Cardus Edição 143, março 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro

73 ANOS PARA ATINGIR A PARIDADE ENTRE MULHERES E HOMENS NA EUROPA

 

Só em 2097! São as projeções mais recentes para uma paridade de género total na Europa, segundo o Relatório Global de Disparidade de Género (2024) do Fórum Economico Mundial. Se pensarmos em termos globais será preciso mais de um século (134 anos) para anular esse fosso (“GAP”). Este relatório anual, que analisa os indicadores de 146 países, avalia a paridade de género em quatro dimensões principais: o acesso à educação, a saúde e longevidade, a participação política e participação económica.

O maior “fosso” acontece nestas duas dimensões: no empoderamento político e nas oportunidades na Economia.

Apesar das mulheres representarem 42% da força global de trabalho apenas 31,7% chega a cargos de liderança. A sua sub-representação nas chamadas áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) é notória: apenas 30% dos cientistas no mundo são mulheres, e apenas 35% de estudantes matriculadas nestas áreas. Dia 11 de fevereiro celebrou-se o 10.º aniversário do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela ONU. Embora as mulheres tenham feito enormes progressos no sentido de aumentar a sua participação no ensino superior, ainda estão sub-representadas nestas áreas. Com vista à consciencialização destas disparidades assinala-se esta data em todo o mundo, com vista a fortalecer a cooperação entre a academia, as empresas e os responsáveis pelas políticas públicas: foi o caso da “Giornata Internazionale delle Donne e delle Ragazze nella Scienza”, promovido pelo CREA de Rende, um centro de investigação italiano na área da agricultura e da economia agrária.

Fomos ouvir a palestrante Catarina Bairrão Balula, convidada a testemunhar o seu percurso profissional de sucesso num organismo internacional. É portuguesa e responsável pelo Departamento de Cooperação Técnica e Formação do Conselho Oleícola Internacional, o organismo intergovernamental, sedeado em Madrid, que representa os países produtores e consumidores de azeitona e azeite. Formada no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, abraçou a carreira internacional. Tem dois filhos.

 

Catarina, como conseguiste alcançar este equilíbrio entre uma carreira de sucesso e a tua vida pessoal?

Tudo na vida necessita de um permanente equilíbrio e vivemos sempre nessa dinâmica. No tema que nos traz aqui hoje, e como Mãe, sempre necessitei de fazer esse balanço entre a minha vida pessoal e a minha vida profissional. A vida é feita de escolhas: na primeira escolha de emprego: público ou privado? Ficar no país junto da família e dos amigos ou arriscar uma carreira internacional? Na maternidade: o trabalho ou os filhos? O que vem primeiro? Como mulher portuguesa, criada na tradição dos países do mediterrânicos, fui educada como cuidadora, como são normalmente as jovens do meu País. Apesar de estar consciente do meu contexto privilegiado, pois nunca foi posta em causa a possibilidade de prosseguir os meus estudos, a verdade é que existe uma responsabilidade acrescida sobre as mulheres quer nas tarefas domésticas quer nos resultados académicos.

 

Sentiste que, por seres mulher, tinhas que dar mais de ti?

Já nesse tempo se verificava que as melhores alunas eram mulheres. Há muitos estudos que o comprovam, mesmos nas engenharias. Infelizmente, esses melhores resultados nem sempre têm correspondência nas oportunidades emprego no mercado de trabalho. Lembro-me que num dos meus empregos pediam mulheres solteiras, o que hoje deveria ser totalmente impensável.

 

Como conseguiste dar o salto para a carreira de sucesso que tens hoje?

Sempre me empenhei de alma e coração em tudo o que faço, mas também tive bastante sorte. Sem dúvida que o meu esforço, e o de outras mulheres, foi maior do que se fosse homem. As responsabilidades sobre a educação dos filhos, dos cuidados domésticos e do próprio Eu, acumulam-se às exigências profissionais e a nossa sociedade não está preparada para a vida em família. Existe uma preocupação permanente (por exemplo ir às reuniões na escola) e a culpa de, por vezes, falhar. Por outro lado, na minha experiência, mais de uma vez tive a sensação de não ser ouvida ou da minha opinião ser desvalorizada em relação a um colega homem. Isso hoje em dia acontece menos, já que a sociedade também evoluiu.

 

Pensas que as novas gerações estão mais conscientes e melhor preparadas?

Sim, penso que o fenómeno da globalização deu aos jovens maior acesso à informação e tenho a esperança que exista mais equidade nas oportunidades e para o seu futuro. A igualdade de género e o empoderamento das mulheres e das raparigas darão um contributo crucial não só para o desenvolvimento económico do mundo, mas também para o progresso, para um desenvolvimento mais equilibrado onde cada um tem consciência, a todos os níveis, do papel que partilha. Já não é a responsabilidade de cada um, é a responsabilidade de todos.

 

E agora que já ganhaste essa experiência e que tens a tua carreira consolidada, algo mudou?

A partir dos 50, penso que há uma grande mudança. A maturidade permite-nos, também a nós, questionar: o que vem primeiro nós ou os outros? O trabalho ou o nosso desenvolvimento pessoal? O que é mais importante na vida de cada um e o que nos traz mais satisfação individual? Ganham relevo questões relacionadas com a essência da humanidade: o amor e a compaixão pelo outro, a empatia e a capacidade de percebermos a história do outro e as marcas que lhe deixou, a comunicação com o outro e o respeito mútuo. E que todos merecem um tratamento equitativo. Tudo características que são muito femininas.

 

Acreditas que as Mulheres podem ser líderes na Mudança que o Mundo precisa?

Totalmente! As Mulheres têm uma inteligência que lhes permite desenvolver um tipo de liderança mais efetivo e preocupado com os outros. Podem ser inspiradoras para uma sociedade mais sustentável, inclusiva e equitativa. E têm demonstrado, ao longo dos tempos, uma resiliência exemplar: quer na vida pessoal quer profissional. Citando António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas: «Precisamos das perspetivas das mulheres para garantir que a ciência e a tecnologia funcionam para todos.»

 

Que conselhos darias às gerações mais jovens?

Que nunca desistam dos sonhos que que têm para as suas vidas. Que comuniquem de uma forma clara, empática, e respeitosa, colocando-se sempre no lugar do outro. Perseguir os sonhos! Nunca desistir de perseguir os sonhos!

 

O “gap salarial” entre homens e mulheres é espelho e consequência desta realidade. Em 2018, na Noruega, no Dia Internacional dos Direitos da Mulher, a associação Finansforbundet divulgou um vídeo onde um menino e uma menina completam a mesma tarefa…

Assista até o fim! Até uma criança percebe o que o teu patrão não é capaz de perceber!?

Ana B. Suspiro


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