Home Cardus Edição 154, fevereiro 2026

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Capítulo III

Direitos e deveres culturais

Artigo 78º

(Fruição e criação cultural)

  1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.
  2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais:

[…]

c) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum.



TENTÚGAL RECUPERA TRADIÇÃO ANCESTRAL DO LINHO


Tentúgal não é só o seu famoso pastel.
A Associação Corvo e Pinho quer recuperar os "Saberes do Linho".

E no princípio era o linho… Semear, mondar, arrancar, ripar, molhar, secar, malhar, espadelar, assedar, estrigar, fiar, ensarilhar, barrelar, dobar, encanelar e urdir — estas são as muitas voltas que o linho dá antes de chegar às mãos da tecedeira e ao tear. Cada verbo conta uma etapa da tradição e cada etapa se conjuga hoje com o projeto (A)linhando, que pretende recuperar a cultura do linho no Baixo Mondego, como motor de desenvolvimento económico e social e impulso para novos projetos de empreendedorismo jovem na região.

Para conhecer esta iniciativa e o trabalho que a sustenta, falámos com a vice‑presidente da Associação CORVO E PINHO, Leonor Nunes, responsável pela dinamização do projeto (A)linhando, que envolve as senhoras da APOSENIOR, a Universidade da Terceira Idade de Tentúgal.

Quando se fala em Tentúgal, a maioria de nós pensa imediatamente no pastel. O que representa esta ligação tão forte?

É verdade, é quase automático. O pastel de Tentúgal é o nosso “ex libris”. As pastelarias são hoje grandes empresas dedicadas ao fabrico do pastel, que continua a ser produzido exclusivamente aqui e distribuído para todo o País. O pastel representa uma herança cultural, mas sobretudo económica: traz pessoas a Tentúgal, dá vida e dinamismo à vila, e está ligado à história do Convento das Carmelitas. Tem ainda uma dimensão social importante porque, antigamente, eram as freiras que faziam e distribuíam os pastéis às famílias com crianças debilitadas.

Mas não é dos pastéis que nos quer falar hoje…
Não. Hoje quero falar do linho. Do linho e do projeto (A)linhando, que surgiu precisamente da vontade de recuperar esta tradição.

Como nasce a ideia de recuperar as tradições de Tentúgal?

A Associação CORVOEPINHO surge da vontade de um grupo de residentes em travar a perda progressiva das tradições da vila. São tradições muito relevantes, mas que se foram diluindo ao longo dos séculos. Ao desaparecerem os habitantes mais antigos, perdem‑se também memórias e práticas ligadas ao trabalho no campo e no rio, às crenças, mezinhas, orações e romarias, à vida comunitária em torno do forno do pão ou das rodas de fiar o linho ao som da viola toeira. O nosso objetivo é recuperar esse património vivo. Queremos valorizar a transmissão dos saberes antigos, ouvindo os mais idosos, que guardam conhecimentos e memórias preciosas. Para além da recolha e registo dessas memórias, queremos também encontrar novas formas de dar vida à terra, reativando algumas das antigas atividades do quotidiano.

É neste contexto que surge o projeto (A)linhando?

Sim. O projeto (A)linhando pretende recuperar e recriar todas as etapas do ciclo do linho, desde a sementeira até ao produto final, mostrando a complexidade de um processo totalmente artesanal.

Pode descrever esse processo?

O processo começa no campo, quando o linho é arrancado ainda verde e deixado a secar ao sol. Depois de seco, segue para a água, onde incha e se prepara para ser transformado. A primeira grande tarefa é o ripar. Com o ripo, retiram-se as cápsulas que guardam a linhaça, mais tarde libertada no crivo, também conhecido como joeira. As sementes ficam guardadas; o resto da planta continua o percurso. Seguem-se os malhos e a espadela, instrumentos antigos que quebram e limpam a fibra, separando a estopa — mais grossa e resistente com que se faz o papel — do linho fino, que servirá para fiar.

