Robert Sapolsky (1957 - …) também não é um filósofo. É um cientista da área da neurologia, mas a sua escrita transborda, de modo claro, para a área da filosofia e não só. Tem dois grossos volumes publicados em Portugal: Comportamento: A biologia humana no nosso melhor e pior (2018) e Determinado: Uma ciência da vida sem livre-arbítrio (2024).
As quase 1.400 páginas dos dois volumes podem resumir-se (talvez com algum atrevimento) numa curta frase: não há liberdade. Isto é: tudo está determinado.
Sapolsky é, lembremos, um neurologista, estuda o sistema nervoso dos animais e daí conclui que nunca encontrou o livre-arbítrio, outro nome para a liberdade. Agora em mais palavras: o nosso, dito humano, comportamento não resulta de decisões da mente que sejam enviadas ao cérebro, antes resultam do próprio funcionamento automático do cérebro do qual somos simples executores, ou seja, escravos, logo, não somos livres. Somos animais, temos um cérebro e o cérebro dita-nos o que fazemos. A liberdade não é mais que uma ilusão. Ponto final. Os dois grossos volumes servem para sustentar esta conclusão.
Este não é o único cientista a defender esta tese, mas é em Portugal um dos mais notáveis.
Quem sou eu para colocar em questão as conclusões de um cientista formado nas melhores escolas das ciências neurológicas? Ninguém, é claro. Mesmo assim, resta-me concluir com ele que, se é verdade, não é possível responsabilizar alguém por um determinado comportamento. Nem é possível elogiar ou premiar alguém por ter um desempenho de elevada qualidade. Nem há essa coisa de vontade a dirigir o comportamento de uma pessoa. Logo, não faz sentido dizer que uma pessoa tem falta de vontade para ser o que devia ser. Na verdade, não faz qualquer sentido que haja tribunais a julgar e condenar réus como responsáveis pelas suas ações. E assim por diante.
E o leitor (como eu), pergunta: se retirarmos tudo isto e certamente muito mais, o que resta da vida em sociedade? o que resta de humano na vida de um ser dito humano e de uma comunidade dita humana?
Um outro cientista aparentado nas teses diz que devemos agir “como se” houvesse liberdade. O que me parece ser uma conclusão pouco científica.
Mas Sapolsky, não esqueçamos que é neurologista, olha os neurónios a funcionar e o sistema nervoso no seu conjunto e não vê lá a liberdade (ou livre-arbítrio). Seria estranho se a visse, não? E conclui que o nosso comportamento decorre do funcionamento do cérebro. Não é para isso que o cérebro serve? não é isso que ele faz? Quando o cérebro “entra de férias”, o comportamento logo destrambelha. Nada de novo. Então, onde está o problema?
Creio que Sapolsky salta da ciência para fora da ciência e tira conclusões que não são científicas. Resta saber onde está esse salto. Por outro lado, Sapolsky vem responder àqueles que (inspirados em Platão e outros) defendem que o comportamento humano não está dependente da biologia, pois é resultado de operações da alma que, essa sim, é livre. Não há como sustentar, hoje, essa tese mais que milenar. António Damásio e Sapolsky e muitos outros mostram que não há comportamento humano que não decorra do funcionamento do cérebro. Nem parece haver qualquer outra entidade fora do sistema nervoso a dar origem aos comportamentos humanos.
Mas, se não se vê como possa haver livre-arbítrio ou liberdade, diz o neurologista Sapolsky (e outros) e nós não vemos como possa ser compreendida e funcionar uma sociedade humana sem o suposto da liberdade, da responsabilidade pessoal, sem o mérito e demérito, sem educação e sem julgamento social (qualquer que seja a forma do tribunal)… como podemos nós entender tudo isto? É caso para dizer: se isto se sabe, não fica nada como dantes, muito menos o quartel-general em Abrantes.
Admira-me, de facto, que estas questões não causem estrondo à medida que vão caindo os pilares do pensamento ocidental.
Então, como é? Somos ou não somos livres? Para começar, importa ler as obras de Robert Sapolsky e entender as teses que ele defende e as razões que apresenta para isso.