Cardus Edição 142, fevereiro 2025
Culturgest
Galeria 1
12/10/2024 a 02/02/2025
Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
Alexandre Estrela (1971) expõe na Galeria 1 da Culturgest até 2 de Fevereiro de 2025. O título da mostra antológica é assumidamente tomado de Luiz Pacheco: A Natureza Aborrece o Monstro.
As obras da mostra estão distribuídas por duas alas da Galeria 1. Desta vez, o acesso a cada uma das alas faz-se unicamente por uma entrada autónoma, simetricamente. O corredor que liga as duas alas foi convertido em espaço expositivo vedado – embora visualmente acessível a partir de cada ala – à circulação dos visitantes. A disposição das peças realça o princípio da simetria que dirige o desenho expositivo desta mostra. A nossa atenção incide sobre uma das peças (videográficas), Pockets of Silence (2015), que ocupa duas (escurecidas) salas adjacentes de uma das alas. A inexistência de duas salas análogas na outra ala é a excepção à simetria dominante.
Sincronizada e controlada por computador, a impressionante instalação vídeo de dois canais inclui, ainda, textos afixados numas das paredes: um poster científico (“Silent Transmission of Fear”) e uma brochura na qual é contada a história e as múltiplas referências (científicas, cinematográficas e histórico-militares) que deram origem à peça. O título Pockets of Silence remete para o filme Africa Addio (1966) de Gualtiero Jacoppeti; mais precisamente, para uma técnica de camuflagem sonora aplicada numa operação de contra-guerrilha, na Guerra Colonial. Mediante a difusão de pré-gravações de sons e ruídos da selva, os inoportunos efeitos da passagem das patrulhas portuguesas são abolidos: silêncio e dissimulação de criaturas na selva. Para os rebeldes, tais ‘bolsas de silêncio’ indiciam perigo iminente. A génese de Pockets of Silence associa resultados laboratoriais de uma investigação sobre a transmissão social do medo em ratos e a história do insólito (e controverso) fundador dos Comandos, Cesare Dante Vacchi – mercenário foto-jornalista, crucial na preparação do primeiro curso do Corpo Especial (Zemba, norte de Angola) e na acção psicológica.
Ainda antes de entrar na instalação, o visitante depara-se com um insistente e trepidante som de helicóptero e a luz rodopiante pelas paredes, em sincronia com o movimento da hélice. A placa de vidro acrílico – posta em rotação entre o projector e um pequeno ecrã metálico – intersecta o cone de luz da projeccção da imagem parada de uma hélice.
Na sala adjacente, o espectador encontra a pulsante imagem projectada de uma praia de Tutuala (Timor-Leste) aliada ao ensurdecedor som agudo de cigarras. O ecrã (plano levemente inclinado, encostado a uma esfera) tem um orifício circular que (aberto para o interior da esfera oca) gera um ponto negro na imagem projectada. Coincidente com uma boia pendurada numa árvore, o ponto negro lembra a pupila de um olho. Por exceder os limites do ecrã, a imagem da praia fragmenta-se: transportada, também – as suas margens – para as paredes da sala. O movimento frenético do olho acompanha o som das cigarras. Quando o olho pára, a imagem rotativa do helicóptero imobiliza-se.
A peça impregna o espaço expositivo de agitação, ameaça e perigo. O visitante sente-se, no mínimo, incomodado. Eventualmente, ansioso – afectado na forma como pensa, sente e se comporta. O terror pânico (T. Hobbes) ou o pavor diante da ordem (E. Canetti) elucidam sobre a transmissão social do medo. O terror pânico – uma paixão de turba – supõe a ignorância do objecto (que é – crê-se – origem do dano) e da razão. Numa fuga imediata, inconsciente, a massa (soldados e animais) imita o comportamento do companheiro – alegado sabedor da causa de fuga (Hobbes) ou da implícita sentença de morte que (subjacente a toda a ordem) obriga a vítima a fugir (Canetti). A fuga colectiva, sincronizada, evita o pânico. O cerco e a impossibilidade de uma direcção comum de fuga trazem o pânico e a luta interna de todos contra todos.
Sons e ruídos, clarões e obscuridade, gritos de animais e silêncio – súbitos e inesperados – avivam o terror e são causa do sublime (E. Burke). Quando é menos provável e atenuado, o terrível delícia o espectador.