Home Cardus Edição 156, abril 2026

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


RoboCop (1987)

Paul Verhoeven


Ambientado em uma Detroit futurista e distópica, RoboCop (1987) acompanha a jornada de Murphy, um policial morto em combate que é transformado em um ciborgue para se tornar a arma corporativa mais letal já vista.

Nesse universo, o futuro não é uma profecia distante, mas uma hipérbole das tensões da época. Tratava-se do auge do discurso neoliberal da Era Reagan, que tinha como pilares os ideais bélicos e de expansão econômica a qualquer custo. Verhoeven constrói, então, um futuro apoiado em um estágio tão avançado desses ideais que a fronteira entre cidadão e mercadoria foi extinta por completo.

Murphy (ou RoboCop) é a grande vítima dessa fusão. Morre seguindo ordens e defendendo uma corporação sanguessuga que encontra uma forma de capitalizar sobre ele mesmo depois de morto. Trata-se, portanto, de uma sociedade tão dessensibilizada e distante da empatia que a vida humana se torna tão descartável quanto qualquer produto de prateleira. O apelo capitalista é apresentado como algo tão violento e coercitivo que a lógica de descarte após o consumo deixa de ser a prática final; em seu lugar, estabelece-se um fetiche pela destruição.

Pensando na linguagem cinematográfica, esse fetiche é essencial e assumido com muita ironia por Verhoeven. Organizando o filme a partir de uma lógica ultradinâmica, a hiperestimulação é um dos principais recursos que possibilitam a imersão nesse universo. Isso se reflete na onipresença da mídia, com comerciais de TV que interrompem a narrativa — tais como o jogo de tabuleiro "Nuke 'em", que vende a aniquilação nuclear como entretenimento familiar — ou nos momentos de violência gratuita protagonizados pela gangue de Clarence Boddicker. De todo modo, o que fica claro é que a violência se apresenta não como um efeito colateral ou uma falha no sistema, mas como o próprio motor da economia. O povo é compelido não apenas a consumir e descartar, como também a destruir.

A dessensibilização de uma sociedade forjada na violência apresenta-se como inevitável. Vemos desde banalizações cotidianas, como o Sargento Reed anunciando a morte de mais um oficial com desdém burocrático, até policiais que atiram em colegas de trabalho apenas por terem recebido ordens superiores para tal.

É o retrato de uma sociedade tão apodrecida e distante de qualquer resquício de empatia que o filme atinge um paradoxo: a estrutura corporativa acaba por colocar o produto (RoboCop) em uma posição mais humana do que qualquer outro personagem de carne e osso. Enquanto o homem se torna máquina social, a máquina é a única que ainda insiste em ser homem.