Home Cardus Edição 154, fevereiro 2026

ARTE E O TEMPO

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Pedro Casqueiro
Detour


MAAT, 12 NOV 2025 - 06 ABR 2026

Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

CAMINHOS MÚLTIPLOS, INQUIETAÇÃO E RETICÊNCIA

«[…] Bato à porta da pedra. / – Abre. Sou eu. // – Não tenho porta – diz a pedra.» (Wislawa Szymborska, “Conversa com a pedra”)

Uma selecção de obras de Pedro Casqueiro (1959), criadas entre a década de oitenta (1984) e 2025, pode ser apreciada no MAAT até 6 de Abril de 2026.

Anúncio de um desígnio metodológico subjacente à longa prática pictural de Pedro Casqueiro (P.C.), o título da exposição, Detour, deriva do título de uma pintura do autor, datada de 2013. A dita pintura – cuja composição foi elaborada a partir de alguns elementos de uma gravura de Hokusai, sujeitos a uma ulterior recombinação e metamorfose – exemplifica a prática pictórica recorrente em P.C., alicerçada em ideias de deslocação, desorientação, desencaminhamento e flutuação no respeitante ao uso de e à referência a imagens e modelos provenientes de uma diversidade de fontes (História da Arte, Desenho de Arquitectura, BD, Cultura Visual Contemporânea). O autor valoriza – citando as suas palavras – o «insólito e a ambiguidade» na elaboração formal e imagética das suas pinturas. É visada, sobretudo, a eficácia visual. E, menos – tal como sucedia com as propostas da Internacional Situacionista – usar o desvio enquanto (prioritário) instrumento de uma disputa de sentidos; arma contra a lógica e os imperativos de uma sociedade espectacular-mercantil.

À entrada da exposição, o visitante depara-se com um conjunto de pinturas distintas, Freakquency (2013), de pequeno formato, ostentando palavras (ou frases breves), trocadilhos, com letterings diferentes. Algumas das pinturas, poucas, são figurações de: caricaturas; detalhes de imagens (uma espécie de paisagem pixelizada e, em modo de auto-citação, formas de cariz orgânico, compósitas e volumétricas, ocupando a totalidade de um fundo uniforme); pormenores de tramas (para simular tons contínuos com pontos de tamanho variado); texturas e estruturas padronizadas.

As telas da década de oitenta aparentam uma feitura veloz, enfatizando a dispersão, a fragmentação e a gestualidade espontânea, com recurso a cores vivas (por vezes, sujas). As superfícies das mesmas são texturadas, com um excesso de elementos. Ao magma de alusões, citações indirectas e remissões, são adicionadas matérias, fragmentos e recortes de organismos (corpos, paisagens) e colados objectos.

Organizadas em módulos geométricos no plano compositivo, as telas das décadas seguintes apresentam superfícies cromáticas lisas, mais subtis por via de velaturas. Tornam-se mais gráficas e resultam de uma redução (miniaturização) do gesto. A elaboração é lenta, demorada; camada por camada. Mediante uma inspecção mais atenta, pode comprovar-se que, sob as formas, mal se ocultam as marcas de traçados geométricos e quadrículas. As telas são começadas com cores vivas e, depois, estas são atenuadas com o avanço gradual do trabalho. A ponto de, em anos mais recentes, predominarem as cores mais sombrias ou acinzentadas.

Frequência (2013) é o produto da combinação deliberada de regras e acaso. A estrutura cromática desta composição modular (constituída por rectângulos enfileirados em estreitas faixas verticais) é gerada por sequências aleatórias. A aplicação de cada cor (seis, no total) é, segundo P.C., determinada por um lançamento de dados.

Caricatura (2023): uma espécie de menhir achatado destaca-se, erecto, em equilíbrio, numa paisagem vagamente sugerida. O menhir sarapintado de cores é modelado por um conjunto de linhas paralelas e cruzadas. A pintura é resultante de um processo de ocultação (e transformação) de uma imagem prévia – mais exactamente: a impressão digital de uma antiga caricatura de si próprio feita pelo artista.

Em finais dos anos 90, floresce o uso de palavras, letras (da sua forma) e frases encontradas. O trocadilho e o laconismo são explorados através da colagem de elementos linguísticos encontrados (provenientes quer da língua inglesa, quer da portuguesa). À dose moderada de ironia e humor associa-se o intenso prazer visual gerado – nomeadamente, nas telas em que é manifesta a cumplicidade entre palavra e imagem, por intermédio da inscrição de pseudo-mensagens.

Em entrevista, dada em 2001, P.C. considera-se um fazedor de «armadilhas visuais», cuja eficácia visual é necessária para distrair os seus observadores, fazendo-os embrenhar-se na contemplação ou na meditação.