Home Cardus Edição 155, março 2026

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


A única saída (2025)

Park Chan-wook


A grande tragédia que pode acometer um homem na Coreia do Sul não é exatamente a morte, mas a perda de sua função social. Em uma cultura ainda marcada por valores confucianos e por um modelo patriarcal que associa dignidade à capacidade de prover, o desemprego deixa de ser apenas um problema econômico e passa a ser uma falha moral. É esse constrangimento estrutural que move Park Chan-wook em A Única Saída.

Quando Man-Su é demitido após 25 anos no mesmo emprego, o que se desintegra não é apenas sua renda, mas sua identidade. Incapaz de se recolocar no mercado, ele assiste à própria erosão doméstica e financeira: o silêncio constrangido à mesa, a autoridade que se dissolve, o olhar da família que lentamente deixa de reconhecê-lo como eixo da casa.

O filme dialoga inevitavelmente com Parasita e, de maneira ainda mais direta, com Tokyo Sonata, obras que também investigam o colapso masculino diante da dificuldade financeira. Mas onde Bong Joon-ho aposta numa arquitetura social precisa e Kiyoshi Kurosawa constrói um drama de silêncios, Park opta pelo exagero e abraça a caricatura.

Trabalhando a partir de um ecossistema de indivíduos que perderam suas identidades junto de seus empregos, o filme se diverte com a própria lógica distorcida que sempre aponta para o caminho da violência. Usa o choque e o exagero para investigar a fragilidade da ordem social, e como um simples descenso de classe pode ser o suficiente para fazer um homem matar.

Alegórico e assumidamente estilizado, A Única Saída parece mais interessado em sua própria plasticidade formal do que na construção de um drama psicológico profundo. As reviravoltas são calculadas, os enquadramentos são exibidos como acrobacias conscientes, e o humor macabro impede qualquer identificação sentimental prolongada. É um filme que se afasta do realismo conforme vai investigando o lado mais sombrio da condição humana.