Período de festas, supermercado a abarrotar de gente nas últimas compras apressadas para a grande festa do fim de ano. Filas de espera em todas as caixas, nenhuma vazia.
Escolhida a fila, a mais curta no momento, um cliente toma o seu lugar. À sua frente, com um bolo-rei debaixo do braço, está um idoso que se desloca apoiado numa bengala.
Lá ao fundo está o empregado, o caixa. Senhor de meia-idade, está de pé, um pequeno sorriso empático acompanha toda a atividade e a ladainha habitual: “Boa tarde”, “Deseja saco”, “Quer contribuinte”, “Muito obrigado”, “Boas Festas”.
A seu tempo, chega a vez do idoso, cujo único artigo é o bolo-rei, ser atendido. Não tem cartão de cliente e quer pagar em dinheiro. As mãos trémulas vão extraindo de um porta-moedas largo os cêntimos que depois de muito somados vão chegar aos euros que custa o bolo-rei. Uma a uma, as moedas vão saindo, o idoso perde-se nas contas, o empregado ajuda. Montinhos de 10, 20 e 50 cêntimos, são criados para facilitar a contagem. A fila espera e desespera, ouvem-se pequenos suspiros e alguns movimentos nervosos. Mas ninguém fala, nem reclama. O idoso treme, o empregado atencioso vai recolhendo as moedas até perfazer o necessário, as restantes voltam ao lugar de onde saíram. Recolher o ticket e acomodá-lo na carteira levou também algum tempo, tal como apanhar o bolo-rei, agarrar a bengala e com a lentidão necessária abandonar a caixa e dirigir-se para a porta de saída.
O cliente seguinte foi mais rápido, poucas coisas, cartão de cliente e pagamento automático. Tudo num ápice, boas festas sinceras desejadas mutuamente, a fila respirou aliviada.
Os dois clientes, o lento e o rápido, encontram-se, ainda, na porta de saída. Ambos seguem animados, talvez pelas compras, talvez pelos gestos e atitudes que tornam o viver mais agradável.
O caixa lá continuou na sua atividade rítmica, pega artigo, passa no leitor, pesa se necessário, entrega recibo, próximo cliente. O indelével sorriso marcante, tal como a ladainha profissional, mantêm-se. Esta com sotaque próprio, quente e aberto, do Brasil, como não podia deixar de ser.