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CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


Y Tu Mamá También (2001)

Alfonso Cuarón


Recém-saídos do ensino médio, Julio e Tenoch são melhores amigos que partem em uma viagem de carro rumo a uma praia imaginária. Estão acompanhados de Luisa, esposa do primo de Tenoch, que descobriu recentemente ter sido traída pelo marido. Embora possuam suas respectivas namoradas, os amigos disputam, (in)discretamente, a atenção e os flertes de Luisa. Percebendo o interesse dos dois, ela passa a explorar a rivalidade que existe entre eles, alterando a dinâmica da viagem.

A dupla partilha uma visão essencial de mundo. Um ideal, pilar da amizade e norte que guia toda e qualquer decisão, que pode ser resumido em uma palavra: sexo. Essa ideia é introduzida já na maneira como os personagens são apresentados, transando com suas respectivas namoradas. São jovens em um momento de descoberta e que vivem em função dessa sexualidade. Naturalmente, o ressentimento e o carinho que sentem um pelo outro também são pautados nisso.

O ressentimento se manifesta na competição por qualquer figura feminina que atravesse o caminho dos dois; eles chegam até mesmo a se relacionar com a namorada um do outro às escondidas. O carinho, além das brincadeiras de conotação sexual e das desculpas esfarrapadas para estabelecer contato físico, manifesta-se justamente nessa relação de traição. A namorada do amigo aparece como uma extensão dele, um veículo para a concretização de um desejo que não encontra expressão direta. Na impossibilidade de se aproximar do outro como objeto de desejo, resta a mulher que o representa: uma forma indireta de estabelecer uma intimidade que os próprios códigos de masculinidade dos personagens parecem impedir.

Outro fator indissociável para a compreensão da natureza competitiva dessa amizade é a disparidade social entre os dois. Tenoch é filho de um funcionário de alto escalão do governo mexicano, enquanto Julio pertence à classe operária. Dividem os mesmos espaços, mas nunca pertencem a eles da mesma maneira. Quando Julio comparece ao casamento elitizado de Jessica, por exemplo, sua presença destoa tanto pelas roupas simples e pouco combinadas quanto pelo gestual tímido de quem não está familiarizado com aquele ambiente. A rivalidade surge, também, como uma manifestação da tensão entre classes.

A chegada de Luisa radicaliza essa dinâmica entre a dupla. A liberdade sexual que os amigos exibem no discurso raramente encontra espaço para além de suas imaginações, mas a presença de uma mulher mais velha e experiente desestabiliza as regras que organizam a relação entre eles. Julio e Tenoch disputam sua atenção, acumulam ressentimentos e chegam a romper a amizade, até que Luisa expõe aquilo que os dois hesitam em reconhecer:

“Vocês marcam território, quando na verdade só querem mesmo é transar um com o outro!”

A provocação desmonta a fachada que sustenta a rivalidade entre os amigos. Mas reconhecer a possibilidade desse desejo não significa estar preparado para lidar com ele.

Os protagonistas permanecem focados em seu universo particular, alheios ao que acontece ao seu redor. Essa alienação é um aspecto fundamental para que a representação do México se torne tão vívida, construída a partir de uma câmera que se relaciona com o ambiente, levando o olhar para as coisas que os protagonistas não têm interesse em enxergar ou capacidade de reconhecer. É uma mise-en-scène de aspecto muito orgânico, que dá a impressão de que Julio e Tenoch são apenas uma história em meio a outras milhares que se cruzam. Uma sequência que fortalece esse aspecto é a passagem pela estrada de terra, onde a câmera olha com cuidado para eventos daquela comunidade, como uma abordagem policial, uma jovem celebrando sua quinceañera e até mesmo vacas bloqueando a via. Tudo isso enquanto o trio conversa sobre sexo.

A escalada da tensão caminha rumo a um clímax antecipável: a formação do trisal. Por mais que Cuarón seja explícito em relação ao sexo nesse filme, a abordagem que escolhe para essa cena é mais elegante: Luisa se ajoelha diante de Julio e Tenoch, que se aproximam tanto que seus corpos quase se encostam. A câmera lentamente se aproxima, abandonando o triângulo e removendo Luisa do enquadramento: agora só existem Julio e Tenoch, que se beijam graças ao contato da mulher. É a consumação do ato que sempre foi tão ensaiado, mas que também leva a amizade à ruína.

Ao mesmo tempo que Y tu mamá también se trata de um coming of age, toca também no ponto mais crucial e maduro da vida de Luisa, que só nos é revelado ao final do filme: sua relação com a morte, iminente em decorrência de um câncer. Enquanto essa viagem é o marco do início do amadurecimento de Tenoch e Julio, para ela representa o resgate (e último suspiro) da liberdade.