Home Cardus Edição 161, setembro 2026

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Artigo 73º

Direitos e deveres culturais

  1. Todos têm direito à educação e à cultura.
  2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida coletiva.[…]


BIOPRETXS: A ANCESTRALIDADE NEGRA NA BIODANZA


Grupo original do coletivo Biopretxs

Já aqui vos falei da Biodanza numa conversa com a minha facilitadora, Xana Condeço. Nessa entrevista explorámos os fundamentos desta proposta criada por Rolando Toro de Araneda e o seu potencial de transformação humana para uma vida mais saudável e conectada.

Hoje convido-vos a alargar esse horizonte através do encontro com Rita Nascimento, psicóloga, fisioterapeuta, facilitadora didata e cofundadora do coletivo Biopretxs, nascido no Brasil, que promove a valorização da cultura, da identidade e das experiências negras através da Biodanza.

Rita Nascimento teve o seu primeiro contacto com a prática quando trabalhava como psicóloga organizacional na Rede Ferroviária Federal do Brasil. Procurava respostas para desafios relacionados com o alcoolismo e o bem-estar dos trabalhadores. Mais tarde, realizou a sua formação na Escola de Biodanza da Bahia, sob a direção de José Sobral, a quem reconhece um papel decisivo no seu percurso. Hoje dedica-se à formação, à intervenção comunitária e à investigação das relações entre Biodanza, ancestralidade afro-brasileira e representatividade negra.

Conheci a Rita no Congresso Mundial de Biodanza de 2024, em Veneza. Entre as muitas vivências que marcaram esse encontro, a proposta apresentada pelo Biopretxs deixou em mim uma impressão particularmente profunda. Os ritmos, a presença da ancestralidade afro-brasileira, a memória inscrita nos corpos e uma relação mais visceral com a vida abriram uma dimensão da Biodanza que me era até então menos familiar.

Em novembro/2026 voltaremos a encontrar-nos no Congresso Mundial de Biodanza, este ano em Buenos Aires, em Mar del Plata. Esta entrevista nasce desse reencontro e da vontade de aprofundar a reflexão sobre identidade, ancestralidade, representatividade e universalidade numa prática que se propõe celebrar toda a humanidade, mas que continua a ser desafiada a integrar plenamente a diversidade das experiências humanas.

O trabalho do coletivo Biopretxs tem vindo a afirmar a importância da representatividade negra dentro da Biodanza. Que ausências ou invisibilidades sentiram necessidade de nomear e transformar quando criaram este movimento?

O coletivo Biopretxs nasceu durante a pandemia, quando os encontros e formações passaram a acontecer exclusivamente online. Nessa altura comecei a reparar que, nos cursos e minicursos de Biodanza em que participava, a esmagadora maioria das pessoas presentes era branca. Num desses encontros encontrei Elzinéia Luzia Dias, uma facilitadora negra, e partilhei com ela uma inquietação: onde estavam as pessoas negras na Biodanza?

Sabíamos que existiam facilitadores e biodançantes negros, mas a sua presença raramente era visível nos espaços de formação, nos congressos ou nas atividades de maior projeção. A partir dessa constatação, juntamente com Elzi e Brena Marinho, começámos um grupo de estudos com a intenção de investigar as referências africanas presentes na Biodanza e refletir sobre as razões dessa invisibilidade.

Abrindo espaço em Universidades de Salvador: Universidade de Estado da Bahia (UNEB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Ao estudarmos autores negros como Neuza Santos, Conceição Evaristo, Cida Bento, Katiucia Ribeiro ou Frantz Fanon, percebemos que muitas experiências vividas pela população negra não encontravam espaços de escuta e reconhecimento. O grupo tornou-se então um lugar de partilha, aprendizagem e acolhimento.

O nosso objetivo nunca foi criar uma Biodanza separada. O que procuramos é ampliar a representatividade, reconhecer contributos historicamente invisibilizados e criar condições para que pessoas negras se sintam verdadeiramente acolhidas e reconhecidas dentro do movimento da Biodanza.

A Biodanza nasceu com uma proposta universal de integração humana. Na sua experiência, de que forma a afrocentricidade amplia essa universalidade e a torna mais completa?

Quando começámos a estudar mais profundamente a cultura africana e afro-brasileira percebemos que muitos elementos centrais da Biodanza já dialogavam com valores ancestrais africanos: a circularidade, o sentido de comunidade, o respeito pelos mais velhos, a oralidade, a relação sagrada com a natureza e a força do coletivo.

O que fazemos é trazer mais luz a essas dimensões que já existem. A Biodanza sempre nos convidou à integração e Rolando Toro insistia para que os facilitadores nunca deixassem de estudar. É nesse espírito que procuramos contribuir. Da mesma forma que a Biodanza acolheu referências de diferentes tradições culturais, também pode acolher de forma mais consciente os saberes afrocentrados. Isso torna a proposta mais inclusiva e mais fiel à sua vocação universal.

