Cardus Edição 143, março 2025
Sinopse
Praticamente todo tomado pela UPA na sequência do 15 de Março, a reocupação do Norte de Angola foi considerada terminada em Agosto de 1961, embora nos meses seguintes ainda tenha havido algumas operações militares de consolidação no terreno. Iniciada em meados de Maio, altura em que os efectivos militares vindos da Metrópole se tornaram minimamente suficientes para tal, foi realizada a duras penas, por um exército sem qualquer experiência num tipo de guerra traiçoeira e de grande mobilidade do inimigo. No entanto, demonstrando uma extraordinária capacidade de adaptação, o Exército Português rapidamente adaptou o seu dispositivo, treino e armamento à nova situação. Combinando efectivos dos três ramos das Forças Armadas, a reocupação envolveu operações de grande complexidade técnica, logística e operacional.
Neste artigo vamos analisar o pós 15 de Março, no plano político interno e externo e também no plano militar, referindo a actividade do Exército Português e da UPA, que depois do ataque inicial aparece progressivamente melhor armada e organizada.
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
Na sequência da tentativa de golpe do Gen Botelho Moniz, Ministro da Defesa, Salazar tomou para si essa pasta e parece ter acordado da longa e estranha letargia de um mês, durante o qual não tomou qualquer medida, após os brutais acontecimentos de 15 de Março. Mobilizou de imediato várias unidades militares, que em Maio tinham chegado a Luanda e eram suficientes para contra-atacar e fazer face a uma situação militar que se tinha tornado crítica.
Como vimos, o dispositivo militar português no terreno, na altura do 15 de Março era completamente inexistente. Após a insurgência, com a chegada de várias unidades a Angola, o primeiro problema com que se depararam as autoridades militares, foi a ausência duma quadrícula, definidora de áreas de actuação de cada uma dessas unidades. Para se ter uma ideia de como tudo era incipiente, só em fins de Março de 61 é que o Dec. Lei 43560 define as competências e responsabilidades dos Governadores Gerais e dos Comandantes Chefes em cada território colonial.
O mês de Abril foi crítico para o regime. Durante o período de inação de Salazar, altas figuras do Exército conspiravam contra ele. Botelho Moniz, Ministro da Defesa de 1958 a 1961, foi adido militar em Washington entre 1950 e 1951. Alinhado com a administração Kennedy na oposição à política colonial portuguesa, tentou a deposição de Salazar em conluio com Craveiro Lopes e Costa Gomes. Mercê de vários erros, sobretudo de avaliação da figura que pretendia depor, o golpe foi abortado em 13 de Abril, e a 14 Salazar faz uma remodelação governativa e substitui várias chefias militares por gente da sua confiança. Assume a pasta da Defesa, faz o célebre discurso “para Angola rapidamente e em força”, em que pela primeira vez refere oficialmente o problema angolano e começa a organizar a resposta aos acontecimentos de Março. Reúne o Conselho Superior Militar no dia 16, presidido por ele, cuja ordem de trabalhos consistia nas medidas a tomar para o envio imediato de tropas para Angola. A 18 de Abril partem para Angola por via aérea, os primeiros contingentes de tropas para-quedistas.
No mesmo dia, em Casablanca, é constituída a Conferência da Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, CONCP, fundada pelo MPLA, FRELIMO, PAIGC e MLSTP, movimentos nacionalistas respectivamente de Angola, Moçambique, Guiné e S. Tomé e Príncipe.
Entretanto a UPA desenvolve no Norte forte actividade, forçando os defensores da povoação do Bembe, militares e civis, a abandonar a localidade. Mucaba volta a ser atacada e os guerrilheiros aproximam-se de Negage e Carmona.
A Assembleia Geral da ONU aprova no dia 20 a Resolução 1603, instando o Governo Português a promover em Angola, com carácter de urgência, reformas nos capítulos dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais. Cria também um Sub-Comité (chamado Sub-Comité dos Cinco) a fim de investigar os acontecimentos de 15 de Março.
