Cardus Edição 143, março 2025

Cardus


Escrevem denodadamente, por portas e paredes, para que quem tem uma dor de barriga saia de lá com uma barrigada de sabedoria. É nas casas-de-banho de liceu que se dão os primeiros contactos com Nietzsche ou Oscar Wilde, citados pelas portas dos cubículos, ou com os slogans rasurados nas paredes que se toma consciência política.

Carlos Maria Bobone, “Na casa de banho pública a literatura é de todos, O Observador, 1 jan 2017”.


RETRETES


Um dia, caminhando para lá e para cá no cais da estação de Abrantes, enquanto esperava pelo comboio, reparei numa tabuleta escarrapachada por cima duma porta dum pequeno edifício isolado: RETRETES. Assim mesmo, um nome do qual já nem me lembrava, tão habituado que estou ao importado WC. E a surpresa por ver ali aquele termo vernáculo foi tão agradável que ainda hoje perdura na minha memória.

Regra geral a retrete não é um lugar cativante, embora as haja de todos os modelos e aspetos, desde o mais ordinário e sujo, ao mais requintado e limpo. Recordo as retretes do Técnico, dos meus tempos de estudante, não da limpeza ou desenho, mas das portas, cheias de poesia rabiscada, aqui também da melhor e da pior, mas quase toda ela em grandes doses de humor, o que tornava a ida à retrete não só um alívio como também um prazer.

A retrete também não é, em princípio, um lugar para estar. É um espaço reservado, onde se entra, se faz o que se tem a fazer, e pronto, sai-se por onde se entrou. Contudo, há quem aproveite a ida à retrete para fazer outras coisas como, por exemplo, pôr a leitura em dia: que tanto pode ser o jornal, como um livro, ou mesmo a publicidade das grandes superfícies que cai nas caixas de correio. Este material de leitura pode estar já ao lado ou pode ser levado no momento. No meu caso, um leitor de retrete habitual, encontra-se em cima do bidé, um sanitário que os regulamentos obrigam a ter, mas que, no meu caso, só serve mesmo para colocar o material de leitura (por cima da tampa, claro). A literatura em cima do bidé não é coisa que choque, as visitas agradecem as leituras de ocasião, não é muito variada, mas, pelo que me dizem, merece sempre uma vista de olhos.

Um dia destes visitei um amigo e claro, a certa altura, lá perguntei onde é que ficava a casa de banho – já ali, em frente à entrada, ao lado daquele marco de correio!

Porta aberta … surpresa total. A minha retrete, com duas ou três revistas e alguns livros em cima do bidé, comparada com o que me surgiu pela frente, é de uma pobreza franciscana, duma pequenez atroz, um vazio tremendo de sanitários e azulejos.

Não há mais espaço disponível, nem mesmo no chão. São quadros e mais quadros, esculturas e mais esculturas, livros e mais livros, armários cheios por dentro e por cima. As paredes totalmente cobertas, o chão com o espaço mínimo para as deslocações. Um autêntico museu privado de arte, com o lavatório e a sanita a deixarem a dúvida, a quem entra, se são para utilizar, ou se fazem parte do acervo.

Sentado ou de pé, é um regalo para os olhos apreciar toda a arte envolvente. E na parte da literatura, também há de tudo, desde a mais ligeira à mais pesada, o museu, quase que diria, é para todos os gostos. Uma pena, não ser público, ter de ser amigo do proprietário para se poder visitar.

Obrigado, António, por me teres deixado entrar (e estar) na tua casa de banho.


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