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FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




42. O conhecimento


Imagem gerada por IA

Todos os seres vivos, plantas ou animais, precisam de conhecer “como é” o seu mundo, para nele poderem sobreviver e reproduzir-se. Os seres humanos também. Só que estes, além de sobreviver e reproduzir-se, desejam viver com níveis crescentes de bem-estar. Mas, no fundo, é o mesmo.

Nos seres humanos, este trabalho de conhecer como é o mundo é assegurado pelo cérebro e os órgãos dos sentidos, tanto externos, os cinco sentidos clássicos, como os internos (tão esquecidos). Sim, porque há um mundo interior tanto ou mais interessante que o exterior.

Há dois grandes tipos de conhecimento: o senso comum e o conhecimento científico.

O senso comum é o conhecimento que se obtém por viver a vida comum das pessoas do seu mundo. É um conhecimento de experiência feito, que serve para resolver sobretudo os problemas do dia a dia. É um conhecimento particular do mundo vivido; é interessado, pois visa resolver os problemas das pessoas no seu mundo; não é sistemático, é mais como uma caixa de ferramentas que uma pessoa usa conforme precisa; e normalmente é o suficiente para assegurar a vida aí onde a pessoa vive.

O conhecimento científico tem outra exigência: é obtido através do método científico, seja isso o que for, que lhe assegura pelo menos duas grandes caraterísticas: é universal e testado. A universalidade significa que esse tipo de conhecimento quer ser válido em todo o tempo e lugar, não quer estar sujeito a particularidades ou interesses que o tornam válido umas vezes e inválido outras. Além disso, só é científico se for testado no mundo dos factos, isto é, se não for desmentido pelo modo como os factos se dão a conhecer. Por isso, o conhecimento científico é o melhor conhecimento disponível, embora seja mais difícil de obter e mesmo de compreender, pois existe em rutura contra o senso comum. Este, o comum, é o conhecimento mais acessível e mobilizável de modo mais imediato, mas é menos seguro, menos rigoroso, menos confiável.

Bem vistas as coisas, a vida não é montada de acordo com o conhecimento científico, salvo em lugares muito especiais, como um laboratório, uma sala de operações cirúrgicas, uma oficina de produção de alta tecnologia… e mesmo aí, a vida vai bem para lá do que está montado do ponto de vista científico.

A vida humana, normalmente, começa a ser montada (primum vivere) e vivida com o conhecimento disponível e vai sendo melhorada recorrendo ao conhecimento científico que é necessário mobilizar para ir além do que se consegue sem ele.

Não há, nisto, nenhuma novidade assinalável. É assim a vida, por isso estamos habituados a que assim seja. Cada um de nós pode dar múltiplos exemplos (incluindo aqueles em que se recorreu a um falso conhecimento científico).

Mas há aqui, talvez escondido, um problema importante. O conhecimento diz-nos “como” o mundo é, mas não nos diz “que vida“ e “que mundo” queremos. Ou seja, daquilo que o mundo “é” não decorre o que o mundo “deve” ser. Na verdade, o conhecimento do senso comum é uma mistura do que o mundo é com aquilo que queremos que ele seja, o que cria uma confusão e nos dificulta deslindar o que é distinto.

Voltando atrás: daquilo que o mundo “é” não decorre o que queremos que a vida e o mundo “deve” ser. Quanto mais não seja, porque daquilo que o mundo é, muitos mundos podem ser tirados, quer deixando-o a si mesmo, quer procurando dirigir o processo da sua construção ou evolução. Só um exemplo: do conhecimento científico de como o mundo é, foi possível construir a bomba atómica. Mas deve ou não deve ser usada sobre Hiroshima? E mesmo que haja o perigo de acabar com toda a humanidade, não será difícil encontrar quem esteja disponível para isso.

Fica um problema importante por resolver: como é que a vida e o mundo devem ser?