Home Cardus Edição 154, fevereiro 2026

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




33. António Damásio



António Damásio (1944 - …) é um cientista na área da neurologia, mas as suas investigações levam-no à reflexão sobre problemas filosóficos. Aliás, nos títulos das suas obras aparecem Descartes e Espinosa, o que é desde logo significativo.

Mas temos de ir lá mais atrás, começando por Platão, na Grécia clássica, que nos ensinou que o homem é uma alma imaterial, racional, imortal, em oposição ao corpo que é material, sensível, mortal e, portanto, um obstáculo ao verdadeiro conhecimento que é racional e universal. E assim temos vindo a pensar até que…

Franz Gall (1758-1828) apresentou a proposta da frenologia como a teoria das “localizações” cerebrais: a determinado comportamento humano correspondia um centro cerebral de que ele dependia. As localizações propostas revelaram-se não serem verdadeiras. Mas a ideia foi levada a sério e, pouco a pouco, foram sendo encontradas, em autópsia, portanto depois da morte, correspondências entre problemas de comportamento e certas lesões cerebrais. Ou seja, a ideia era válida.

Um verdadeiro salto foi possível quando começaram a surgir técnicas não invasivas de observação do funcionamento de um cérebro vivo: eletroencefalografia, ressonância magnética funcional, tomografia por emissão de positrões, etc. Agora era possível “ver” a correspondência entre comportamentos humanos e o funcionamento de diversas áreas cerebrais. E assim ganhava corpo a ideia de que as diversas áreas do cérebro (que é complexo) são responsáveis por diferentes tipos de comportamento.

António Damásio publicou em 1994 o livro “O Erro de Descartes” em que mostra duas coisas fundamentais: sim, 1) há correspondência entre áreas cerebrais e comportamentos humanos e sobretudo que 2) são as emoções que possibilitam a inteligência por mais intelectual que ela seja. Ficava assim mostrado que as emoções são, elas próprias, inteligentes e sobretudo que é sobre elas que assenta a construção de níveis mais complexos da inteligência humana.

Nada ficava como dantes – daí a importância desta obra e o sucesso editorial que conquistou.

Mas, se assim é, tem que ser revisto tudo quanto, há cerca de 2.500 anos, vem sendo dito sobre o que é ser humano e o que se quer de um ser humano!

António Damásio continuou a investigar, a ser reconhecido como um neurologista maior e a publicar novas obras de divulgação dos avanços da neurologia e sobretudo as reflexões que delas decorrem. Entre esses livros, destaque para “Ao Encontro de Espinosa: As emoções sociais e a neurologia do sentir” (2003) e o último “A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência” (2025). Nesta obra, Damásio afirma que os sentimentos homeostáticos, por natureza auto-conscientes, são o princípio e o fundamento da consciência e a base de toda a extraordinária inteligência humana. E termina o livro perguntando: «Quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da Inteligência Natural como meio de manter a vida em criaturas simples, se tornariam, na longa trajetória do tempo, os elementos definidores da existência humana, os provedores de alegrias e tristezas, de glórias e tragédias, de valores elevados e mesquinhos, nada mais, nada menos do que o mais profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?» Platão deu, sem dúvida, três voltas no túmulo.

E os filósofos andam às voltas, com os cientistas, à procura das implicações dos contributos da neurologia e de pistas para a revisão do que tem sido o pensamento ocidental, que tanto tem ignorado e mesmo desprezado a sensibilidade. Será que fica pedra sobre pedra?

Temos de perguntar de novo: o que é o homem?

 

P.S. – António Damásio faz este mês, a 26 de fevereiro, 82 anos.