Muitos destes gestos já só são feitos por quem não quer deixar morrer a tradição. O linho exige tempo, força nos braços e um tipo de paciência que o quotidiano moderno raramente permite. Por isso, há oportunidade de introduzir alguma mecanização, até alguma robótica, para garantir que se preservam estes “saberes do linho”.

Depois de separadas, as fibras são organizadas em estrigas, pequenas tranças que vão para a roca. No fuso, transformam-se em fio, e é aqui que o processo começa a parecer mais leve. O fio passa para um cestinho e daí para o sarilho — sim, é verdade, é deste instrumento que vem a expressão “Isto é que está um sarilho!”, tão usada quando algo se embrulha mais do que devia. Quase no fim, ainda há o barrelado: o fio é cozido numa panela com água e cinza, o que o torna mais claro e mais fino. Depois faz-se a meada, passa-se pela dobadoira, dá-se forma ao novelo e, finalmente, chega ao tear. É ali que o tecido ganha vida e que todo o esforço anterior se justifica. O ciclo do linho é mais do que um simples processo agrícola ou artesanal: é uma memória coletiva, um pedaço da identidade rural que vale a pena preservar. Num tempo em que tantas tradições se perdem, manter vivo este saber é quase um ato de resistência e um gesto de respeito por quem trabalhou com as mãos e com o coração.

Tudo isto pode ser visto no Centro Interpretativo do Linho da Vila de Tentúgal?

Sim. É explicado todo o processo do ciclo e mostrados os artefactos, os instrumentos e as ferramentas, complementados com informação sobre a origem desta fibra têxtil, que remonta ao Antigo Egipto, entre 4000 e 3100 a.C. Foram os Fenícios — grandes comerciantes e navegadores — que difundiram o linho pelos territórios que hoje correspondem à Europa.

Mas foi com os Romanos que o linho se tornou a primeira planta têxtil cultivada de forma sistemática nesta parte do mundo. Curiosamente, hoje é precisamente a Europa o principal produtor mundial de linho. Trata‑se de uma planta “verde”, sustentável e ecológica, que promete afirmar‑se como o tecido do futuro.

Sendo o linho sustentável e com uma tradição tão enraizada no nosso país, podemos falar numa oportunidade de negócio?

Absolutamente! Os impactos ambientais do linho são mínimos. O seu cultivo requer até 20 vezes menos água do que o algodão, usa quantidades reduzidas de fertilizantes e não provoca danos no solo, podendo ser facilmente integrado na rotação de culturas. O processamento das fibras exige pouca eletricidade e recorre sobretudo a agentes naturais como a chuva e o sol. Além disso, praticamente todos os resíduos são aproveitados por outras indústrias, como a farmacêutica, a cosmética, a alimentar e até a do papel. A indústria têxtil tem inovado ao misturar o linho com outras fibras, como a lã ou a seda. Estes novos tecidos são mais agradáveis ao toque, mais resistentes à sujidade, mais fáceis de lavar e amarrotam menos. Assim, uma das fibras mais antigas do mundo é hoje também uma das mais inovadoras.

Quer isto dizer que o projeto (A)linhando tem mais ideias viradas para o futuro?

Sim. Estamos a procurar motivar potenciais investidores para a mecanização da produção do linho, o que poderá abrir novas oportunidades de negócio e de empreendedorismo jovem, envolvendo as novas gerações. Ao mesmo tempo, queremos valorizar as memórias e os conhecimentos dos mais velhos — os detentores dos “saberes do linho” — integrando‑os numa nova abordagem desta atividade tradicional e encarando‑a como um fator de desenvolvimento local.

O linho voltou. O linho está na moda.

Numa próxima deslocação a Tentúgal, além dos pastéis, que são obrigatórios, não deixe de marcar uma visita ao Centro Interpretativo do Linho ou de fazer o roteiro ao Museu Andando “As histórias que contam as ruas da minha terra” que relata história verídicas da vida da antiga Tentúgal através de um percurso pelas suas ruas da vila. É outro projeto da CORVOEPINHO, orientado pelo contador de histórias e dinamizador da cultura local, José Craveiro, e também presidente da Associação. Para não falar das lindas paisagens e da sua rica fauna e flora…