muito restrito tinha esse direito, já que a maioria da população trabalhadora dele estava excluída. O direito universal e generalizado a todos os trabalhadores só se concretizou em toda a sua plenitude após a Revolução de 25 de Abril de 1974. Porém, aquilo que se considerou como uma grande conquista, trouxe também um problema, que de vez em quando tem sido publicamente debatido – um sentimento de depressão vivida por uma franja da população após o regresso das férias. Este tipo de depressão pós-férias, que atinge um número significativo de pessoas, é motivado pelo retorno ao trabalho e ao reencontro com a realidade de ter de encarar as rotinas do quotidiano. Segundo os especialistas, cerca de 40% das pessoas sentem dificuldades em se adaptar novamente ao ritmo normal da vida ativa. Dias antes, sentem-se tristes, abatidas e chegam a chorar. Os psicólogos aconselham calma e as revistas da especialidade enchem-se de dicas para acabar de vez com a melancolia. Nas reportagens de rua, vemos rostos queixosos e ouvimos lamentos, ditos com o mesmo ar sofrido de quem vai para o cadafalso. Por muito respeito que me mereçam, sinto pena e apetece-me dizer-lhes que não gozem férias!
Apesar de não apreciar ser perentória com determinado tipo de afirmações, já que o futuro se apresenta sempre sob a forma de um grande ponto de interrogação, uma coisa, porém, posso afirmar com a maior das certezas: eu nunca sofri deste tipo de depressão. Regresso às minhas rotinas com prazer e retomo naturalmente a agenda dos compromissos assumidos. Também é verdade que não gosto de gozar muitos dias de férias seguidos, preferindo o esquema das férias repartidas ao longo do ano. Mas, mesmo na situação de reformada e sem a tutela da entidade patronal, sinto vontade de regressar às tarefas a que voluntariamente me entrego, com a mesma disciplina de quem cumpre um horário de trabalho normal. Por isso, sempre que vejo ou oiço debates sobre o assunto, concluo da felicidade que é gostarmos daquilo que fazemos, por nos sentirmos livres apesar das obrigações a que qualquer trabalho nos amarra.
Nesse sentido, estou em condições de garantir que fui sempre uma privilegiada porque nunca tive necessidade de alterar os caminhos que a minha carreira me traçou. Entendo, no entanto, todos aqueles que, contrariados, cumprem quotidianos de sobrevivência por falta de alternativa. Para esses, o regresso ao trabalho é sempre um castigo, uma punição, o cumprimento do ditame bíblico provocado pelo pecado original: «Ganharás o pão com o suor do teu rosto!»
No entanto, da próxima vez que alguém se queixar de depressão pós-férias, lembre-se do quão difícil foi conquistar o direito a férias. E do trabalho que isso deu!