Home Cardus Edição 158, junho 2026

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


São Paulo S.A. (1965)

Luís Sérgio Person


São Paulo S.A., logo em sua primeira sequência, mostra um casal discutindo acaloradamente dentro de um apartamento. A câmera, que espia pela parte de fora da varanda, capta os gestos da briga, mas não o conteúdo da conversa; é impedida por um vidro que sobrepõe, ao conflito íntimo do casal, o reflexo cinzento dos prédios lá fora. Visualmente, a imagem já denuncia a grande vilã do filme e a causa daquele fracasso: a cidade de São Paulo. 

O que testemunhamos, na verdade, é o término do casamento de Carlos (Walmor Chagas) e Luciana (Eva Wilma). A partir dessa ruptura doméstica, disparada em um longo flashback, o filme retrocede para nos mostrar como o protagonista chegou até ali. 

Narrador-personagem, Carlos nos conduz pelos pensamentos que guiam suas ações tortuosas. Ainda assim, trata-se de um sujeito tão canalha e egoísta que mesmo essa proximidade não é capaz de gerar qualquer sentimento de simpatia ou identificação. Obstinado convicto, é tão fechado em seu próprio mundo que se recusa até mesmo a conhecer uma música diferente de "Favela", a única canção (e talvez coisa) de que gosta.

Conquista suas ambições na base da insistência, mas é tão infeliz que não consegue sequer saborear suas vitórias. Encara a vida como uma série de tarefas a serem cumpridas, avesso a qualquer momento de contemplação ou divertimento.

É tão apático que mal consegue assumir o protagonismo da própria história, sendo aos poucos engolido pela metrópole, cada vez mais reduzido a mera engrenagem e compelido a aderir a uma posição conformista. Nunca é capaz de encontrar um remédio para sua melancolia.

Essa relação de alienação é muito bem trabalhada a partir da forma como Person filma a arquitetura e a vida urbana paulistana, criando uma sensação de monumentalidade e urgência. Isso é sempre realizado de maneira muito elegante, como no contra-plongée do Edifício Independência — simbolizando o prédio como figura opressiva —, ou na famosa cena da epifania conformista de Carlos no Centro Histórico.

O que Person apresenta, portanto, é a cidade de São Paulo como personagem central e totalitária. Um organismo vivo que devora a individualidade de seus habitantes em nome de uma ambição capitalista; permanece, 60 anos depois, um espelho incômodo de uma cidade que continua a moer o íntimo de seus sujeitos para manter as fábricas funcionando.