Home Cardus Edição 157, maio 2026

HISTÓRIA (Guerra Colonial)


Carapito

Sinopse

Cinco anos depois do início da guerra em Angola e com as frentes da Guiné e Moçambique activas, faz todo o sentido fazer uma breve súmula da situação em cada um desses teatros, nos aspectos político e militar.

Desde logo dois acontecimentos sobressaem neste ano de 1966 de que vamos tratar: A abertura da Frente Leste pelo MPLA, a formação e o início da luta armada pela Unita, com o ataque a Vila Teixeira de Sousa na noite de 25 de Dezembro.

Merecem também destaque a Cimeira Franco-Portuguesa em Lisboa, ocorrida em Setembro, com a presença do MNE Maurice Couve de Murville e Franco Nogueira como anfitrião, na qual a França de De Gaulle manifestou o seu apoio tácito à política ultramarina portuguesa. Igualmente importante pelo seu significado político, o planeamento do reforço no orçamento de 1967 das verbas para a Defesa, reflectindo o crescente impacto da guerra nas contas públicas.

António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia




Ano de 1966

Balanço político-militar no início de 1966

Cinco anos depois do violento início da guerra colonial em Angola, três anos depois do da Guiné e quinze meses depois do de Moçambique, os conflitos nessas três colónias estão em pleno desenvolvimento e crescente dificuldade para o EP (especialmente na Guiné e depois em Moçambique) que não pára de ver crescer os seus efectivos presentes no terreno. De 1965 para 1966 o crescimento foi de 10,3%, passando de 97180 para 107250 homens. Percentualmente, o crescimento mais acentuado aconteceu em Moçambique, onde também foi maior o índice de mortalidade.

Um crescimento tão vincado dos efectivos começou a evidenciar o problema do enquadramento ao nível de oficiais subalternos e sargentos. Foi em 1966 que os tenentes milicianos na disponibilidade começaram a ser chamados para frequência do Curso de Capitães, para suprir a falta de comandantes de Companhia. É simplificada a promoção ao posto imediato dos oficiais do Exército, por simples despacho do respectivo ministro, com dispensa de frequência do curso de promoção, obrigatória até então.

A nível dos sargentos do Quadro Permanente o problema assume igual premência. Em Angola o alargamento da guerra para Leste, num terreno mais favorável, mas muito mais extenso que até então, agrava estas dificuldades.

Do ponto de vista operacional, a guerra em Angola está no início deste ano estabilizada, com a FNLA e o MPLA confinados em bolsas no Norte. Na sequência da deserção de Alexandre Taty, vice-presidente da FNLA e Ministro da Defesa do GRAE, este movimento entra numa grave crise, aproveitada a nível diplomático e político pelo MPLA. Este por sua vez, enfrentava divisões e dissensões internas, nomeadamente a de Viriato da Cruz e Pinto de Andrade, que duma forma ou doutra tiveram repercussões na actividade militar do movimento.

Na Guiné, o PAIGC, reconhecido pela OUA como único e legítimo representante do povo guinéu em luta pela sua independência, expande a sua acção, melhora a qualidade do seu armamento e da sua estratégia operacional, tomando muitas vezes a iniciativa militar. É nesta fase a frente mais problemática.

Em Moçambique a FRELIMO está em expansão para Sul. Nas três frentes, foi em Moçambique que se deu a maior percentagem na subida dos efectivos, durante o ano de 1966, quase 34%.

A recente utilização de minas anti-carro e anti-pessoal, dificulta cada vez mais a progressão das colunas militares, causando um número elevado de baixas. Foi por isso que em Moçambique se deu a maior subida percentual do número de baixas totais (combate, doenças e acidentes)

Acontecimentos relevantes no primeiro semestre de 1966:

Conferência de Solidariedade Tricontinental

Com o objectivo de “criar uma frente unida dos movimentos revolucionários da Ásia, África e América Latina, para combater o imperialismo, colonialismo e neocolonialismo” reuniu-se em Havana em 3 de Janeiro, a 1ª Conferência de Solidariedade Tricontinental, com a presença de 500 delegados, entre os quais Amílcar Cabral. Das decisões tomadas salientam-se o apoio à luta armada dos movimentos independentistas, a promoção de mecanismos de ajuda mútua, treino e financiamento desses movimentos, a intenção de consolidar a soberania do Sul Global, face à hegemonia dos EUA e a criação da Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL), com sede em Havana, para coordenar o apoio às insurgências. A ajuda cubana ao PAIGC iniciou-se a partir dessa data e em consequência, chegam a Conacri em 1 de Maio os primeiros assessores cubanos, três médicos e três artilheiros.

Sanções e embargo à Rodésia.

