Home Cardus Edição 151, novembro 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Direitos e deveres sociais

Artigo 72º

(Terceira idade)

  1. […]
  2. A política de terceira idade engloba medidas de caráter económico, social e cultural tendentes a proporcionar às pessoas idosas oportunidades de realização pessoal, através de uma participação ativa na vida da comunidade.

Património de competências e afetos ao serviço da comunidade

Na edição de fevereiro do CARDUS, a Inês Aguiar, uma jovem estudante com o futuro pela frente, partilhou connosco a sua experiência de voluntariado em Cabo Verde. Na mesma altura procurava também uma história inspiradora de um voluntário numa outra fase da vida.

Quando menos esperamos são as histórias que vêm ter connosco. Foi o que aconteceu nas minhas férias de verão, em Colmar, na Alsácia francesa. Cruzei-me no caminho de Lucien Fohrer, uma figura emblemática, aliás, membro honorário da cidade. 

Encontrámos o Lucien à janela do seu atelier, logo na primeira bifurcação da rua principal, e fomos atraídos por aquelas casinhas coloridas que, além de um objeto decorativo sustentável nos transportou para a nossa infância, em que guardávamos as moedinhas no mealheiro.

Chamam-lhe “Construtor de Solidariedade”. Trabalha o ano inteiro a construir estas típicas casinhas-mealheiro alsacianas em papelão, que ele recolhe ou que os seus muitos admiradores vêm trazer. Essas casas de papel já se tornaram um ex-libris da cidade e fazem as delícias dos turistas e dos próprios colmarianos. Sobretudo nas épocas altas da Páscoa e no famoso Mercado de Natal.

A sua simpatia contagiante logo nos fez querer saber mais sobre o projeto, no qual envolveu a mulher, que constrói e coloca as telhas no telhado, o filho “perito” em chaminés e cegonhas alsacianas, e ainda uma amiga que trata da decoração. “Só no ano passado em vendas das nossas casinhas alsacianas entregámos 13.500 € à associação La Manne”, testemunha orgulhoso, com aquele brilhozinho nos olhos de quem se entrega com paixão aos seus propósitos. 

Lucien Fohrer é membro fundador da Associação La Manne Alimentaire, um centro de apoio alimentar e ao trabalho, com várias formas de intervenção: desde 1986, La Manne tem se dedicado a responder a necessidades de pessoas mais desfavorecidas, através de ajuda alimentar, uma mercearia e um restaurante social, além de dar apoio à integração no mercado de trabalho e conceder empréstimos a 0%.

À semelhança de Portugal, apesar dos números serem proporcionalmente inferiores em França, também as situações de pobreza são preocupantes. Aqui, atinge sobretudo jovens com menos de 30 anos, particularmente famílias monoparentais, sendo o desemprego um dos fatores determinantes, ainda que exista uma percentagem de 20% de trabalhadores pobres.

Evidentemente que o dom da dádiva, como o do Lucien e da sua família, só podem amenizar a situação e complementar políticas fortes de combate a esta tragédia que afeta os nossos Países. Mas esta história também vem demonstrar como pessoas depois de deixarem a “vida ativa” têm ainda tanto para contribuir na comunidade a que pertencem com as suas competências, experiência de vida e afetos. E tão vasto património deve ser valorizado e reconhecido pela comunidade. Assim acontece aqui em Colmar, com as casinhas-mealheiro alsacianas do Lucien.

Em Portugal, ainda aguardamos pela nova Lei do Voluntariado, sendo que a atual Lei n.º 71/98, de 3 de novembro, se encaminha daqui a uns dias para os 27 anos de existência! A mesma carece de uma adaptação urgente aos novos desafios de uma era de transições digital, ecológica e societal. É necessário tornar o voluntariado uma força transformadora com  valor acrescentado, não só para as pessoas mas também para a economia.

Na minha formação como voluntária registei esta frase proferida pelo presidente da Confederação Portuguesa de Voluntariado, Alfredo Abreu: “Numa sociedade em que tanto se fala em Desperdício Zero, seja ele de água, energia ou alimentar, nunca se ouve falar em desperdício humano. E o voluntariado é uma forma de evitar esse desperdício, colocando esse enorme património ao serviço da sociedade”.

Colmar é banhada pelo rio Lauch, a aproximadamente 20 km a oeste do rio Reno, entre Basileia (60 km) ao sul e Estrasburgo (65 km) a norte, próximo da fronteira Alemanha-França. É a terceira maior cidade da Alsácia, após Estrasburgo e Mulhouse.

Se no mês de novembro tiverem a sorte de visitar o Mercado de Natal, não deixem de visitar o atelier do Lucien. As casinhas-mealheiro só custam 15 €. Além disso, o Lucien vai dar-vos as dicas para tudo o que não podem perder na cidade e as moradas dos melhores restaurantes.