Até ao fim do mês partem para Angola vários contingentes militares por via aérea e marítima. Adriano Moreira, nomeado Ministro do Ultramar na remodelação de 14 de Abril, tem uma visão própria das reformas a fazer e abole o Estatuto do Trabalho Indígena, que vinha do Acto Colonial de 1930. O objectivo era remover legislação contrária aos direitos dos indígenas e facilitar o seu acesso à cidadania portuguesa.
No fim deste mês termina o cerco de Mucaba, devido à intervenção da Força Aérea.
No dia 1 de Maio chegam a Luanda as primeiras tropas por via marítima, dois Batalhões de Caçadores e quatro Companhias de Artilharia. No dia seguinte acontecem novos ataques da UPA a Sanza Pombo, Mucaba e Damba.
Marcelo Matias, Ministro dos Negócios Estrangeiros é substituído por Franco Nogueira no dia 4 de Maio. Homem de superior inteligência e craveira intelectual, será ele o arquitecto da defesa externa da política colonial de Salazar, baseada em três grandes princípios:
- Portugal estava a combater numa guerra imposta por forças estrangeiras;
- Portugal estava nessa luta orgulhosamente só;
- Portugal era uma nação una e indivisível do Minho a Timor.
Franco Nogueira adopta a lógica da utilidade e da vantagem da defesa das colónias não só para o País, mas também e sobretudo para os nossos aliados na NATO. Estava-se em plena Guerra Fria e se se pretendia conter o avanço do comunismo, havia toda a conveniência em manter a presença portuguesa em África, como uma barreira natural a esse avanço. O que ele pede aos membros da Aliança Atlântica é sobretudo solidariedade e apoio político, nada pretendendo nos planos militar e económico. Se a ameaça é global, a solidariedade também a deverá ser. Fazer passar estas ideias aos parceiros ocidentais, membros da NATO e velhos aliados, não era tarefa fácil. No entanto, Franco Nogueira foi absolutamente intransigente na sua defesa, sabendo que essa era a única via num caminho estreito. Só com a morte de Salazar, percebendo que era o fim do regime e da política colonial que o ditador corporizava, Nogueira abandonou essa luta, fadada ao insucesso desde o princípio.
Até ao fim da primeira semana de Maio a UPA realiza uma série de ações militares, atacando o Songo, a norte da cidade de Carmona, São Salvador do Congo, Sanza Pombo, Úcua, Santa Cruz, Macocola, e Bungo, com utilização de armamento cada vez mais sofisticado.
O início da reocupação do Norte de Angola, com a partida das unidades chegadas a Luanda no dia 1 de Maio, os Batalhões de Caçadores 88 e 92 para a Damba e Sanza Pombo respectivamente. No dia seguinte chegam a Luanda mais dois Batalhões e quatro Companhias. Os Batalhões seguem de imediato para o Úcua e Ambrizete.
Nesta altura, o regime começa a preocupar-se seriamente com a Guiné e Moçambique. É emitida pelo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, Gen Gomes de Araújo, uma directiva aprovada pelo Ministro da Defesa, sobre a “Segurança e defesa da Província da Guiné contra incursões de fronteira e sublevações internas”
A UPA ataca no dia 24 de Maio o Posto de Porto Rico, próximo de Santo António do Zaire, utilizando armas automáticas. No dia seguinte, realiza uma das mais longas ações desde o início da sublevação, com o ataque a Quimbele, durante treze horas seguidas. Sem qualquer apoio militar, os moradores repelem os sucessivos ataques, provocando 260 mortos ao inimigo.
A situação em Angola atrai não só a atenção dos movimentos emancipalistas, mas também todas as atenções internacionais. No dia 26, mais de 40 países afro-asiáticos convocam na ONU uma reunião urgente do Conselho de Segurança, para debater a situação em Angola.
No último dia de Maio, chega à Damba o Batalhão de Caçadores 88 que tinha saído de Luanda no dia 13. Neste mesmo dia toma posse em Lisboa, como Governador Geral e Comandante Chefe de Moçambique, o Almirante Sarmento Rodrigues. No princípio de Junho, será a vez do General Venâncio Deslandes ser nomeado nos mesmos cargos, para a Província de Angola. Venâncio Deslandes tomará posse em Lisboa, no dia 17 de Junho e iniciará funções no dia 24 do mesmo mês.
