Home Cardus Edição 159, julho 2026

ARTE E O TEMPO

car


José Pedro Croft
Reflexos, Enclaves, Desvios


CCB, 30 ABR 2026 - 13 SET 2026

Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

ENTRE JOGOS ESPACIAIS: TENSÃO, INSTABILIDADE E FRAGILIDADE

“Espelhos […] // Infinitos os vejo, elementais / Executores de um antigo pacto, / Multiplicar o mundo como o acto / Genesíaco, insones e fatais. // […] // E Deus criou as noites, que se armam / De sonhos e as formas do espelho / Para que o homem saiba que é reflexo / E vaidade. Por isso nos alarmam.” (Jorge Luís Borges)

Até meados de Setembro, José Pedro Croft (1957) expõe, no Centro Cultural de Belém (CCB), uma selecção de obras produzidas neste século nos domínios da gravura, desenho e escultura. As contaminações mútuas tornam-se evidentes depois de percorridas as cinco salas.

Reflexos, Enclaves, Desvios – título da actual exposição – corresponde ao seu regresso ao CCB. De facto, em 2002, foi reunida obra feita desde 1979 até à mencionada data, numa fundamental retrospectiva do seu percurso artístico. 

Parte significativa da multidisciplinar produção realizada neste século tinha sido apresentada em Objectos Imediatos (2014) – uma exposição concebida para dois espaços: Cordoaria Nacional e Fundação Carmona e Costa.

O título da exposição de 2026 é ajustado quanto ao que nomeia, aludindo a materiais, matérias, temas e estratégias. Designadamente, a ideias de: reprodução, cópia, simetria; um território envolvido por – encravado em – outro; uma realidade evocada de modo impreciso ou incompleto; aquilo que decorre de um movimento reflexivo ou é realizado por meio de reflexão; uma dinâmica (permanente) de repetição e diferença; um processo criativo que se traduz em regressar a questões, soluções e processos, procedendo por aproximações e separações, subversões e bifurcações de um caminho principal.

As gravuras resultam de uma diversidade de processos (por exemplo: água-forte, maneira negra, ponta seca). Há séries de gravuras que são posteriormente trabalhadas com guache, verniz, tinta-da-china e acrílico. As séries de grande e pequena dimensão ostentam redes formadas por uma densidade de linhas paralelas e cruzadas, laboriosamente desenhadas à mão, criando planos de cor, sobrepostos e desalinhados. Nelas domina o contraste entre o espontâneo e o mecânico, o geométrico e o orgânico (irregular), o opaco e o transparente. A velocidade diferenciada durante a execução das mesmas, inscrevendo distintos tempos e processos de construção da imagem, potencia o contraste entre a geometria das redes (ou dos sólidos) e a fluidez da tinta (salpicos, escorridos e borrões).

As gravuras intervencionadas (ou não) trazem as variações de um mesmo motivo: a estrutura cúbica ou poliédrica – sujeita a processos de fragmentação, deformação, desarticulação e graus diferenciados de transparência, envolvendo a variação interna do seu interior; ao desconjuntamento estrutural em planos que se unem, sobrepõem e interpenetram; à tensão resultante das aludidas redes (traçadas a partir de e entre arestas), mal contendo as matérias líquidas transbordantes ou transparecendo o sombrio vazio, cujas orientações emparelham com ou divergem das facetas; ao conflito entre plano e profundidade – sólidos em posição instável, drasticamente enquadrados e comprimidos.

A fragmentação reaparece nas peças que tomam a figura gravada do círculo (ou da circunferência), com tamanhos variáveis. As provas são recortadas e os fragmentos resultantes são remontados tirando partido da forma irregular do suporte e da descontinuidade cromática dos arcos de círculos interrelacionados (os maiores contendo os mais pequenos), interrompidos pelos espaços vazados.

Por vezes, o círculo (completo ou incompleto) é inscrito na parede e, seguidamente, velado, de modo a parecer emergir da parede nos seus limites (em secções de: linha ou plano curvo). Na peça em ferro pintado (2019), os planos de cor (vermelho, azul e preto) pintados, separadamente, sobre placas recortadas e dobradas, parcialmente emolduradas de branco, parecem jogar com uma dupla ilusão: a de pedaços de cor em papel justapostos num mesmo plano e a do ferro parecer papel e equivaler à leveza deste.

Um dos desenhos, antecipando a entrada na primeira sala, apresenta traçados de redes, tramas sobrepostas e com orientação variável – sobrepostas, por seu turno, a uma negra folha de papel – cujos espaços vazios, em negativo, são vazados. A uniformização cromática (laranja) enfatiza o contraste entre os traçados e os recortes.

A maioria das esculturas são diedros ou sólidos abertos e incompletos. As que são definidas por perfis metálicos, algumas das suas facetas são ocupadas por planos de cor transparente (ecrãs), vidros e/ou espelhos. O espaço irreal que se abre virtualmente para além de uma superfície espelhada, imediatamente prolonga e reproduz as aparências do mundo existente, actual. Os espelhos permitem a exploração de tensões espaciais, causadas pela inversão de posições no espaço e pela fragmentação de coisas, espaços e pessoas (cujas distâncias relativas se confundem); e, a cada instante, a remontagem virtual dos pedaços de realidade mediante a deslocação do espectador no espaço expositivo. Justapondo pontos de vista e fragmentos de visão, os espelhos trazem a subversão à realidade e ao indivíduo que absorvem e integram. O muro e o chão tornam-se zonas de passagem.