Home Cardus Edição 155, março 2026

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo

Daniel Goleman (World Economic Forum Annual Meeting 2011)



34. Daniel Goleman



Daniel Goleman (1946 - …) também não é um filósofo. Vem da área da psicologia, mas os seus trabalhos têm vastas implicações filosóficas.

Como sabemos, Platão (séc. V a.C.) disse que o homem é uma alma racional, embora infelizmente presa a um corpo material, sensível. Mais tarde, Descartes (séc. XVII) afirmou que “eu sou uma coisa que pensa”, enquanto o corpo humano não é mais que uma máquina material. E os seres humanos continuaram a ser pensados pela sua racionalidade.

Já no séc. XX, Binet e Simon conseguiram criar, em 1905, os famosos testes de inteligência que conseguiam medir o QI (quociente de inteligência) e escalonar os seres humanos desde os débeis profundos (QI <20) até aos sobredotados (QI >130), passando pelos dotados de uma inteligência média (QI 90-109). Passámos, então a dispor de uma arma poderosa. Quando os EUA entraram na Grande Guerra, em 1917, os testes de QI foram um instrumento precioso para selecionar quantos eram mobilizados de urgência, colocando-os nos seus devidos lugares. O mesmo foi acontecendo depois no campo do recrutamento para o mundo empresarial e na gestão de recursos humanos. E foi também com esse fundamento que, na escola, a “fila dos burros” ficava lá atrás e não merecia grande investimento didático: eram “burros” e nada havia a fazer, pois o QI não pode ser melhorado, é um destino.

Muito do racismo terá aqui algumas das suas raízes.

Só que desde cedo começou a haver suspeitas de que algo não batia certo. Muitos dos que não eram capazes de obter resultados na escola conseguiam ter sucesso na vida. Mas como?!

Já sabemos que António Damásio mostrou, com “O Erro de Descartes” (1994) que a emoção e o sentimento são fundamentais, até para a inteligência racional.

Em 1995, Daniel Goleman publica um livro decisivo: “Inteligência Emocional”. Goleman diz algumas coisas muito simples: apenas 20% do sucesso profissional está dependente da inteligência clássica (verbal e lógico-matemática), a que é medida pelo QI, e qualquer coisa como 80% depende da Inteligência Emocional (ou QE); e ainda (boa notícia!) o QE pode ser educado.

E o que é a inteligência Emocional? A consciência das próprias emoções e, daí, a capacidade de gerir as suas emoções (inteligência intrapessoal) e ainda a consciência das emoções dos outros e, por isso, a capacidade de geri-las (inteligência interpessoal). Em 2006, Goleman viria a publicar “Inteligência Social: A nova ciência das relações humanas”. Além de emocional, o ser humano é naturalmente social, aliás, como os restantes mamíferos superiores.

Vemos assim desabar a velha noção de que o homem é um ser racional. Ele é, sim, um ser emocional, embora capaz de chegar a ser racional… se as emoções não forem demasiado fortes. Porque, se o forem, o cérebro emocional (ou límbico) toma o comando das operações e desliga o cérebro racional (neocórtex).

Mas, se assim é, então temos de repensar tudo o que temos vindo a dar por assente desde há 2.500 anos. E assim tem estado a acontecer. Fenómenos humanos como gestão de si, relações interpessoais, a educação, a liderança, a comunicação, a política, etc., tudo tem vindo a ser repensado a partir do conceito de inteligência emocional. Incluindo a noção de que há relações que curam e outras que matam. No fundo, foi aberto um vasto continente de novas investigações.

Temos mesmo de repensar a questão: o que é ser homem ou mulher? E o mais provável é que do velho edifício não fique pedra sobre pedra. Ou estaremos já a exagerar?