No dia 2 de Junho, a UPA ataca várias fazendas de café, nos arredores de Carmona, Negage e Ambriz.
Nesse mesmo dia dá-se a fuga de Portugal de estudantes das Colónias reunidos na Casa dos Estudantes do Império. Muitos deles serão mais tarde figuras proeminentes das guerras de libertação e no pós-independência, destacados líderes políticos, casos de Agostinho Neto, Pedro Pires, Joaquim Chissano, Manuel Rui Monteiro, entre outros. Amílcar Cabral seria assassinado antes do 25 de Abril, em Janeiro de 1973.
O Conselho de Segurança da ONU aprova em 9 de Junho, uma resolução condenando “os massacres e a repressão sobre a população angolana, podendo a persistência desta situação comprometer a paz e a segurança internacionais”.
A povoação do Tomboco é reocupada por uma força da Marinha em 14 de Junho.
A Vila do Ambriz é atacada no dia 19 pela UPA, com a utilização de armas automáticas. Três meses depois do início da luta armada, a capacidade militar e o armamento da UPA, não têm qualquer paralelo com a existente em Março.
O Secretário de Estado americano Dean Rusk, visita Lisboa no dia 27 para conversações com o Governo Português sobre a situação em Angola. No fim do mês é publicado o 1º comunicado oficial das Forças Armadas sobre as baixas em combate. Desde o 4 de fevereiro até esse dia, 50 militares tinham perdido a vida.
A par com o reforço contínuo do Exército, com a chegada constante de novos contingentes, a Força Aérea e a Marinha em Angola, também são reforçados com novas unidades aéreas e navais. Na reocupação do Norte, há o envolvimento conjunto dos três ramos das Forças Armadas. Na reabertura da chamada “Estrada do Café” na Serra da Canda, as operações militares envolvem o Exército e a Força Aérea. Este ramo das Forças Armadas recebe neste mês caças bombardeiros F-84G, vindos da Base da Ota.
Ainda neste mês de Julho, irá ter lugar uma operação destinada a reocupar Nambuangongo, que se mantinha na posse da UPA desde o 15 de Março. Tomou o nome de Operação Viriato e contou com o apoio da Força Aérea, com aviões PV-2 e T6. Envolveu dois Batalhões de Caçadores e um Esquadrão de Cavalaria. As duas colunas de trajectos opostos que convergiram em Nambuangongo, foram libertando nos respectivos percursos, inúmeras povoações e vilas ocupadas pela UPA. Esta operação teve uma importância acrescida, porque pela primeira vez desde o 15 de Março, havia efectivos suficientes para manter presença militar nas povoações e vilas libertadas. Em 19 de Março, a 5ª Companhia de Caçadores Especiais já tinha passado por Nambuangongo, que encontrou deserta, mas na altura prosseguiu e regressou à base.
Os intensos combates contra uma UPA crescentemente melhor armada, provocaram baixas em ambos os Batalhões envolvidos. No Batalhão de Caçadores 96, houve 7 baixas e 21 feridos. No BC 114, na tomada de Quicabo, morreram 6 soldados e 13 ficaram feridos.
Em 9 de Agosto, com a entrada dos dois Batalhões em Nambuangongo, terminou a Operação Viriato.
Embora o PAIGCV, Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, liderado por Amílcar Cabral, só tenham oficialmente iniciado a luta armada na Guiné em 1963, realizou a 25 deste mês, uma ação armada contra o quartel de S. Domingos, na fronteira com o Senegal, provocando quatro feridos.
