Era quarta-feira de manhã cedo e Miguel foi buscar a sua amiga Violeta a casa para irem visitar o Museu Geológico. O tempo começava a dar os primeiros sinais de calor e mostrava-se propício a um passeio.
— Está um belo dia para visitarmos um museu. E este espaço museológico tem grandes salas que refletem um modelo expositivo típico do século XIX, o que lhe confere um carácter único e raro na Europa.
Violeta, que estava muito curiosa, perguntou:
— Como descobriste este museu?
— Sinceramente, descobri-o ao acaso. Esta minha paixão por museus levou-me a ele e acabei por me interessar particularmente por se tratar de uma verdadeira pérola museológica. Além disso, durante muitos anos esta instituição foi dirigida por um conceituado geólogo e investigador chamado Miguel Ramalho, que conheci e que era muito próximo de duas amigas minhas de quem gosto muito.
— Era? Quer dizer que já morreu?
— Infelizmente, sim. Era um homem maravilhoso e muito interessante, além de ser um técnico altamente competente. Tratava este museu como se fosse um filho seu. Dizia que era um museu que ensinava. E é verdade, porque nele encontramos coleções únicas no país e, curiosamente, é o terceiro museu mais antigo da Europa, fundado em 1870.
— Estou mesmo muito curiosa. Onde fica?
— Está instalado no mesmo edifício da Academia de Ciências, na Rua da Academia de Ciências, perto do Príncipe Real.
— Que género de peças vamos encontrar ali?
— Tem várias coleções, mas refiro apenas algumas: a Coleção de Arqueologia Pré-Histórica, a Coleção de Instrumentos Científicos, a Coleção Mineralógica e a Coleção Paleontológica.
— De facto, é uma grande variedade. Mas, concretamente, que peças é que estão expostas?
— Olha, vamos ver muitas coisas, como o crânio fossilizado de um antigo crocodilo gigante que viveu há 12 milhões de anos em Chelas, assim como pegadas, ossos e dentes fossilizados de um dinossauro carnívoro, e muitos mais. Mas estamos quase a chegar e logo verás.
— Um crocodilo em Chelas? — perguntou Violeta, surpreendida.
— É verdade. De há muitos e muitos anos atrás.
A visita superou todas as expectativas e despertou ainda mais a curiosidade de Violeta. No final, Miguel quis saber o que a amiga sentira e o que mais a impressionara.
— Gostei muito do museu, até dele próprio enquanto peça museológica, onde tudo é interessante, desde o enorme acervo exposto nas longas vitrines, que são, na verdade, uma viagem através de milhões de anos da vida neste planeta.
— Então reparaste no mobiliário e nos expositores antigos, feitos para a inauguração deste museu há cerca de 170 anos.
— Sim. Mas nota-se que os dirigentes devem ser técnicos especializados… embora talvez não tenham uma verdadeira sensibilidade museológica. Falta aqui mais vida e mais visitantes. E, com uma escola mesmo aqui ao lado, custa perceber este vazio. Ainda assim, vou voltar.
Ao saírem para a luz quente daquela manhã, Miguel ficou satisfeito por ter partilhado com Violeta um lugar que, apesar do silêncio e da ausência de público, continuava a guardar um encanto raro.
— Agora vamos almoçar a um restaurante libanês que fica aqui perto. Mas, como estamos próximos da Galeria «Ratton», iremos apreciar outro tipo de arte: azulejos de diferentes artistas, como Paula Rego, René Bertholo, Costa Pinheiro, João Vieira, a minha querida e conterrânea Lourdes Castro, os artistas do movimento KWY e muitos outros. Se gostar de algum, comprarei um azulejo da Lourdes Castro.
Após esta inesperada visita e o almoço libanês, foram tomar café e comer um gelado à loja de chocolates de São Tomé e Príncipe, de Bettina Corallo, uma mulher muito interessante, onde Violeta recordou memórias vividas.
— Sabias que estive dois meses na ilha do Príncipe, numa ação de voluntariado onde dinamizei duas bibliotecas e trabalhei com professores e um grupo de alunos maravilhosos, quem sabe futuros poetas ou escritores? E visitei também a roça de onde vem este chocolate. São boas e doces memórias.
Enquanto provavam o belíssimo gelado, apareceu a própria Bettina Corallo, que esteve vários minutos a conversar com Violeta sobre a vida em São Tomé e Príncipe e sobre as roças de onde vem o cacau que chega a Portugal.
— Foi um programa completo, subindo e descendo pelas ruas íngremes desta zona da cidade numa manhã de calor tropical. Muito obrigada por me mostrares estes tesouros escondidos, onde vale a pena demorarmo-nos a olhar. E volto a dizer que regressarei a este museu com todo o prazer, mas agora para servir de cicerone a pessoas da minha família que, de certeza, o apreciarão tanto como eu.
— Fico contente! Visitar museus contigo é um prazer que repetiremos brevemente.
Continua
Texto escrito a quatro mãos