Tive a sorte de passar por Berlim já havia o muro caído há uns dez anos, mas onde foi ainda possível ver a zona leste tal como ela era antes da reunificação da Alemanha. Recordo os semáforos típicos dos peões bem como ter visto na toponímica da cidade alguns nomes de líderes africanos. Foi uma passagem rápida de carro, o objetivo era viajar para norte sempre pelo espaço correspondente à antiga Alemanha do Leste.
Volto a Berlim 24 anos depois e circulo novamente por um bairro (Berlim é composta por bairros com estrutura administrativa própria) que pertencia à zona leste da cidade. Desta vez a pé, a melhor maneira para se apreciar o ambiente, as ruas, as casas, os pormenores, as pessoas, aquilo a que poderemos chamar a alma do espaço. Uma volta por apenas alguns quarteirões, que não ocupou mais do que duas horas matinais, mas com muito para ver e registar.
O centro da cidade fica mesmo ao lado, mas as flutuações da bolsa e o frenesim da economia e do progresso não chegam ao bairro. Ruas largas, muito arvoredo, esplanadas grandes e espaçosas à disposição de quem é da casa ou está de visita. Caminha-se devagar, pela rua, pelo passeio. Outros ocupam as esplanadas saboreando o café matinal, alguns leem, eventualmente o livro descoberto pelo caminho.
Efetivamente, encontram-se livros por todo o bairro, em caixas de cartão espalhadas pelos passeios, nas esplanadas e mesmo empilhados nos parapeitos das janelas dos edifícios. Também em lugares próprios como o da figura, em gavetas incrustadas em árvores. A circulação é livre, podem ler-se no local, levar-se para casa e devolver-se mais tarde ou mesmo ficar-se com alguns.
Assumo que haja quem leve mas também quem traga, uma regra parecida com aquela que se vê escrita nos albergues dos caminhos de Santiago: “Deixa o que puderes, leva o que precisares”.
Graffitis são coisa que não falta nas ruas do bairro. Com arte ou sem arte, com gosto ou sem ele, há material para todos os gostos e considerações que vão desde o puro vandalismo a formas de intervenção cultural ou arte de rua. São raros os prédios que não estão grafitados, quer na parte virada para a rua quer nos túneis de acesso aos prédios no interior. O espaço urbano do bairro está organizado em quarteirões compostos por prédios com fachada para a rua que por sua vez rodeiam e protegem pátios e edifícios interiores.
Não, não é um monumento dedicado a Lénine. Trata-se de um homenagem a Ernst Thälmann, um político comunista alemão e o principal líder do Partido Comunista da Alemanha (KPD) entre 1925 e 1933. Uma das figuras políticas mais marcantes da República de Weimar, Thälmann transformou o KPD num partido fortemente alinhado com o Partido Comunista da União Soviética de Joseph Estaline. Foi duas vezes candidato à presidência da Alemanha antes de ser preso pelo regime nazi em 1933 e, após 11 anos de confinamento solitário, acabou executado no campo de concentração de Buchenwald em 1944.
Contestação e ativismo são atividades sempre presentes em Berlim. Algumas mesmo residentes, caso desta organização que ocupa um prédio e que mostra a quem passa que milita pela liberdade, pelos direitos dos migrantes e refugiados, contra o fascismo e todas as formas de discriminação.
Todos os moradores têm seguramente uma bicicleta face à quantidade de velocípedes que se veem nos pátios, nos parques, nas entradas dos prédios e em circulação pelas ruas. Graças aos movimentos de cidadania há cada vez menos ruas para carros e cada vez mais faixas para bicicletas. Uma conquista dos moradores no bairro como me é explicado. Os carros não podem circular a mais de 30 km/h e este limite vai provavelmente ser ainda mais reduzido. O objetivo é mesmo retirar os carros das ruas, limitar-lhes a circulação aos grandes eixos rodoviários.
Também se vê algum lixo nas ruas e pessoas (só vi uma, mas acredito que haja mais) a respigar nos caixotes do lixo. Os passeios aparentemente estão um bocado descuidados, digo aparentemente porque parece que a intenção é mesmo essa, quanto mais naturais as coisas forem melhor para o ecosistema.
Não diria que existe um parque em cada esquina, mas há, efetivamente, muitos parques no bairro. Uns murados outros abertos, uns mais cuidados outros menos (a tal regra do quanto mais natural melhor). Haja sol (como foi o caso) e é vê-los cheios de pessoas a fazerem piqueniques, grelhados ou apenas a apanhar sol. Mas há regras a cumprir …
Leio que os berlinenses são conhecidos pela sua autenticidade sem filtros, desapego ao luxo e um estilo de vida profundamente marcado pela liberdade individual e tolerância. A identidade local é moldada por uma mistura única de multiculturalidade, contracultura e pragmatismo alemão. Esta caraterização que me foi prestada pelos meios modernos de informação corresponde perfeitamente ao sentimento com que terminei este passeio pedonal de duas horas por alguns quarteirões do bairro Prenzlauer Berg de Berlim.