Na sequência da Declaração Unilateral de Independência (UDI) proclamada por Ian Smith em 11 de Novembro de 1965 e por pressão de vários países africanos, reuniu-se em Lagos na Nigéria a “Commonwealth Prime Minister´s Conference” para discutir a aplicação de sanções e o embargo comercial e petrolífero à Rodésia. Entre os dias 10 e 12 de janeiro, discutiu-se a aplicação de sanções ou o emprego da força militar para derrubar o regime minoritário branco. Harold Wilson, PM britânico, tentou convencer os seus pares que as sanções resolveriam rapidamente a questão. Decidiu-se o reforço do embargo ao petróleo e o isolamento financeiro da Rodésia, na altura já expulsa da área da libra esterlina. Os países africanos adeptos da intervenção militar ficaram em minoria, prevalecendo a linha britânica. Ficou decidida a constituição de um Comité de Sanções para monitorizar a aplicação das mesmas, mais tarde tornadas obrigatórias pela Resolução 232 da ONU em Dezembro deste ano. Portugal e a África do Sul haveriam de ter um papel decisivo no contorno destas sanções, especialmente o embargo petrolífero, permitindo a sobrevivência do regime branco até 1979.

Recorde-se que em Dezembro do ano anterior, como forma de pressão, haviam cortado relações diplomáticas com o Reino Unido, a Tanzânia (o primeiro a fazê-lo), o Gana, a Guiné, Mali, Mauritânia, Congo-Brazzaville, Argélia, Sudão, e a então República Árabe Unida (RAU).

Ataque do PAIGC a Fulacunda

No ano de 1966 regista-se um incremento muito expressivo da actividade militar do PAIGC, demonstrando um crescente poder de fogo, de reação às nossas tropas (NT), organização, estratégia de combate e capacidade ofensiva. No espaço de um mês realizou um ataque a Fulacunda, em 22 de Janeiro, com utilização de armamento pesado, morteiros de 82 mm e foguetes de 122 mm, em 13 de Fevereiro durante a Operação Falcão, causou 5 mortos (dois corpos nunca recuperados) e 3 feridos e durante a Operação Teste, em 24 de Fevereiro, emboscou as NT na região de Cabolol, provocando 3 mortos (um corpo nunca recuperado) e 17 feridos.

Assinatura de dois protocolos entre Portugal, Malawi e Zâmbia

No sentido de facilitar o fluxo de bens de e para o Malawi e Zâmbia, através dos portos da Beira e Lourenço Marques, Portugal firmou em 17 de Fevereiro com aqueles países, dois protocolos de livre trânsito de mercadorias e utilização de infraestruturas, nomeadamente caminhos de ferro e instalações portuárias. Surgidos num ambiente de grande tensão geopolítica, poucos meses depois da UDI da Rodésia, estes protocolos foram uma grande vitória diplomática do regime, que com eles pretendeu demonstrar pragmatismo e relações cordiais e de boa vizinhança com os Estados africanos independentes.

Remodelação do Comité Director do MPLA

Desde a sua ascensão à Presidência do MPLA e até à sua morte em 1979, Agostinho Neto nunca foi um líder consensual e unificador. Os seus métodos autoritários e centralizadores haveriam de provocar graves e cíclicas crises no seio do movimento, que quase o destruíram em 1972, com o seu fracionamento em três tendências. Em 23 de Fevereiro remodela o Comité Director e afasta Mário Pinto de Andrade (ex-Presidente e então chefe dos Assuntos Externos) e Manuel Lima, responsável pelos Assuntos Militares, que divergia de Neto quanto à condução da guerrilha, especialmente após o fracasso das frentes Norte e Cabinda. Neto reforça assim a sua autoridade, paradoxalmente cada vez mais vazia. 

Bloqueio ao porto da Beira

Em Fevereiro a tensão em torno das sanções ao regime de Ian Smith, atingiram um ponto crítico, com os serviços de Inteligência britânicos a reportar que “petroleiros pirata” poderiam atracar no porto da Beira para fornecer petróleo através do oleoduto Beira/Umtali. Em 24 de Fevereiro o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas inglesas emite um comunicado alertando para essa possibilidade. Daqui resultou a decisão do governo inglês de bloquear esse porto, que se tornou efectivo em 4 de Março, com o porta-aviões HMS Ark Royal e as fragatas HMS Rhyl e HMS Plymouth, a monitorizar o Canal de Moçambique. Enquanto o Reino Unido procurava bases legais para a utilização da força, dois petroleiros, o Joanna V e o Manuela furaram o bloqueio e descarregaram. Em consequência, o Conselho de Segurança da ONU a pedido do Reino Unido, emitiu a Resolução 221, autorizando explicitamente o uso da força. Este bloqueio, um dos maiores da História, durou até 1975, envolveu um total de 76 navios e custou mais de 100 milhões de libras