Além disso, a nossa reflexão estende-se a outros grupos historicamente invisibilizados. Tal como procuramos ampliar a presença negra, também defendemos espaços de acolhimento e reconhecimento para pessoas LGBTQIA+ e para todas as expressões da diversidade humana.

Nas suas vivências, o corpo parece surgir não apenas como expressão biológica ou afetiva, mas também como território de memória, ancestralidade e resistência. Como é que a história coletiva dos povos negros se manifesta na dança e nos encontros que facilita?

Para nós, o corpo é um território de memória. Muitas vezes, quando trazemos determinadas músicas, ritmos ou movimentos ancestrais, percebemos que as pessoas respondem de forma muito profunda, mesmo sem compreender racionalmente o que está a acontecer. É como se estivéssemos a despertar memórias que já habitam o corpo.

Foi isso que vimos no Congresso Mundial de Veneza. Quando saímos de alguns repertórios mais tradicionais e trouxemos danças ligadas às raízes afro-brasileiras, muitas pessoas viveram experiências emocionantes de reconhecimento e conexão. Uma família de três gerações veio dizer-nos que aquela vivência lhes tinha permitido reencontrar-se.

Congresso Mundial de Biodanza - Lignano Sabbiadoro , Veneza 2024

A ancestralidade manifesta-se através dessa memória corporal, que não é apenas individual. É coletiva. Está presente nos ritmos dos tambores, nos movimentos circulares, na relação com a terra e na experiência comunitária.

Existe também uma dimensão de resistência. A população negra vive frequentemente em estados de tensão, sobrecarga e vigilância permanente. A Biodanza pode tornar-se um espaço de acolhimento e reparação, onde o corpo encontra colo, descanso e reconhecimento. Por isso é tão importante que os facilitadores desenvolvam sensibilidade para compreender essas experiências e criar ambientes verdadeiramente inclusivos.

Que contributos podem as tradições afro-brasileiras oferecer à evolução da Biodanza contemporânea e ao próprio movimento mundial da Biodanza?

As tradições afro-brasileiras podem oferecer um enorme enriquecimento à Biodanza contemporânea. Não se trata de substituir nada, mas de ampliar repertórios, símbolos, referências e possibilidades de vivência.

Por exemplo, a relação com os orixás oferece uma linguagem simbólica muito rica para trabalhar processos humanos universais. Quando dançamos Oxum, contactamos com a fertilidade, a beleza, a fluidez e o acolhimento. Quando dançamos Iansã, trabalhamos a força transformadora do fogo e dos ventos. Oxumaré traz-nos a ideia da transformação contínua; Iemanjá, o acolhimento materno; Oxalá, a paz e a presença do princípio paterno.

A Biodanza já dialoga com arquétipos oriundos de outras tradições culturais. O que propomos é que também os arquétipos afro-brasileiros sejam reconhecidos como património simbólico valioso para o desenvolvimento humano. Além disso, a cultura afrocentrada reforça dimensões que já fazem parte da Biodanza: a circularidade, a oralidade, a pertença comunitária, a relação com a natureza e o respeito pela ancestralidade. Tudo isso contribui para tornar o movimento mundial mais diverso, mais inclusivo e culturalmente mais rico.

Também defendemos que os processos formativos integrem autores e pensadores negros, ampliando os referenciais teóricos disponíveis para facilitadores e didatas.

A Rita está ainda envolvida num trabalho de empoderamento de mulheres nas comunidades. Quer partilhar connosco um pouco dessa experiência?

Grande parte do meu trabalho comunitário está relacionada com a valorização, o fortalecimento e a autonomia das mulheres negras. Ao longo da minha trajetória como psicóloga, fisioterapeuta e facilitadora de Biodanza, acompanhei de perto as múltiplas formas de desigualdade e violência que muitas mulheres enfrentam diariamente.

Percebo que existe uma necessidade profunda de criar espaços de acolhimento, escuta e fortalecimento coletivo. Quando as mulheres se reúnem, partilham experiências e reconhecem que não estão sozinhas, nasce uma força transformadora muito grande.

Trabalho com mulheres na zona rural; (em baixo, à direita) Biodanza no parque se São Bartolomeu, um local sagrado da religião de matriz africana

Essa dimensão coletiva é central também no trabalho dos Biopretxs. Inspiramo-nos na ideia do quilombo como lugar de proteção, pertença e resistência. Quando nos aquilombamos, fortalecemo-nos para ocupar os nossos lugares, reivindicar direitos e participar plenamente na construção da sociedade.

A nossa luta não é partidária. É uma luta por humanidade, por dignidade, por reconhecimento e por justiça. Acreditamos que todos ganhamos quando diferentes vozes, histórias e saberes podem ocupar os espaços que durante tanto tempo lhes foram negados.

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