Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
De 5 de Outubro de 2025 até 16 de Fevereiro de 2026, a exposição Formas no Espaço… Através da Luz (no Tempo), no MAAT, trouxe a oportunidade de o público contactar com a obra de Cerith Wyn Evans (1953). Oriundo do cinema experimental, Cerith Wyn Evans (CWE) apresenta cerca de 31 obras produzidas entre 1994-2025, ocupando a Sala Oval e a Galeria 1. Instalações, vídeos, obras sonoras, restos de paredes de anterior exposição temporária (Jeff Wall), peças em que revisita técnicas, processos e motivos usados em kimonos. CWE trabalha uma diversidade de materiais: luz (néon), plantas, vidro e som. O som perpassa pela exposição. A sua obra articula campos culturais distintos: História de Arte, Música, Literatura, Filosofia Oriental.
Na Sala Oval, suspensa do tecto, destaca-se a instalação de luz, a néon branco, que dá título a esta mostra. O néon está omnipresente na publicidade e no mundo do espectáculo, desde a década de vinte do século XX (então apelidado de “chama viva”). A paisagem urbana moderna, trepidante e labiríntica, na exaltação de uma cultura do consumo é moldada pela luz artificial, eléctrica. Lembremo-nos de um exemplo, quanto ao imaginário cinematográfico: One From the Heart (1982) de Francis Ford Coppola. O ingresso do néon no domínio artístico ocorre durante a década de sessenta (Dan Flavin, Bruce Nauman, François Morellet, Keith Sonnier, Mario Merz, e etc).
Aparentemente, um colossal desenho abstracto capturado no espaço, fazendo lembrar diversas trajectórias lineares de objectos em movimento, rastos de luz fossilizados no ar ao invés de numa única imagem (cronofotografia). Um explosivo emaranhado de linhas brancas, a levitar no espaço, ora quase tocando o chão ora ascendendo. Um emaranhado de linhas de luz, mais denso ou mais rarefeito, que se elucida à medida da deslocação do espectador no espaço. Alguns desenhos de luz são traduções de Testemunhos Oculares, desenhos esquemáticos reconhecíveis na obra de Marcel Duchamp, Grand Verre ou, na designação alternativa, The Bride Stripped Bare By Her Bachelors, Even (original: 1915-23). A referida obra, construída em vidro, está dividida em dois domínios – o da noiva e o dos solteiros. Uma linha de horizonte separa e articula a dualidade e correspondência entre os dois componentes, masculino e feminino, iguais e equivalentes. Os Testemunhos Oculares encontram-se na zona inferior, a dos solteiros. Próximo desta instalação de CWE, estão três colunas de luz, LED, suspensas, a poucos centímetros do chão, cujas luzes se apagam e acendem, com diferentes intensidades, ao ritmo de uma respiração. Ouvem-se sons, gerados pela aspiração do ar e sua devolução através de tubos transparentes.
Outras peças em vidro. Numa sala escurecida, as peças – pára-brisas de automóveis acidentados – estão suspensas. O feixe de luz anima as superfícies fissuradas dos pára-brisas. Por sua vez, com a rotação das mesmas, as paredes e os corpos dos visitantes são varridos, vertiginosamente, por reflexos e sombras projectados. Antes de entrar o visitante passa por dois biombos de vidro, com fendas, com moldura metálica, montados em paralelo. À saída, depara-se com painéis de vidro com altifalantes, emitindo uma panóplia de sons (música composta e tocada pelo artista, sons de satélites na órbita terrestre). É enaltecida, nestas duas peças, a materialidade evanescente e ambígua do vidro, capaz de reagir a mudanças das condições de luminosidade assim como à posição do espectador. Nelas se reflectem vários grupos de peças. Nomeadamente, um conjunto de peças em néon (2022) que traduzem as ‘composições’ das apelidadas ‘Black Paintings’’ (1958-60) de Frank Stella. As ‘Black Paintings’ suprimem a tridimensionalidade pictórica, composição ou relacionalidade, e o elo a uma significação. Stella opera a coincidência óptica entre suporte e pintura. Os espaços vazios (tela virgem) entre as riscas de mesma largura e cor, repetidas sem formar um todo, passam a ser (com CWE) linhas de luz. O espectador confronta-se com a sobreposição das peças dispostas no espaço. Tal como se fossem planos (cortinas) que escandem a profundidade, deixando entrever o espaço expositivo e as plantas. As peças reflectem-se, por sua vez, nas superfícies envidraçadas do tecto da sala.
Uma peça circular ostenta uma frase, em néon branco. A citação em latim do título de um filme (1978) do fulgurante Guy Debord (1931-1994): “in girum imus nocte et consumimur igni” (“movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo”).