É neste mês que se dá o primeiro grande lançamento de pára-quedistas com o objectivo de cortar as linhas de reabastecimento da UPA e permitir a ligação de Nambuangongo a Carmona e Negage, onde em breve se iria estabelecer uma base aérea, centralizando nela toda a actividade da FAP no Norte. Os três ramos das Forças Armadas, com destaque para o Exército, adquirem neste período novas capacidades operacionais. É assim que se dá, em 17 de Agosto a primeira utilização operacional dos aviões caças-bombardeiros F-84, a partir da base aérea de Luanda e que se realiza na Serra da Canda uma operação conjunta do Exército e Força Aérea. Uma Companhia de Pára-quedistas, salta e toma de assalto a povoação de Zenda, localizada nas proximidades da Serra.
O Ministro do Ultramar Adriano Moreira extingue no dia 24, por decreto, o regime de cultura obrigatória do algodão, arroz e cana-de-açúcar em Angola e Moçambique, consequência directa dos acontecimentos da Baixa de Cassange, onde a Cotonang, empresa luso-belga tinha o monopólio dessa cultura, num regime de semi-escravidão.
Na prossecução de reformas que se tornaram imperiosas, Adriano Moreira extingue em Setembro o Estatuto do Indigenato, que abrangia as três principais colónias portuguesas, criado em 1954. Esse diploma pretendia dotar de direitos civis e jurídicos ou de cidadania os indígenas das Colónias. Com essa lei ficavam definidos três grupos populacionais: os indígenas, os assimilados e os brancos. Para passar a assimilado, o indígena deveria demonstrar um conjunto de requisitos definidos na lei, como saber ler e escrever, vestir segundo padrão europeu, ter e professar a religião católica e ter padrão de vida e costumes semelhantes aos dos brancos. Só com a condição de assimilado, poderiam ter os direitos de cidadania negados aos indígenas. Para quem viveu em Angola nesse período, é fácil perceber a dificuldade dessa transição. Com a revogação do Estatuto, todos os indígenas passaram a ser cidadãos portugueses, com os direitos inerentes e vigentes na época.
No plano militar, o mês de Setembro ainda foi palco de algumas operações militares de consolidação, caso da tomada da Pedra Verde, local de morros escarpados que permitia à UPA dominar a estrada do Caxito para Quibaxe. No entanto os acontecimentos dominantes deste mês foram:
- A morte do Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarskjold, por se ter despenhado na então Rodésia do Norte, o avião em que seguia para uma reunião com Moisés Tchombé, líder separatista da Província do Katanga, visando o fim da rebelião;
- Apresentação de um relatório do Sub-comité dos Cinco sobre a situação nas colónias portuguesas. Sinteticamente referia que, a menos que Portugal fizesse reformas profundas nas suas Colónias, teriam de lançar um ultimato nesse sentido e aplicar sanções;
- Prisão de Agostinho Neto na Cidade da Praia e transferência para o Aljube em Portugal até 1963. Libertado nesse ano, foge para Léopoldville (actual Kinshasa) e junta-se ao MPLA, sendo eleito nesse mesmo ano presidente do Movimento.
No mês seguinte começam as divergências políticas entre Adriano Moreira, Ministro do Ultramar e Venâncio Deslandes, Governador Geral e Comandante Chefe em Angola que em breve levariam à sua destituição. Venâncio Deslandes queria implementar uma série de importantes reformas, um pouco à revelia de Adriano Moreira. As razões mais profundas da sua exoneração serão abordadas no próximo artigo.
No fim deste ano, durante o qual se perderam em Agosto o Forte de S. João Baptista de Ajudá, tomado pelo Daomé, os enclaves de Dadrá e Nagar Aveli, tomados pela União Indiana e em Dezembro as três possessões do Estado Português da Índia, em Angola estavam criadas as condições para uma prolongada guerra de guerrilha pela UPA, a que mais tarde se juntou o MPLA e posteriormente a UNITA. Os extensos reveses sofridos pela UPA durante a reocupação do Norte, foram apenas uma etapa não decisiva no processo de libertação nacional de Angola, durante o qual o Exército Português se iria envolver em três frentes de combate, ao iniciar-se a guerra na Guiné em 1963 e em Moçambique em 1964. Para um pequeno exército, não foi coisa de pouca monta.
António Carapito
(Continua)