Platão ensinou-nos que o Homem (é claro, com maiúscula) é uma alma racional, imaterial, eterna porque incorruptível. Mas nós, hoje, sabemos que os seres humanos, homens e mulheres, são animais que resultam de um processo evolutivo que, há 300.000 anos, deu origem ao Homo Sapiens e deste resultou, há 50.000 anos, o homem atual – nós.
Nós temos um cérebro que é naturalmente narrativo, animista, antropomórfico e emocional, mas capaz de chegar a ser racional se, e apenas se, tiver boas condições para isso.
Como seres biológicos, nascemos com um património genético que modula o nosso comportamento tanto individual como coletivo. Mas os genes tornam-nos capazes de um comportamento que responde aos problemas de há 50.000 anos, quando o cérebro ganhou a forma atual e deixou de evoluir. Entre outras coisas, faz-nos capazes de viver em pequenas comunidades de até mais ou menos 150 membros (número de Dunbar), não mais que isso. Daí para cima, a natureza já não nos é suficiente.
Contudo, se os seres humanos não evoluíram, as comunidades humanas evoluíram muitíssimo até serem hoje, por vezes, metrópoles de milhões de pessoas.
Sabemos isto, não podemos ignorar aquilo que sabemos e pensar como se o não soubéssemos.
Tudo tem sido pensado sobretudo segundo a matriz criada por Platão; temos de repensar tudo de raiz.
Aquilo que os seres humanos são não está neles (nos genes), está nas comunidades que os formam, isto é, lhes dão forma e conteúdo. O que é ser homem ou mulher? Não é um dado, mas uma construção em estado permanente de reconstrução.
Tal como ao nível físico, também ao nível social estamos sujeitos a um processo de entropia, de degradação progressiva. (A nossa casa tem tendência para se desarrumar sozinha e nós temos de nos esforçar para a manter em ordem.) Por isso é necessário garantir o adquirido e dar um passo em frente e para cima em direção a uma vida melhor e a um mundo melhor. Que não está pré-definido, muito menos garantido. Nós sabemos: existiram civilizações que desapareceram.
Como qualquer ser vivo, cada homem ou mulher e cada comunidade humana (e uma comunidade humana é um ser vivo coletivo) tem de recolher energia fora de si e alimentar-se dela. Ou seja, vive de incorporar energia em si e de deitar fora os resíduos que desse processo resultam. É inevitável. Mas esse processo (de neguentropia) acontece segundo modalidades culturais, logo não naturais, que podem ser modeladas, indo de um consumo e desperdício mínimos e reparáveis até um consumo e desperdício máximos e exponenciais.
Somos resultado de um processo de evolução natural e de um processo de evolução cultural que nos modelaram a vida e o mundo que dela resulta. E nunca nos damos por satisfeitos. Por isso, pelo modo como as coisas vão, muitos consomem grandes porções dos bens disponíveis e outros ficam reduzidos a pouco ou mesmo menos do mínimo indispensável para viver.
Sabemos isso, não podemos (ou não devemos?) pensar como se não soubéssemos. Mas o nosso cérebro está desenhado para nos manter satisfeitos, não inquietos, para querer sempre mais, não menos. Basta ler qualquer manual de História para constatar duas evidências: sempre foi assim e sempre este processo deu origem a múltiplos conflitos, por vezes a grandes tragédias. Não devemos pensar como se não soubéssemos, embora sejamos muito bons a esquecer o que não nos agrada.
Platão dizia-nos seres racionais, mas nós somos sobretudo capazes de construir razões e argumentos bons para nos deixarem tranquilos connosco próprios. O nosso cérebro está programado para nos garantir a homeostasia, isto é, o melhor estado, o estado de melhor satisfação.
Racionais? Basta ouvir – com atenção – as conversas do dia a dia para nos darmos conta de que não é bem assim. Se fôssemos racionais, a nossa vida, tanto individual como coletiva, seria bem diferente.
Temos de ser ousados a pensar as coisas como elas são e não como nos agrada que sejam. O segredo está na gramática do nosso pensamento. Temos de mudar o paradigma do nosso pensar, se não quisermos enganar-nos a nós próprios. Mas não é seguro que não queiramos. E alguns, muitos!, querem.
Porquê? Porque não somos seres racionais, mas seres emocionais e interessados e tendemos a pensar sobretudo a partir das nossas emoções e em função dos nossos interesses. Apesar de a nossa razão nos dizer que essa é uma forma alegre de nos enganarmos. Mas não queremos saber e cá “vamos cantando e rindo, levados, levados, sim”.
Pensar acima disso exige energia e método capazes de nos elevarem a um patamar acima das exigências elementares. Todos sabemos naturalmente contar até três, ou mesmo cinco, mas saber a tabuada já exige trabalho e resolver equações do segundo grau, já para não falar da matemática necessária para entender a mecânica quântica… isso é outra coisa.