Encerramento da Sociedade Cultural de Angola

A Sociedade Cultural de Angola (SCA), foi fundada em 1942, pela Portaria de 6 de Novembro do Governo Geral de Angola, por iniciativa de intelectuais angolanos e portugueses, com o objectivo de criar um espaço de reflexão cultural. Tornou-se o berço de ideais democráticos e nacionalistas e da identidade cultural angolanos, onde a consciencialização sobre a realidade social da época, esteve sempre muito presente, particularmente no seu Boletim “Cultura”. Paralelamente publicou, no início dos anos 60, obras de Viriato da Cruz, Costa Andrade, Manuel Lima, Agostinho Neto, António Jacinto e Alexandre Dáskalos, entre muitos outros. Em 1965 atribuiu ao romance “Luuanda” de Luandino Vieira, o prémio literário Mota Veiga, também galardoado pela Sociedade Portuguesa de Escritores, como vimos anteriormente. Identicamente, as autoridades coloniais consideraram uma afronta premiar um escritor preso no Tarrafal por “actividades terroristas” e viriam, com este pretexto, a encerrar a SCA em 5 de Março.  

Primeira operação helitransportada na Guiné 

A chegada ao teatro da Guiné dos helicópteros Alouette III trouxe às forças especiais uma mobilidade até então desconhecida. Durante a Operação Hermínia, iniciada em 6 de Março, um grupo de combate de 30 comandos, chefiado pelo alferes Virgílio Briote, realizou a primeira operação helitransportada da Guiné, em Jabadá, na zona de Tite. Extremamente rápida, a acção durou pouco mais de 3 horas. Perdeu a vida um soldado comando, mas o objectivo de destruição de duas aldeias e meios de subsistência do PAIGC foi conseguido. Além disso esta operação abriu a porta a várias operações semelhantes num curto espaço de tempo subsequente, caso das Operações Odete em 10 de Março e Desforço no dia 14, um desembarque de forças comando para cerco de guerrilheiros. Embora em Angola os assaltos verticais já fossem rotina, esta primeira operação na Guiné, abriu um novo capítulo na mobilidade das forças especiais.

Fundação da UNITA

Movido pela ambição pessoal e pela sua superior inteligência, Savimbi há muito tinha decidido romper em definitivo com a FNLA e com o MPLA, disposto a implementar a sua própria visão e estratégia para o desenvolvimento da luta armada: autossuficiência e luta conduzida a partir do interior. Assim funda em 13 de Março, no Muangai, o seu próprio movimento a que chamou União Nacional para a Independência Total de Angola UNITA, com uma bandeira verde e vermelha, com um galo negro simbolizando o despertar da África e um sol nascente simbolizando o nascimento de uma nova era. Goste-se ou não dele, é indubitável que foi o dirigente angolano que mais marcou os 8 anos da História de Angola anteriores ao 25 de Abril e os 27 posteriores, até ao fim da guerra civil em 2002 de que foi um dos principais responsáveis. Orador poderoso, de caracter duvidoso, aliou-se e traiu, uniu e dividiu, num percurso extremamente tortuoso, de que falaremos ao entrarmos na década de 70. Iria iniciar a luta armada na noite de 25 de Dezembro, com o ataque a Vila Luso (ou Vila Teixeira de Teixeira de Sousa), hoje Luau.

MPLA-Abertura da Frente Leste  

Após o fiasco militar que foram as Frente Norte (I Região Militar) e Cabinda (II Região Militar), Neto decidiu e anunciou em 18 de Março a abertura de uma nova frente, onde o apoio da Zâmbia, permitia uma acção que as dificuldades criadas pelo Congo Leopoldville e pela fraca adesão das populações de Cabinda, não permitiam. A vastidão do território obrigando o EP a dispersar-se e a debilitar a sua logística, auguravam melhores tempos para o MPLA. Transferido dessas duas RM, parte dos meios humanos e materiais, a abertura da III RM (abrangia as províncias do Moxico e Cuando-Cubango) deu-se com o ataque em 16 de Maio, ao aquartelamento da Lumbala, situado próximo da fronteira com a Zâmbia, no qual perderam a vida sete militares portugueses. O ataque foi comandado por Daniel Chipenda, antigo jogador da Académica de Coimbra e principal mentor da abertura da Frente Leste.

A passagem dos anos viria a demonstrar que aos fiascos anteriores, Neto viria a somar mais um, talvez o mais grave, (quase levou ao desaparecimento do MPLA), que em 1972 se dividiu em três tendências, (uma das quais chefiada precisamente por Chipenda) irreconciliáveis entre si.

