Home Cardus Edição 161, setembro 2026

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




40. A razão


ID 349410125 @ Marynakushnarova87 | Dreamstime.com

Precisamos de recolocar como pergunta aquilo que durante séculos foi dado como a pedra segura sobre a qual estava construído todo o edifício social. Que é isso de razão?

Comecemos por ser sinceros: não sabemos. E não sabemos porque não temos refletido sobre esta questão. Mas temos de começar por algum lado, não?

Lembremos que nós, os seres humanos, somos animais que resultam do processo evolutivo e, como todos os seres vivos, temos dois grandes problemas a resolver: sobreviver, isto é, evitar as ameaças de morte, e reproduzir-nos. E temos uma tarefa estrutural continuada: recuperar o equilíbrio interior – a homeostasia – sempre que ele foi rompido. E nisso está comprometido todo o nosso corpo, incluindo o cérebro, e todo o nosso comportamento, incluindo o pensamento.

E há muitas formas de pensamento. Podemos ver isso numa enorme série de títulos de livros no mercado, sob o mote “pensar como”… um médico, um engenheiro (de foguetões), um monge, um filósofo, um milionário, um político, um imperador…

O cérebro pensa naturalmente. Mas, ao longo dos tempos, foram sendo desenvolvidas formas novas e melhores de pensar. A razão é uma gramática de pensar construída para pensar melhor do que o pensamento comum. Por exemplo, todos sabemos, quase por natureza, a matemática básica, mas muito poucos somos capazes de avançar pela matemática fora e dominar alguma das suas múltiplas áreas. As pessoas comuns não são capazes de pensar de modo probabilístico, ou estatístico ou capazes de aplicar o método bayesiano de pensar.

Pensamos naturalmente (?) segundo o processo natural do cérebro funcionar. E, para o melhor e o pior, o nosso cérebro pensa de modo biológico, isto é, fragmentário, narrativo, animista, emocional e antropomórfico, sempre ao serviço da resolução dos dois grandes problemas básicos acima referidos.

O homo sapiens surgiu, por evolução, há 300.000 anos. O homem moderno, o que tem um cérebro como o nosso, surgiu, pela conjugação de vários módulos cerebrais que se desenvolveram de modo mais ou menos autónomo, há 50.000 anos (outros dizem que há 70.000, mas para aqui não interessa). Há 5.000 anos surgiu a escrita, que possibilitou novos modos de pensar, pois o resultado ficava patente fora do cérebro. Há 2.500 anos Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros, formularam as regras da gramática ocidental do exercício da razão. Pouco a pouco, fomos adquirindo competências e, assim, melhorando os processos de pensamento. Assim como os nossos cérebros construíram múltiplas gramáticas linguísticas, também construíram várias gramáticas de pensar. O nosso cérebro é emocional, mas pode chagar a ser racional (se o emocional permitir, diga-se).

Queremos continuar a dizer, com Platão, que o homem é uma alma imaterial, espiritual, imortal e racional que foi aprisionada a um corpo material e por isso degradável e mortal?

Até ao século XIX, (simplificando) havia apenas uma geometria, uma matemática, uma lógica, uma ciência, um Deus e uma Razão – eternas e imutáveis. E acreditámos, como matéria de fé (racional) que a natureza era em si mesma racional e até Deus tinha de ser racional (razão pela qual alguns passaram a acreditar que não podiam acreditar n’Ele).

No século XIX, surgiram várias lógicas, rompendo a unanimidade universal. E quando olhámos com atenção à volta, descobrimos que os orientais tinham uma razão diferente da nossa e os povos ditos como “primitivos” tinham outras ainda mais estranhas. E todos somos humanos. E se nem o edifício das matemáticas conseguia ser um todo racional coerente e Gödel demonstrava que não era possível construir um sistema elaborado de raiz com racionalidade demonstrada, se a incompatibilidade mútua entre a teoria da relatividade e a física quântica não as impediam de descrever de modo eficaz o que se conhecia e sobretudo o que se ia descobrindo com cada uma delas… então, precisamos de repensar os mitos que a razão trazia agarrados a si. E há muito que se conheciam limites à razão, que entrava em contradição consigo própria.

Uma parte complicada deste problema é que pensamos sempre dentro de uma qualquer gramática de pensar. E temos, no Ocidente, uma história de 2.500 anos construída por dentro do nosso modo de pensar. E o nosso mundo é atravessado por inúmeros conflitos de todo o género que se infiltram no processo de pensar seja o que for, quanto mais de pensar a gramática de pensar que uns e outros usamos – ou que podemos investigar e reconstruir. Lembremos, por exemplo, que uma das grandes revoluções ocidentais (?) foi reconverter a lógica tradicional numa lógica binária com base em 0 e 1 – com os resultados digitais que temos visto.

Que podemos concluir? Nada, ainda. Apenas assumir que temos de repensar o que tínhamos como evidente e, nesse repensar radical, rever tudo o que tínhamos por certo e seguro. E, ainda, deixar de lado a arrogância de determos a Verdade absoluta e aprendermos a viver, humanamente, na incerteza como sendo o nosso estado natural. Mas uma incerteza produtiva, pois nos mantém nos caminhos da procura.