Protocolo PAIGC/Senegal

Destinado a regulamentar a cooperação entre a República do Senegal e o PAIGC, em diversos domínios, foi assinado entre essas duas partes um protocolo, regulando os seguintes aspectos: Trânsito de pessoas, bens e material de guerra, fixação das modalidades de cooperação, definindo a forma como o apoio logístico seria prestado, institucionalização do apoio senegalês, permitindo a utilização do seu território, especialmente a região de Casamansa, como retaguarda logística e santuário, controlo e segurança sobre as actividades dos guerrilheiros de molde a precaver retaliação portuguesa directa. Este protocolo teve uma importância decisiva na eficácia da acção militar do PAIGC na Frente Norte.

Entrevista de Salazar ao NYT

Salazar tinha uma aversão especial pelos EUA, por várias razões, políticas e pessoais. Quando o New York Times, em Março, lhe solicitou uma entrevista, Salazar pensou recusar. No entanto, incentivado pelo MNE Franco Nogueira, concedeu-lhe uma extensa entrevista, dirigida a um público anglo-saxónico, visando quebrar algum isolamento internacional. Abordou vários temas, quase todos directa ou indirectamente relacionados com a política colonial e as guerras travadas em África. Justificou o modelo colonial português como uma “missão civilizadora”, defendeu a permanência de Portugal em África, vincando o controle militar efectivo do EP sobre os movimentos insurgentes nas colónias. Deixou duras críticas à política externa dos EUA e Reino Unido, acusando-as de serem ingénuas face ao perigo da infiltração comunista nesse continente, pregando sermões a Portugal enquanto enfrentavam internamente graves problemas raciais. Rejeitou a ideia de uma coexistência pacífica com a URSS e destacou o progresso económico e social interno do País, desde a sua chegada ao Poder, referindo a estabilidade económica e social e robustez da moeda nacional. Terminou reafirmando a importância da cooperação estratégica com os EUA, através da utilização da base das Lajes pelos americanos. Na sua obra monumental “Salazar”, Franco Nogueira refere essa entrevista como uma demonstração do “génio político e lucidez” do ditador

Chegada dos primeiros Fiat G91 à Guiné

A bordo do Angra do Heroísmo, chegaram em meados de Abril os primeiros 8 aviões Fiat G91 à Base Aérea nº 12 em Bissalanca. Faziam parte de um lote de 40 unidades cedidas pela RFA e marcaram um período de completo domínio do espaço aéreo do teatro operacional na Guiné, que terminaria em 1973, com a introdução dos mísseis portáteis SAM-7 Strela pelo PAIGC. Primeiro caça a jacto da FAP a operar naquela colónia, desenhado para operar em pistas curtas e rudimentares, os caças Fiat substituíram os F-86 Sabre em missões de apoio directo às tropas terrestres.

Dessas 8 unidades, seis seriam abatidas em combate, três por fogo anti-aéreo convencional, três após a introdução dos citados mísseis (o primeiro em 25 de Março de 1973) e uma seria perdida em acidente com a explosão prematura de uma das suas bombas. O único piloto a perder a vida em combate foi o tenente Francisco Manuel Alves dos Santos em 28 de Março de 1973, perto de Guileje.

Encontro entre Ian Smith, Jorge Jardim e embaixador Freitas Cruz, sobre o embargo petrolífero

A UDI de Ian Smith, desencadeou como dito atrás, não uma reação militar por parte do Reino Unido, mas uma série de medidas políticas com o intuito de levar ao colapso do regime branco. Entre elas sobressaía o embargo petrolífero que Portugal e a África do Sul se apressaram a contrariar. O porto da Beira era o principal ponto de entrada do petróleo que chegava à Rodésia através do oleoduto Beira/Umtali. Por essa razão, o Governo britânico decidiu impor um embargo a esse porto, utilizando a Royal Navy e a Royal Air Force (RAF). O embargo começou em 4 de Março e terminou com a independência de Moçambique. Salazar naturalmente opôs-se, mesmo afrontando o “velho aliado”. Para discutir estratégias de contorno das sanções, reuniram-se em Abril na capital rodesiana Salisbury, Ian Smith, Jorge Jardim e o embaixador Freitas Cruz, representante oficioso de Portugal. Como o embargo estranhamente não abrangia o porto de Lourenço Marques, (a Inglaterra não queria entrar em conflito armado com Portugal), o petróleo passou a ser aí descarregado e transportado por rodovia e ferrovia para a Rodésia. A África do Sul participou activamente neste esforço, assegurando a sobrevivência do regime, que haveria de ter também a sua quota parte de solidariedade em relação aos outros dois parceiros.  

(Continua)